É um “censos para borboletas” e todos podem ajudar a contar. Basta sair à rua

É um projecto de ciência cidadã que vai levar as pessoas a saírem às ruas para “caçar” borboletas – no bom sentido. Com os dados da contagem, as vantagens são muitas: é possível inferir a qualidade dos habitats, analisar a diversidade, os impactos das alterações climáticas e provar que a percepção de que os insectos estão a diminuir é uma realidade.

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Uma borboleta-zebra (Iphiclides feisthamelii), presente em todo o país Rui Félix

Contar borboletas e ajudar o mundo dos insectos é o mote do projecto que arranca este sábado e que funciona como uma espécie de “censos para borboletas”, diz ao PÚBLICO a coordenadora nacional, Eva Monteiro. Lá fora, há estudos que mostram que o número de insectos – incluindo borboletas – tem vindo a diminuir de forma preocupante ao longo dos anos, mas em Portugal não existem dados que permitam dizê-lo com certezas. Esta iniciativa vai ajudar e “qualquer pessoa pode participar, basta aprender a identificar borboletas”. De resto, é simples: há que definir um percurso com cerca de um quilómetro, aprender a distinguir as borboletas, fazer uma contagem de quantas se encontram e depois introduzem-se os dados numa plataforma online. Há um guia que explica tudo e que será disponibilizado online.

O projecto chama-se ABLE – Assessing Butterflies in Europe (Avaliação das Borboletas na Europa), é financiado pela União Europeia e tem uma duração inicial de dois anos. Portugal é um dos países prioritários, precisamente por não ter nenhum mecanismo de monitorização de insectos no país. “Na Inglaterra, por exemplo, há 30 anos que têm contagens semanais de borboletas”, reconhece a coordenadora – e, tal como na Alemanha, provam que os números de insectos têm caído a pique. Ainda que haja uma sensação geral de que não existem tantos insectos como outrora, “é impossível avançar com uma quantificação objectiva destas alterações”, explica Eva Monteiro, que é também vice-presidente do Tagis (Centro de Conservação de Borboletas de Portugal, uma associação sem fins lucrativos), responsável pela coordenação da aplicação do plano de monitorização de borboletas em Portugal. “O objectivo agora é alargar essa rede de monitorização a países do Sul e do Leste da Europa”, conclui.

As borboletas que serão analisadas são aquelas que voam durante o dia por serem um grupo restrito, popular, e fácil de identificar – em Portugal, existem cerca de 133 espécies diurnas (60 delas comuns a todo o território) e quase 2500 nocturnas (traças), mas estas últimas são mais difíceis de identificar e não são as mesmas que são utilizadas nos estudos estrangeiros. E as espécies diurnas são também “particularmente sensíveis às alterações climáticas, sendo por isso excelentes indicadores da qualidade dos habitats naturais e da diversidade de outros insectos”.

Neste projecto, o objectivo é caminhar em passo lento, contando-se as borboletas de cada espécie como se se estivesse dentro de um cubo: 2,5 metros para cada lado e cinco metros para a frente. “O compromisso que os voluntários têm de assumir é visitar este percurso onde seja relativamente fácil de chegar uma vez por semana, idealmente, ou no mínimo uma vez por mês”, esclarece. A visita ao percurso também dependerá das condições atmosféricas: não deve estar a chover, não deve haver vento e não deve ser feita no Inverno. A plataforma online onde se introduzem os números ainda está em inglês, mas está a ser traduzida para português.

Este será “um ano de aprendizagem”, considera a coordenadora, acrescentando que em Portugal só existem estudos pontuais, não há uma recolha sistemática. “Sabemos que há um declínio porque as ameaças que existem lá fora também as temos cá dentro: a agricultura intensiva, os herbicidas, as alterações climáticas e as alterações nos habitats… Não é uma percepção, está a acontecer”, assevera Eva Monteiro. “É por isso que isto é tão importante.”

Há muito que esta intenção de implementar os censos era uma realidade, conta Eva Monteiro, mas o projecto só arranca oficialmente este sábado, 4 de Maio, num workshop em Almada, onde se falará também da forma como devem ser contadas as borboletas, qual o exemplo dado por outros países europeus e projectos de ciência cidadã em Portugal (como os da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves e do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais​). O workshop – em que será distribuído o guia de borboletas – decorre no Estádio Municipal José Martins Vieira para que depois se possa visitar a Estação de Biodiversidade do Parque da Paz. A participação é gratuita mediante inscrição.

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Borboleta-limão (Gonepteryx rhamni) Charles J Sharp/Wikipedia Commons

As borboletas “são prova da diversidade e da abundância” e adaptam-se à temperatura, à altitude, à humidade, à vegetação. Há borboletas que brincam com os desenhos que têm nas asas para se camuflarem, como a borboleta-pavão diurna (que quando aberta tem uma cor garrida com uns desenhos de olhos mas quando se fecha fica toda preta), ou as borboletas-limão ou borboletas Cleópatra (que parecem folhas de árvores). “Está tudo relacionado”, sintetiza Eva Monteiro. E uma coisa é certa: “Se as condições certas deixarem de existir, as borboletas vão desaparecer.”

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