Líderes da UE preparam-se para assumir rédeas do “Brexit”

Cansados das manobras de Londres, os 27 querem fixar limites claros e impor condições restritas para aceitar o pedido de prolongamento dos britânicos.

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Michel Barnier, o negociador-chefe da UE, não terá a palavra final neste dossier ROBERT GHEMENT/EPA

A primeira-ministra britânica, Theresa May, não terá uma recepção muito calorosa em Bruxelas, quando se apresentar perante os seus homólogos reunidos no Conselho Europeu de dia 21 para pedir a extensão do prazo das negociações do “Brexit”.

A sucessão de votos e contravotos às moções e emendas apresentadas esta semana na Câmara dos Comuns só terão servido para exasperar ainda mais os líderes europeus, que já não disfarçam o seu cansaço e irritação com as manobras dilatórias do Governo britânico – e não escondem a sua total perda de confiança na líder conservadora.

Os 27 estão de tal forma relutantes que se preparam para assumir as rédeas do processo do “Brexit”, fixando limites claros para a acção e impondo condições restritas para aceitar o pedido de prolongamento dos britânicos, que deixaram de ser considerados parceiros fiáveis.

Por isso, se Londres quiser uma extensão do artigo 50.º para adiar a data da saída, terá que explicar muito bem o que pretende alcançar. E desta vez, os europeus querem ouvir um plano concreto: não vale a pena May vir pedir “ajuda” ao Conselho, na forma de garantias, interpretações, protocolos e declarações anexas a um acordo de saída que ninguém em Bruxelas acredita será alguma vez aprovado na Câmara dos Comuns, por mais meaningful votes que a primeira-ministra marque.

Com as negociações do artigo 50 formalmente encerradas, o processo passou agora das mãos dos técnicos para os políticos. Ou seja, as decisões a partir de agora competem apenas aos chefes de Estado e Governo. Esta quinta-feira, o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, disse que vai recomendar um “adiamento longo”, em resposta ao pedido de Londres. “Ele já não acredita que se possa ultrapassar o impasse rapidamente e quer pôr fim a este circo. Um adiamento longo é a solução mais óbvia”, explicou o seu porta-voz.

Por enquanto, os líderes europeus têm mantido para si as suas opiniões sobre quanto tempo pode durar esta pausa: as sensibilidades variam entre os que não vêem nenhuma utilidade em esticar a agonia e os que ainda esperam que os britânicos voltem atrás na decisão de sair da UE.

A questão do prazo é delicada por causa da data das eleições para o Parlamento Europeu, que poderão ou não ter de ser convocadas à ultima hora no Reino Unido. Mas essa nem é a preocupação mais premente para os líderes. O que nenhum quer é ter o caos do “Brexit” a perturbar a campanha das europeias, dando combustível aos políticos populistas e aos partidos eurocépticos.

É também por isso que Theresa May não vai encontrar nenhuma simpatia deste lado do Canal: nos 27 países da UE, também já começaram os cálculos eleitorais.

“Se houver um adiamento, não será seguramente para renegociar o acordo que levámos meses e meses a fechar”, garantiu o Presidente francês, Emmanuel Macron, que desafiado pela extrema-direita tem sido uma das vozes mais duras contra o Reino Unido. “Se o desejo em Londres ainda é de uma saída ordenada, então este acordo é o único disponível”, insistiu o negociador chefe da UE, a partir da Roménia.

“Temos um enorme respeito pelos procedimentos parlamentares e legislativos do Reino Unido, mas para seguir em frente precisamos de um voto positivo e construtivo, não um voto negativo contra o no-deal”, sugeriu – e a ironia das ironias é que depois de meses a diabolizar Michel Barnier pela sua alegada intransigência e dureza negocial, os britânicos ainda vão acabar a lamentar que a palavra final não pertença ao veterano diplomata francês.

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