FC Porto tinha sala e computador de acesso restrito para analisar emails do Benfica

Diogo Faria, membro do departamento de comunicação dos “dragões” afirma ter sido o único a analisar os emails do Benfica, passando depois as informações consideradas relevantes a Francisco J. Marques, director de comunicação. Funcionário do clube reconhece ter sido colega de faculdade de Rui Pinto, mas diz não ter tido qualquer contacto com o hacker.

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Reuters/PEDRO NUNES

O FC Porto tinha um computador usado exclusivamente para armazenar os emails do Benfica, afirmou esta sexta-feira, no Tribunal do Juízo Central Cível do Porto, Diogo Faria, funcionário do departamento de comunicação no clube e um dos arguidos no “caso dos emails”. Segundo o próprio, o computador encontrava-se fechado numa sala que estava apenas acessível a si e a Francisco J. Marques, director de comunicação dos “azuis e brancos”. Esse computador, protegido por uma password que apenas era conhecida pelos dois, não estaria conectado à rede informática interna do clube.

“Sei que o Francisco J. Marques recebia a correspondência electrónica por e-mail, enviada do endereço ‘elements123@tutanota.com’”, disse Diogo Faria. Também o director de comunicação dos “dragões” acabaria por criar uma conta naquela plataforma alemã, que encripta os emails para aumentar a segurança e o anonimato das informações partilhadas, disse Faria.

“O nosso objectivo era analisar as caixas de correio para ver se existiria informação do interesse público e confirmar as suspeitas que já existiam no futebol português”, afirmou o funcionário do FC Porto.

Faria — que é co-autor, com Francisco J. Marques, do livro O Polvo Encarnado — explicou que era o único que analisava as informações contidas nos emails, escolhendo os conteúdos a passar ao director de comunicação do FC Porto.

Questionado em tribunal sobre outras informações eventualmente contidas nos emails — relativas a metodologias de treino, contratos de patrocínio ou dados de jogadores do Benfica — Diogo Faria alega que tal “era passado à frente”, sem que esses dados fossem utilizados em benefício do FC Porto, por não terem qualquer indício de actividades ilegais.

A equipa de defesa do FC Porto tentou que Francisco J. Marques, um dos réus do caso, fosse ouvido nesta sexta-feira para esclarecer a recepção, a pesquisa e selecção dos emails. Contudo, devido à hora tardia, o juiz preferiu que o director de comunicação dos “dragões” fosse ouvido no dia 10 de Abril, a partir das 15h30. De modo a provar que os emails não estavam exclusivamente na posse do FC Porto a equipa de defesa propôs que fosse acrescentada ao processo a correspondência electrónica partilhada pelo blogue “Mercado de Benfica”. Os advogados do Benfica, contudo, opuseram-se, afirmando que esses ficheiros tinham sido “obtidos de forma ilícita configurando a prática de um ou mais crimes” de violação de correspondência privada.

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Diogo Faria ficou responsável pela análise dos emails que chegavam a Francisco J. Marques NELSON GARRIDO

O Benfica exige uma indemnização de 17,7 milhões de euros ao FC Porto, alegando danos provocados pela divulgação não autorizada da correspondência electrónica do clube. No total, foram analisados 20 gigabytes de informação dos rivais.

Rui Pinto? “Não vejo o desde 2013”

Diogo Faria diz ter sido contratado pelo FC Porto pela sua capacidade de analisar grandes volumes de dados em Junho de 2017, período em que a correspondência electrónica do Benfica chegou à posse de Francisco J. Marques.

Em tribunal, o funcionário do FC Porto foi questionado sobre uma possível ligação a Rui Pinto, hacker que em vários momentos foi associado na imprensa à intrusão no sistema informático do Benfica, mas que tem negado qualquer participação no crime. “Fui colega do Rui Pinto na Faculdade de Letras da Universidade do Porto entre 2008 e 2011”, reconheceu, negando contudo uma relação de proximidade.

“Era uma turma com mais de cem estudantes. Não o vejo desde 2013, altura em que concluí o mestrado. Nunca tive o número [de telefone] dele nem ele o meu”, disse.

Um dos informáticos que trabalham com o clube foi um dos ouvidos no tribunal esta sexta-feira. Igor Fontes admite ter ajudado Francisco J. Marques a descarregar alguns dos primeiros emails que chegaram às mãos dos portistas, explicando que foi ele que deu a ideia de existir um computador utlizado exclusivamente para o armazenamento da correspondência electrónica: “Ele tinha uma página da Internet aberta. Disse-lhe para fazer o download fora da rede, de preferência noutro computador”.

Igor garante que, ao início, desconhecia a origem dos emails. Apenas fez a ligação quando estes começaram a ser revelados pelo director de comunicação dos “dragões”. “Não sabia que eram do Benfica. Quando vi no Porto Canal associei. Nunca me foi dito directamente que vinham do Benfica”, atesta.

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