A última xávega artesanal do Algarve luta para não morrer

Berço da xávega de origem mediterrânica em Portugal, o Algarve viu esta arte de pesca quase desaparecer dos areais no final do século passado. Hoje, existem apenas duas companhas em Lagos, uma ainda artesanal, em que tudo se vence à força de braços e de espírito comunitário. Apesar das dificuldades, José Santos resiste, mais para turista ver do que para pescador comer. No areal, a vontade é só uma: “Não deixar isto morrer”.

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Ainda o sol não rompeu o horizonte quando se iniciam os preparativos para mais um lance de arte-xávega na Meia Praia, em Lagos. Pouco passa das 6h de uma manhã fresca de Julho. No areal, o sono ainda emudece a maioria dos rostos, mas os movimentos são rápidos, mecânicos. Parecem coordenados com o clarear do novo dia. Enquanto uns libertam a embarcação de madeira, outros desenham um caminho de barrotes sobre o areal. Enquanto metade puxa pela proa, outra metade empurra pela popa. O trilho de madeira vai sendo pincelado a água para que o barco deslize mais facilmente. Entretanto, o motor do barco José Fernando já aguarda num carrinho-de-mão junto à beira-mar para aliviar a carga da coluna de braços que arrasta a embarcação para o mar. Com a garantia de que o primeiro-cabo da rede está bem ancorado no areal, José Santos, mestre e proprietário da embarcação, e outros dois tripulantes sobem ao convés. Em 15 minutos, a primeira etapa está concluída. Enquanto o barco se afasta para largar a rede, é hora do pequeno-almoço para quem aguarda na areia.

De há uns tempos para cá que é assim, de Maio a Outubro, pelo menos uma vez por semana. Ou quando o mar amansa e os braços são suficientes. Zé Bala, como é conhecido por todos, faz contas à meteorologia e ao que precisa, acerta o dia da faina e, de véspera, liga aos ajudantes mais fiéis. “Depois esses ligam para os outros e forma-se uma cadeia de comunicação”, conta ao P2. Nesta companha, ninguém faz da xávega profissão, nem mesmo Zé Bala. Muitos são reformados, como ele, outros estão de folga ou ainda não entraram ao trabalho, alguns são veraneantes. “Às vezes, vem um russo ou outro que anda aí a trabalhar. Gostam muito de vir porque levam peixe e assim já não precisam de comprar.” É essa a paga de toda a lavra: um quinhão daquilo que vier na rede. Pode ser muito, pode ser pouco, em dias de azar pode ser quase nenhum. Mas, garante quem reforça o estômago no areal, o peixe é o que menos pesa na decisão de vir.

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Os velhos estão a ficar mais velhos e os novos não se interessam. É difícil garantir equipa suficiente para cada lance

“É pela amizade. Contam-se umas anedotas, leva-se com uns baldes de água por cima”, ri-se José Maria, construtor civil de 52 anos. Natural de Barão de São João, freguesia rural do concelho de Lagos, veio pela primeira vez com um colega há “uns oito anos” e gostou “da festa”. “Isto para mim é uma família.” José Júlio, de 56 anos, concorda. “Não é tanto pelo peixe, mas pelo convívio, pelo petisco, pelas anedotas.” Sobre a mesa há de tudo um pouco: sandes de chourição, pão com torresmos ou com chouriço, biscoitos, bolos caseiros, palmiers, gomas, chocolates. Mais água e café em termos de plástico. E nas garrafas de vidro? “Isso é água de Monchique”, riem-se. A transparência é semelhante, mas o líquido é feito a partir das árvores de medronho. “Isto é que é lindo, estes moços”, irrompe Bruno Vieira num gesto largo, com um vozeirão que só há-de ter a concorrência das gaivotas. Aos 43 anos, é um dos mais novos entre o grupo habitual e o principal animador da “festa”. Mete-se com toda a gente, lança piadas, grita frases de incentivo. “Quem quer peixe molha o cu! Vamos embora!”

