PCP quer ter mais força para dificultar "alinhamento" do PS à direita

O secretário-geral do PCP, no discurso de encerramento da Festa do Avante!, não foi cáustico para os socialistas, mas exigiu-lhes mais: o passo dado "foi curto".

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LUSA/MIGUEL A. LOPES

Jerónimo de Sousa fez no encerramento da Festa do Avante! o pré-arranque daquele que será o discurso do partido até às eleições legislativas do próximo ano: o PCP foi importante nas coisas boas que foram feitas pela "geringonça" e por isso é preciso dar mais votos ao PCP para que o partido evite que o PS descaia para a direita.

Foi num tom crítico, mas não cáustico, para os socialistas que o secretário-geral do PCP falou neste final de tarde, onde defendeu uma "outra perspectiva" para o futuro do país, deu vários toques duros à insuficiência das políticas socialistas e defendeu um outro rumo que rompa com as regras apertadas da União Europeia. 

"Sempre que o PS acompanhou, discutiu e aceitou muitas das propostas [negociadas com o PCP], ganhou o país. Sempre que o PS se entendeu com a direita, ganhou o capital, PSD e CDS. Quanto mais força tiver o partido, mais dificuldade terá o PS de fazer esse alinhamento à direita", defendeu no discurso de encerramento da festa do jornal do partido, que marca a rentrée do PCP, depois das férias. 

A linha do discurso foi sendo construída a partir de uma pergunta retórica que fez aos militantes: valeu a pena o esforço destes três anos? O secretário-geral do PCP não tem dúvidas que sim. "Foi [importante] sem dúvida. E não subestimamos porque seria subestimar a luta", defendeu. Contudo, para o líder comunista, este foi um passo insuficiente. "Foi um passo que sabíamos curto, mas necessário para criar as condições à luta e abrir outros horizontes. Um passo em frente, mas de limitado alcance", disse.

O que divide PCP e PS

É aqui que Jerónimo de Sousa e o PCP entram em rota de colisão com os socialistas e esta só acontece quando, para os comunistas, o PS se desvia da esquerda e descai para acordos ou para "juntar os trapinhos" à direita.

O que divide os dois partidos não é novo, mas para os comunistas continua a ser uma "imposição" inaceitável para Portugal: as regras da União Europeia. "Só não se foi mais longe, [porque] entre as opções do PS está a de submeter o país a essas políticas", defendeu. "Não se dá resposta ao investimento, porque o Governo do PS põe à frente dos seus compromissos, a União Europeia", acrescentou.

Há outro calcanhar de Aquiles a afastar os parceiros — e também este não é novo: as leis laborais. Jerónimo de Sousa fez questão de apontar esta legislação para mostrar que houve uma "convergência legislativa" entre o PS, PSD e CDS, que "assume particular gravidade". "Juntaram os trapinhos e aprovaram medidas, algumas delas, prejudiciais para os trabalhadores", acusou.

Por isso, garantiu que o partido vai continuar a batalhar contra as alterações. "Quando se luta nem sempre se ganha, mas quando não se luta, perde-se sempre. Por isso a luta continua em torno da defesa da lei do trabalho em defesa dos trabalhadores", disse.

O PCP não perdoa ao PS as alterações ao código do trabalho e esse exemplo — bem como as alterações ao sector do táxi — serve de bitola para Jerónimo dizer que é por isso que os socialistas não são a solução: "A resposta aos problemas estruturais não se faz com o governo do PS nem a sua actual política amarrada às políticas da direita. Não há solução para os problemas nacionais pelas mãos dos governos PSD, CDS ou pelo governo do PS. Faz-se com dar mais força ao PCP".

Pôr o PS a governar "contra a sua vontade"

Ao fim de três anos desta "nova fase" da democracia portuguesa, como lhe chama o PCP, Jerónimo fez uma espécie de balanço da actuação do partido e chamou a si os louros dos principais "avanços" que foram conseguidos, dizendo que o PS foi muitas vezes levado "contra a sua vontade" a tomar algumas medidas, lembrando que o Governo usou vários métodos para atrasar o que não concordava através de "cativações, atrasos nas regulamentações ou outros expedientes".

Serão estas a limitações que o partido fala naquilo que alcançou, uma vez que esbarraram muitas vezes nos condicionamentos do Governo, que optou por faseamentos, por exemplo, em algumas reposições que o PCP queria fazer por inteiro. "O secretário-geral do PS disse há dias que não há governo de esquerda sem o PS. O que os portugueses sabem é que sempre que o PS foi governo, fez politica de direita e se juntou com o PSD e o CDS em coisas estruturais".

"Não vale a pena o PS enfeitar-se. Porque no que se avançou começou por ter a resistência ou oposição do PS", defendeu, puxando ao PCP os louros das conquistas, afinal, o lema nesta festa passava pela "reposição e reconquista" de direitos. 

No entanto, a ideia que Jerónimo quis passar foi que apesar de estes passos serem "curtos" ou insuficientes, são melhores do que havia. "Provou-se que o país não está condenado à aniquilação de direitos", disse. "A memória é curta, mas se nos lembrarmos das afirmações do Governo anterior — em que afirmavam com grande lata que o país estava melhor o povo é que era pior, em que semana sim, semana sim era um corte, toda uma política virada contra o povo - afinal, encetou-se um processo de recuperação, de reposição de direitos, criando mais emprego, mais salários, e a economia cresceu porque o povo tem mais condições de consumo".

No fim, o que os divide já não é novo, resta saber se ainda há o que os possa unir para o futuro.

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