McCain prepara o funeral e Trump não está convidado

O senador republicano impediu, em 2017, o fim do programa Obamacare, o que lhe valeu severas críticas do Presidente norte-americano.

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O senador John McCain numa conferência de imprensa sobre a Lei de Autorização de Defesa Nacional (NDAA), em Washington, Outubro de 2017 Reuters/Aaron Bernstein

O senador republicano John McCain, de 81 anos, começou a preparar a sua cerimónia fúnebre, junto com os amigos mais próximos e conselheiros, e terá expressado que não quer o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, presente.

De acordo com um artigo publicado no sábado no jornal New York Times, fontes próximas do senador informaram a Casa Branca de que, segundo a vontade de McCain, em vez de Trump, deverá ser o vice-presidente Mike Pence, ex-governador do Indiana, a representar a Administração americana no funeral – que se realizará na Catedral Nacional em Washington.

Já o ex-Presidente Barack Obama – contra quem McCain perdeu as eleições presidenciais de 2008 –, assim como George W. Bush, contra quem concorreu nas primárias republicanas em 2000, estarão convidados para participarem na cerimónia e também para dizerem algumas palavras, segundo o jornal espanhol El Mundo.

Orrin Hatch, senador republicano do Utah, reagiu e, em delcarações à estação televisiva CNN, disse que é "ridículo" que John McCain, senador dos Estados Unidos desde 1986, não queira o actual Presidente no seu funeral: "Ele é o Presidente dos Estados Unidos. Ele é um homem muito bom." Não obstante, Hatch acredita que McCain "entrará para a História como um maravilhoso senador" e que "os seus desejos sobre quem deve assistir ao seu funeral devem ser cumpridos".

O senador, que já teve cancro de pele, tem um cancro do cérebro, diagnosticado em Julho de 2017, e tem estado a receber pessoas do círculo íntimo em casa, no Arizona. As visitas servem, essencialmente, para partilhar memórias e "tratar de assuntos inacabados".

McCain decidiu não dar entrevistas. Por isso, o jornal New York Times falou com alguns dos amigos mais próximos de McCain, incluindo o ex-vice-presidente democrata e amigo de longa data Joe Biden – cujo filho morreu com o mesmo tipo de cancro.

Entre confissões e desejos, McCain terá pedido a Biden para este "não abandonar" a política. Quem irá preencher o seu lugar no Senado terá sido também um dos temas em discussão, com alguns dos seus associados a expressarem vontade de que seja uma "pessoa McCain", por exemplo, a sua mulher, Cindy McCain, segundo o mesmo jornal americano.

Relação conflituosa

Não é novidade que Donald Trump e o senador republicano têm uma relação conflituosa. Conhecido no Senado como o "inconformado", McCain foi um dos responsáveis do Partido Republicano que mais criticaram Trump.

Durante a campanha eleitoral de 2016, Donald Trump, humilhou McCain por causa da derrota contra Obama nas presidenciais de 2008 e pôs em causa o estatuto de herói do senador, que foi prisioneiro de guerra no Vietname. "Ele não é um herói de guerra porque foi capturado e eu prefiro as pessoas que não se deixam capturar", disse Trump em 2015. 

Em 1967, durante uma missão militar, o avião de McCain foi abatido em Hanói, tendo McCain sido capturado e torturado. Quando os captores descobriram que era filho de um militar de alta patente da Marinha dos Estados Unidos, ofereceram-se para o libertar. Porém, McCain recusou a libertação por não querer violar o código de conduta militar e abandonar os companheiros, decisão que, posteriormente, ajudou a sua entrada para o Partido Republicano. Foi libertado em 1973.

Em 2017, Donald Trump voltou a criticar o senador norte-americano por este não apoiar a sua reforma da saúde e ter bloqueado o fim do Obamacare.

O último livro: A Onda Inquieta

Recentemente, como forma de manter o seu legado e memórias, McCain participou num documentário da HBO e co-escreveu aquele que o próprio reconheceu ser o seu último livro.

Intitulado The Restless Wave (a onda Inquieta), que será lançado em Junho de acordo com o New York Times, o livro tece críticas a Trump, mas também ao próprio McCain, que se mostra arrependido por não ter escolhido osenador Joe Lieberman para candidato a vice-presidente na eleição presidencial de 2008, em vez da conservadora Sarah Palin.

O republicano do Arizona afirma, num excerto, que não sabe "por quanto mais tempo" estará aqui e apela à união dos americanos.

Texto editado por Victor Ferreira

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