Natural de Ferragudo, no concelho de Lagoa, Bruno mudou-se há três anos para a Mexilhoeira Grande, na fronteira entre Lagos e Portimão, onde trabalha numa escola. Veio há quatro anos à xávega a convite de um amigo e deixou-se apegar a ela. “Temos esta luta que é não deixar isto morrer.” Os velhos estão a ficar mais velhos e os novos não se interessam. É difícil garantir equipa suficiente para cada lance. “Cheguei a vir aqui e não estavam dez pessoas. Para podermos fazer, é preciso, pelo menos, dez para um lado e dez para outro.” Este ano, Bruno e Dinah Graça começaram a fazer uma divulgação no Facebook mais dinâmica, para tentar atrair curiosos e entusiastas. Todas as semanas, anunciam a data e a hora em alguns grupos locais e depois partilham fotografias e vídeos da faina. Dinah, 54 anos, é a principal responsável pelos petiscos à mesa. “Não queremos que ele acabe com isto.” Tânia Bandarrinha, 39, tem vindo nas últimas semanas desafiada por Bruno. Olha em volta. “Estes rostos têm história. Gostam de conviver, estão sempre bem-dispostos. E o mestre é cinco estrelas. O que ele quer é mostrar isto à nova geração e incentivar-nos para que não se deixe acabar.”

A xávega desapareceu “em menos de nada”

A arte-xávega, definida na legislação portuguesa como “arte envolvente-arrastante”, é um tipo de pesca tradicional de “cerco e alar para terra”, a única deste género ainda permitida em Portugal. Terá surgido na costa do Mediterrâneo durante a Antiguidade e aí se desenvolveu ao longo dos séculos, até ser simplesmente apelidada de “xábaka”, designação genérica para “rede” em árabe. Não existem registos históricos que datem com precisão a introdução desta arte de pesca em território português, mas terá surgido primeiro no Algarve, trazida por pescadores andaluzes. E, a partir do Sul, ter-se-á difundido pela costa atlântica da Península Ibérica. Para vislumbrar as embarcações em forma de “meia-lua” que hoje povoam o imaginário, no entanto, é preciso avançar até ao século XVIII. Os “barcos-da-arte”, maiores, muito curvos e de redes grandes, foram introduzidos nas praias arenosas da Costa Nova por armadores de pesca catalães durante aquele período e terão influenciado as novas companhas nos areais a norte e a sul de Aveiro. É nestas regiões — desde Espinho à Nazaré — que ainda hoje se concentra a maioria das licenças atribuídas.

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José Santos: “Às vezes, vem um russo ou outro que anda aí a trabalhar. Gostam muito de vir porque levam peixe e assim já não precisam de comprar”

No Algarve, no entanto, José Santos nunca viu tais barcos de proa altiva a furar as vagas. Mantiveram-se mais pequenos, achatados, de cores garridas — o mar calmo do Sul não exigia outros. No Museu da Marinha, em Lisboa, está em exposição um calão (embarcação comprida, de dez remos por banda, empregada sobretudo na pesca do atum) do mesmo armador da praia da Salema (concelho de Vila do Bispo) a quem comprou duas licenças em 1983. “Fiz um mau negócio”, ri-se agora. “Aquele estava um bocado partido, eles vieram e arranjaram logo. Eu comprei o que estava pintado, todo bonito, mas afinal estava podre por baixo”, recorda. Acabou por desistir de uma das licenças e, mais tarde, trocar aquele barco por um mais pequeno, o José Fernando, que ainda hoje utiliza.

