Baldur Brönnimann: “Para muitos compositores europeus, o Novo Mundo significou um recomeço”

O maestro titular da Orquestra Sinfónica do Porto antevê o que vai ser o ano Novo Mundo na Casa da Música.

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Baldur Brönnimann, maestro titular da Orquestra Sinfónica do Porto Nelson Garrido

A Casa da Música abre esta sexta-feira a sua programação de 2019, dedicada ao continente americano. O maestro titular da Orquestra Sinfónica do Porto, Baldur Brönnimann, faz uma antevisão do que será o ano Novo Mundo.

O que é que o ano Novo Mundo vai trazer à Casa da Música?

O Novo Mundo tem uma grande diversidade na música. É música do século XX, porque os compositores americanos e latino-americanos vêm desse tempo. O que vamos mostrar é toda essa diversidade, que se verá logo no concerto de abertura, com a peça do [Alberto] Ginastera, Popol Vuh, la creación del mundo maya, música autóctone, com muita percussão. É como se fosse o próprio continente a ir em busca da sua identidade, com os seus compositores a inspirarem-se nas suas raízes. Vamos mostrar este aspecto, que depois acabou por alimentar a própria música europeia, levando-a a olhar para a América.

Qual é a principal diferença entre a tradição europeia e a música do Novo Mundo?

Duas coisas essenciais. A primeira é que, para muitos compositores europeus, o Novo Mundo significou um recomeço. Aconteceu assim, por exemplo, com o [Edgard] Varèse – que vamos ouvir já no dia 18, com a peça Amériques. É um novo horizonte: os compositores atreveram-se a fazer coisas que antes não ousariam, e descobriram um espaço de liberdade. O segundo aspecto é que os compositores americanos e latino-americanos, pouco a pouco, foram-se afastando da tradição europeia e partiram à procura da sua própria identidade.

No concerto de abertura vamos ter também a sinfonia Do Novo Mundo, de Antonin Dvorák. Um título que é já todo um programa.

Dvorák foi um compositor muito importante, que chegou aos Estados Unidos e disse aos compositores: “Vocês não têm de compor música europeia, têm de fazer a vossa própria música”. Porque era o que ele próprio fazia no seu país [a Boémia, actual República Checa], olhando para as raízes, para a música popular, tradicional. E quando chegou aos Estados Unidos fez o mesmo. Aos compositores americanos, deu-lhes o impulso para olharem para a sua própria música, um impulso tão importante, por se tratar de um compositor europeu muito famoso. Foi o primeiro que sacou da música americana mais do que uma curiosidade. E compôs a sinfonia Do Novo Mundo com temas americanos e afro-americanos.

Qual poderá ser a grande revelação do programa?

Há um projecto muito especial: a execução da 4.ª Sinfonia de Charles Ives [9 de Março, com a Orquestra Sinfónica e o Coral de Letras da Universidade do Porto tendo como como solista o pianista brasileiro Paulo Álvares], que nunca se fez nem em Portugal nem em Espanha. É uma obra monumental que reflecte a filosofia do compositor, a sua visão do cosmos. É, de algum modo, a quinta-essência da música americana: um espírito muito livre e uma mescla de estilos, com a temeridade e a ousadia de experimentar um caminho novo. E é uma obra que se toca muito pouco, porque é muito elaborada. Será um dos momentos especiais da temporada.

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