A consoada de Coentrão foi no chão, onde se respeita uma tradição

A fotografia partilhada pelo jogador do Sporting nas redes sociais gerou uma série de comentários. A ausência da mesa na consoada de Natal de Fábio Coentrão é uma tradição das zonas piscatórias da Póvoa de Varzim e Caxinas

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A fotografia partilhada pelo jogador do Sporting Fábio Coentrão

Fábio Coentrão partilhou, na noite do dia 24 de Dezembro, uma fotografia da ceia de véspera de Natal, e as caixas de comentários do Instagram e do Twitter do jogador de futebol encheram-se de perguntas. Houve quem questionasse o pagamento de ordenados do Sporting Clube de Portugal (onde Fábio joga) ou a aparente falta de mobília naquela sala de estar: “Não tens mesa em casa?”, perguntou um utilizador do Instagram.

À primeira vista, parece um piquenique em casa. As toalhas dispostas no chão, os pratos sobre as mesmas. As travessas enfeitadas ainda estão cheias, e é com bacalhau que se preenchem. Afinal, é a consoada de Natal, só que diferente do que costumámos ver: aqui, as pessoas sentam-se no chão e prolongam uma tradição — a dos pescadores das Caxinas, zona piscatória em Vila do Conde, a Sul da Póvoa de Varzim.

No entanto, este é um costume que nasceu “da própria capacidade das casas dos pescadores”, explica Abel Coentrão, presidente da Associação Cultural Bind’ó Peixe e jornalista do PÚBLICO. As habitações, pequenas, encolhiam com a chegada dos familiares para as festas natalícias e nem todas as famílias “tinham condições para ter uma mesa”; assim, a ceia fazia-se no chão, com mantas e toalhas. Abel recorda-se de passar “uma dezena de Natais no chão” com a numerosa família da parte materna, naquele “piquenique sem relva”, como chama à tradição. Hoje não o faz, mas conhece quem ainda se senta no chão no Natal, “mesmo em casas maiores”. As pessoas que o fazem, explica, “sentem-se mais próximas de si próprias e respeitam uma herança familiar”, num gesto de “valor simbólico”.

Há, no entanto, outras tradições ligadas ao Natal específicas daquela zona piscatória. Abel Coentrão dá o exemplo das famílias “que comiam da mesma travessa”, um hábito que também tem origens nas casas dos pescadores mais pobres. Para além disso, há também uma iguaria que marca as mesas (ou as toalhas dispostas no chão) daquelas famílias: a “forreta”, que o dirigente da Bind’ó Peixe diz ser “um tubarão da costa de pequena dimensão”, que este ano “chegou a ser vendido a 40 euros o peixe”.

Este ritual também foi registado no filme Ala-Arriba!, de José Leitão de Barros, que em 1942, em pleno Estado Novo, mostrou (de forma algo folcórica) os costumes históricos da comunidade piscatória da Póvoa de Varzim, num romance entre uma jovem e um sardinheiro. O título do filme é uma expressão típica daquela zona, que significa “Força (para cima)”. “Segundo o Secretariado da Propaganda Nacional-SPN, foi o primeiro filme português premiado no estrangeiro - Taça Biennali - em Veneza, 1942”, lê-se nas informações sobre o filme na página CINEPT

Artigo actualizado às 17h01

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