O gosto pela xávega é antigo. José Santos nasceu “praticamente dentro de água” há 67 anos, num dos bairros de pescadores da Meia Praia, quando ainda eram pouco mais do que um conjunto de barracas. No pós-25 de Abril, os dois bairros foram sedimentados a tijolo no âmbito do Serviço Ambulatório de Apoio Local e é numa das casas do Bairro 1.º de Maio que ainda vive. Da porta à areia distam poucos metros, separadas pela linha de caminho-de-ferro. Atravessa-a todos os dias, que ninguém lhe tira o mar do horizonte por muito tempo. “Sempre acompanhei esta história da xávega”, conta. “O tipo de pesca com redes que havia aqui sempre foi isto. Aqui e nas outras, porque havia nas praias de Faro, Quarteira, Armação de Pêra, Vila Real de Santo António, Monte Gordo, Praia Verde.”

Quando começou, aos 17 anos, deveriam existir “uns oito ou nove barcos a trabalhar” no areal da Meia Praia. “Talvez mais.” José Santos começou a tomar gosto. Dava-lhe gozo ir para a praia ver os mais velhos remendar as redes. “O meu pai também era pescador, mas andava nas traineiras, não percebia nada disto”, ri-se. Foi com os mestres mais antigos que aprendeu. “Às vezes, as redes partiam-se e lembro-me de ir lá ao pé deles. Alguns gostavam de ensinar”, recorda. Pediam-lhe para segurar numa ponta ou noutra, para ir vendo como faziam. “Já tinha umas luzes do que fui aprendendo com os mais velhos, depois com o trabalhar vai-se apanhando prática naquilo.” Hoje, garante, “não há nada que não saiba fazer”.

Durante a guerra colonial, foi destacado para a Guiné. De repente, quando regressou, a xávega “já quase não existia” no Algarve. “Nos anos 70, 80, isso desapareceu tudo em menos de nada”, recorda. Os mais velhos foram deixando e ninguém queria seguir. “Então eu cá pensei em recuperar isto”, conta. Ainda andou uns tempos com o barco de um armador de Faro com quem tinha trabalhado uns anos antes. Até que há 35 anos comprou a licença com que ainda trabalha. No entanto, José nunca quis a xávega como profissão. “Naquela altura, estava mesmo mal na pesca. Ainda continua, mas mesmo assim está muito melhor.” Por isso, preferiu arranjar um emprego fixo, com um ordenado certo ao final do mês. Primeiro na indústria conserveira, depois num hotel mesmo ali em frente. “Ganhava 11 contos por mês e fui ganhar 30. Quem é que ganhava um conto de réis por dia naquela altura?” Trabalhou no Hotel Dom Pedro desde a construção do edifício até se reformar, primeiro como guarda-nocturno, depois na recepção.

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José Santos: “Estou a trabalhar artesanalmente para manter a tradição. Torna-se mais complicado, mas eu gosto de ver a pesca assim e gosto que as pessoas vejam. Faço isto mais para o turista ver do que outra coisa”

A xávega nunca parou. “Fazia a recepção da meia-noite às oito, depois saía dali e ia para a pesca”, recorda. Quando não conseguia, pedia a alguém para ir lançar a rede e “fazia-se o cerco à mesma”. Nunca deixou de ir ao mar. De tudo na arte, aquilo de que mais gosta acaba por ser o “convívio” que se cria entre o grupo. “Gosto de conhecer pessoas, de conversarmos. Às vezes aparece gente de outros sítios no Verão.” E de se manter na praia com uma “arte do tempo antigo”. O barco é de madeira, as redes ainda têm flutuadores de cortiça. E, apesar do pequeno motor, mantém os remos dentro da embarcação. “Quando não há vento, ainda remamos para não perder o hábito”, ri-se, como quem assume ser já mais intenção do que realidade. Na companha de José Santos, também não há tractores a puxar o barco nem as redes, como na esmagadora maioria dos casos. Tudo é feito à força de braços. “Estou a trabalhar artesanalmente para manter a tradição. Torna-se mais complicado, mas eu gosto de ver a pesca assim e gosto que as pessoas vejam.” E admite: “Faço isto mais para o turista ver do que outra coisa.”

Um trabalho comunitário para turista ver

No areal, a embarcação está de regresso com a outra ponta da rede, cerca de uma hora depois. Para quem ficou na praia, é tempo de continuar o trabalho. O grupo divide-se pelos dois cabos da rede e começa uma dança sincronizada. Cada um já tem o cinto colado ao tronco, na diagonal. Resta amarrá-lo à rede e puxar. Quando chegam ao final do percurso, soltam o cinto da rede, caminham até à água e repetem. Primeiro emergem os cabos, depois as mangas da rede e, por fim, o saco. Os dois lados da lavra cada vez mais próximos. Há quem se curve no esforço e quem pareça seguir mais ligeiro.

José Eduardo Vicente, de 64 anos, não abranda no carreiro, enquanto fala com o P2. “Sou de Mafra, mas tenho casa em Bensafrim”, vai contando, com o corpo balançado para trás, juntando aos músculos o peso do corpo. “Quando venho de férias e sei que há isto, venho logo para aqui.” No Inverno, é a caça ao javali. No Verão, a xávega. “Uma pessoa também não tem nada para fazer e assim levo umas cavalinhas fresquinhas”, resume. José Júlio vem logo um pouco atrás na fila de homens, mulheres e até algumas crianças. “Com esta malta toda que está cá hoje até está a andar depressa de mais”, atira, olhando as duas bóias de sinalização. É sábado. E ao fim-de-semana, por norma, há mais ajudantes disponíveis. Mas há muito tempo que não viam tanta gente. Por alto, contamos umas 25 pessoas em cada lado, mais alguns banhistas curiosos que, entretanto, chegaram à praia. Quando regressamos a Lagos para assistir ao lance seguinte, a uma sexta-feira, o grupo não ultrapassa as 30 pessoas.

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Muitos voluntários aparecem apenas pelo simples convívio

No mar, já se vislumbra um pequeno cerco de placas de cortiça no limiar da areia — é o saco, o clímax de todo o processo. José Maria atira mãos de areia para agitar o peixe, enquanto José Santos está de água pelos joelhos a avaliar a pescaria. Não é mau, não é muito. É quase nada. Ainda na semana passada, duas toneladas de peixe rebentaram parte do saco. Desta vez, o total não chegará aos 400 quilos. Menos ainda na sexta-feira seguinte. Um último esforço e o saco deita-se a seco sobre o areal. José Santos abre a rede e a terceira fase começa: enquanto a maioria leva de novo o barco ao posto, próximo das dunas, alguns já separam cada espécie de peixe pelas caixas de plástico. O esvoaçar de dezenas de gaivotas é agora ensurdecedor. Há quem pegue nalguns peixes mais miúdos e levante a mão no ar, para dar de comer às gaivotas em momentos fotogénicos.

“É uma alegria ver o peixinho a saltar na rede”, sorri Eunice Branca, de 58 anos. Já os avós vinham ajudar na xávega, ainda havia mais embarcações no areal. Moravam todos ali, “a areia quase dentro de casa”. “Quando sabia [que havia pescaria], vinha logo. Sempre gostei disto”, conta quem, aos três anos, “fugiu de casa para vir para a praia”. Hoje, Eunice vive em Bruxelas, mas passa em Lagos dois meses de férias no Verão. Regressa sempre à xávega. “Parece que está no sangue da gente”, diz. “Cada vez que volto e vejo as caras deles fico contente. Significa que ainda estão cá.”

Na rede, salta muita petinga e cavala, ruivos, cabras, carapaus, salemas, raias, robalos, salmonetes, bicas, safios, xoupas, peixes-aranha. “This is a spider fish. If you touch it, it hurts you”, diz José Júlio, alertando a um casal de estrangeiros que se abeira da rede. Cornelia vai tirando fotografias, curiosa. É a primeira vez que vê algo semelhante. Mas para a suíça, “mais ou menos vegetariana”, os peixes “não parecem muito felizes”. “É uma prática cultural, mas faz-me alguma confusão”, confessa antes de retomar a corrida. A maioria dos turistas aproxima-se, fica um pouco a assistir aos trabalhos, faz dezenas de fotografias, selfies e vídeos e segue caminho. A divisão da pescaria é demorada e mesmo os mais resistentes acabam por desistir. São os turistas portugueses que acabam por ficar até ao fim, na esperança de também levar algum peixe para casa.

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Depois da divisão por espécies, segue-se a distribuição. Quem ajudou a puxar a rede coloca-se numa roda em volta das caixas, cada um com o seu saco ou balde de plástico. Uma pequena parte do pescado já seguiu para lota, outra aguarda o leilão “para ajudar a pagar a gasolina do barco” e outra foi distribuída por aqueles que mais contribuíram (quem seguiu no barco ou ajudou a colocar as redes). Tudo o resto é dividido irmãmente. Paulo Niza, de 33 anos, e João Augusto, de 26, são os mais novos entre os adultos. Foi a primeira vez que participaram. João destaca a “experiência quase única”, de uma grande “simplicidade” e óptimo contacto “com o meio mais natural”. Foi Paulo quem o desafiou. “Faço parte da assembleia municipal e já há algum tempo que queria vir”, conta o primo mais velho. “Gostei bastante. É para repetir. Sempre se faz um bocado de exercício a puxar as redes e contribui-se para não deixar a arte morrer.” Antes das 10h, tudo termina. E a praia fica de novo entregue ao sossego dos poucos banhistas que a esta hora se vislumbram ao longo do areal, desprotegido do vento norte que se faz sentir.

Artesanal igual a mecânico

Em todo o país, restam 42 licenças atribuídas à arte-xávega. Em 25 anos, o número caiu para menos de metade. A quebra tem-se acentuado nos últimos anos — desde 2013, desapareceram 11 licenças. A legislação actual não permite a concessão de “novas autorizações nem licenciamento inicial para o exercício” deste tipo de pesca. E todos os anos, os armadores têm de cumprir um valor mínimo de vendas em lota para verem as licenças renovadas. “Se não realizo os 6300 euros que eles querem anualmente, não me dão a licença”, lamenta José Santos. A preocupação era grande em meados de Julho. “Este ano, ainda não consegui fazer uma venda e termina este mês o prazo das licenças. Não sei como vou fazer.” No sábado em que o P2 esteve em Lagos, era o sétimo lance que a companha fazia este ano e a primeira vez que levava peixe à lota. Rendeu “uns 70 euros”.

De acordo com a legislação em vigor, as autorizações são canceladas, caso “não [haja] exercício da actividade sem justificação no ano anterior”, ou se verifique o “abate da embarcação ao registo na frota de pesca”, salvo se o barco for substituído por “razões ligadas ao aumento da segurança”. No entanto, o licenciamento da pesca profissional prevê a possibilidade de se “justificar a actividade reduzida” no ano anterior, “por reparação da embarcação ou doença do proprietário, devidamente documentada, ou por alteração de proprietário”.

No caso da companha de José Santos, o baixo valor de vendas em lota tem várias origens. Por um lado, o volume de peixe capturado tem sido reduzido. Por outro, os preços mantêm-se baixos. “As primeiras cavalas saem [da lota] a 16 cêntimos/quilo, depois estão a oito euros [na praça]. Onde é que se consegue fazer seis mil euros assim?”, reage Dinah Graça. Outro dos problemas tem sido a elevada percentagem de peixe capturado abaixo do tamanho mínimo de desembarque. “Ultimamente, não tenho apanhado peixe capaz de vender em lota”, admite José Santos. “Não tem as medidas suficientes e a quantidade é pouca.”

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“Às vezes, vem um russo ou outro que anda aí a trabalhar. Gostam muito de vir porque levam peixe e assim já não precisam de comprar”

A falta de selectividade das capturas — quer ao nível de juvenis, quer de espécies indesejadas, sem valor comercial ou acessórias — é um dos principais problemas deste tipo de pesca. E a principal crítica apontada à arte-xávega. No entanto, Miguel Pardal, investigador do Centro de Ecologia Funcional do Departamento Ciências da Vida da Universidade de Coimbra, considera que o volume total de capturas realizadas através da arte-xávega é actualmente irrisório e, como tal, o impacto nos stocks pesqueiros é “mínimo”, quando comparado com outras artes de pesca.
Para o investigador, que integrou a equipa que realizou um novo estudo científico no ano seguinte (em parceria com o IPMA, entidade que o P2 tentou ouvir para esta reportagem, sem sucesso) e que tem continuado esse trabalho na Universidade de Coimbra, a não atribuição de novas licenças para a arte-xávega é “uma questão de princípio e de prevenção, não de impacto”. “É como sermos obrigados a pôr o cinto de segurança para conduzir um carro. Não quer dizer que a gente vá ter um acidente. Neste caso, por princípio, tendemos a minimizar qualquer apanha de peixes mais pequenos.”

De acordo com o Relatório de Caracterização da Pesca com Arte-Xávega, realizado pela comissão de acompanhamento em 2013 e enviado ao P2 pelo Ministério do Mar, este tipo de pesca tinha sido responsável por “cerca de 1% das descargas totais registadas nas lotas do continente” no ano anterior. Acrescentava ainda que “as descargas por espécie não são significativas relativamente às descargas no continente”, contribuindo para isso o facto de o número de embarcações autorizado “ser muito reduzido no contexto nacional”.

Miguel Pardal defende, por isso, que a arte-xávega “deve ser preservada”, mas “com regras”. E destaca o facto de existirem dois cenários “muito diferentes”, quando se fala deste tipo de pesca. “Temos casos como este em Lagos, em que é praticamente tudo artesanal, como se fazia há muitos anos. Trata-se de manter uma tradição. E, depois, temos outros locais em que já é uma actividade económica”, adianta. O Ministério do Mar afirma não ter dados que façam essa distinção, mas, ao que o P2 pôde apurar, existem apenas quatro embarcações licenciadas que realizam companhas de forma artesanal, sem recurso a tractores. Uma em Lagos e três afectas ao porto de Sesimbra (uma no Meco e duas entre as praias da Califórnia e do Ouro — estas realizadas uma vez por semana, nos meses de Verão, num “contexto turístico-cultural”, através de uma parceria com a Câmara Municipal de Sesimbra, uma vez que os areais se encontram em área protegida).

Estes casos, defende o investigador, “obviamente que são para manter”. “Eu acho estranho é ainda haver discussão, acho que se devia apoiar”, reitera. “Hoje, o que eles [armadores] querem é manter a tradição de uma pesca que tem centenas de anos e que se está a perder. O objectivo deles não é ganhar dinheiro, é manter esta actividade, que faz parte do nosso património cultural e isso também é importante”, argumenta. “Se perdermos [esta pesca artesanal], daqui a dez anos ainda dizemos: ‘Lembro-me de ver.’ Mas daqui a 50 anos já não está cá ninguém para explicar como era.” Quanto às companhas com uma vertente económica mais acentuada, Miguel Pardal defende que também devem ser preservadas, pela importância socioeconómica que representam para aquelas comunidades. “Somos um país virado para o Atlântico, que apoia as pescas, portanto, toda a parte pesqueira deve ser apoiada, com as regras necessárias.”

O Ministério do Mar, no entanto, garante que “não está prevista uma discriminação positiva entre os vários tipos das artes”, uma vez que “reflectem a evolução da actividade nas diversas comunidades piscatórias”. Independentemente do caso particular, “trata-se de uma actividade comercial que obedece aos princípios fundamentais da Política Comum de Pesca e que pondera a sua vertente ambiental”. Em respostas enviadas por email ao P2, o ministério reconhece a “especificidade da arte-xávega”, referindo que esta é legislada tendo em conta “a necessidade de acompanhamento científico e o interesse socioeconómico da mesma”. Como tal, o Governo assume que “a recolha de dados científicos poderá justificar manter excepções ou melhorar o enquadramento legal”, “sempre com a devida base científica junto da União Europeia”. “[Todavia,] não devemos fomentar ou promover expectativas que podem comprometer as medidas já adoptadas, justificando um equilíbrio entre a sustentabilidade social [sic]”, acrescenta-se. Questionado sobre que futuro vê para esta arte de pesca tradicional em Portugal, o Ministério do Mar afirma que o “essencial” é “garantir que a actividade cumpre os requisitos da política de sustentabilidade que pretendemos para o sector, incluindo o controlo”.

“Vieram aqui dar-me 45 mil euros”

A Meia Praia, em Lagos, é a única onde ainda se realiza esta arte de pesca na região do Algarve, com duas licenças atribuídas. “A outra é de uns tipos da Caparica, que ainda vieram a tempo de comprar uma das licenças que existiam ali ao fundo, no Bairro 25 de Abril. Já não pescavam, mas ainda tinham a autorização”, conta José Santos. Ninguém nos conseguiu dizer o nome do armador, nem há quanto tempo esta segunda companha opera em Lagos. Certo é que tem sido contestada pela população local. “Em determinada altura, apareceu uma outra licença para o nosso território que utiliza meios mecânicos, à semelhança do que acontece por todo o país. Daí ter havido alguma reacção na altura e continuar a haver, porque as pessoas revêem-se sobretudo naquela que é tradicional”, afirma Joaquina Matos, presidente da Câmara Municipal de Lagos. “Aquela que a autarquia mais acarinha e tem apoiado é a tradicional”, reitera.

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No final do ano passado, uma proposta apresentada pela presidente foi aprovada por unanimidade na autarquia. No documento, esta reconhecia “o valor histórico e patrimonial desta variante da pesca tradicional, defendendo a necessidade de apoio inequívoco da arte-xávega local”, recomendando ao Governo a “manutenção da licença artesanal” e a “revisão da legislação vigente sobre o assunto”. De acordo com Joaquina Matos, não há, porém, “pretensão de haver apoio monetário a esta actividade” por parte da autarquia. Apenas promoção nos diferentes órgãos de divulgação da câmara.

Bruno Vieira há-de repetir várias vezes que aquilo que querem é “passar isto para turismo”, ainda que não saiba se é possível ou como. Na legislação actualmente em vigor, existe apenas uma brecha: “Mediante autorização prévia a ser requerida à Direcção-Geral das Pescas e Aquicultura (DGPA), poderão, a título excepcional e por razões de mostra etnográfica, ser levadas a efeito demonstrações da arte de xávega, sendo proibida a venda do pescado capturado, o qual apenas poderá ter por destino o consumo próprio dos promotores ou a entrega a entidades públicas ou instituições privadas de solidariedade social.” José Santos, no entanto, quer continuar a poder vender peixe na lota, por muito pouco que seja. “Senão é trabalhar para aquecer, para molhar-me”, ri-se.

Porque é que continua? “Algum dia há-de vir”, diz, sem desarmar o ânimo. “Pelo menos assim tenho uma ocupação. Até descanso melhor e tudo”, ri-se. Há dois anos, quiseram comprar-lhe a licença. Sabe que vale bom dinheiro para quem quer fazer da xávega profissão, com vários lances diários e recurso a tractores. “Vieram aqui dar-me 45 mil euros.” Não aceitou. “Quando não puder, então vendo ou deixo as coisas na mesma, eles não me renovam a licença e parou tudo.” Mas a esperança é que o filho ou o irmão mais novo lhe sigam os passos. E essa não desarma. “Eles continuam, eles continuam. A Secretaria de Pescas é que tem de os deixar.” Quanto a José Santos: “Pode ser que me aguente aí mais dez anos.” “Força há sempre.”

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