Animais de Rua

No nosso Inquérito de Estimação, damos palco a associações e grupos de ajuda de animais que o mundo deve conhecer. A Animais de Rua nasceu no Porto mas já tem núcleos em várias cidades portuguesas, onde apoia a captura e esterilização de animais errantes

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Paulo Pimenta Paulo Pimenta

“Idealmente, a Associação Animais de Rua não deveria existir. Num mundo ideal, todos os animais de companhia teriam direito a viver (…) num lar, protegidos das condições climatéricas adversas e dos perigos da rua.” Esta breve descrição faz parte do texto de apresentação do site da Animais de Rua e resume a razão da sua existência: tentar “minorar o sofrimento dos animais de rua e não permitir que continuem a gerar mais vidas sem abrigo, destinadas a sofrer”.

Presidida por Maria Teixeira — que respondeu a este nosso Inquérito de Estimação —, a Animais de Rua faz um trabalho aparentemente invisível nas ruas das cidades portuguesas onde está presente (começou no Porto e já se expandiu para Faro, Lisboa, Sintra, São Miguel, Lagos). A associação, que já esterilizou mais de 15 mil animais e recentemente criou um “cartão do amigo”, não tem um espaço físico próprio e, por isso mesmo, não pode acolher animais errantes. Trabalha em paralelo com outras associações de protecção animal que o fazem, apoiando à captura e esterilização de animais de rua, que são posteriormente libertados no seu meio.

Uma medida prioritária pelos direitos dos animais
Temos assistido a uma evolução legislativa muito positiva na área da protecção animal, nomeadamente com a criminalização dos maus tratos e o abandono de animais de companhia e a proibição de abates nos canis municipais, bem como a esterilização obrigatória de todos os animais encaminhados para adopção. Entendemos, no entanto, que ficaram fora da lei alguns aspectos importantes que estavam incluídos na proposta inicial, nomeadamente o da consagração da figura do Animal Comunitário e as restrições à criação e comércio de animais de companhia, que consideramos irresponsável no cenário actual, em que temos centenas de milhares de animais a viver e a reproduzir-se continuamente no domínio público sem qualquer esperança de adopção. Gostaríamos também de ver a lei de criminalização dos maus tratos estendida a outras espécies de animais para além dos de companhia, nomeadamente os que têm o mesmo grau de senciência e deveriam, por isso, ser objecto da mesma protecção.

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Um caso marcante
Há tantos que o difícil é escolher. Mas temos de indicar a primeira colónia de gatos silvestres intervencionada pela Animais de Rua, já em 2005. Era uma colónia de cerca de 60 gatos silvestres que vivia em condições miseráveis numa das entradas do Parque da Cidade do Porto. Passeava no parque com algumas amigas quando nos deparámos com aquele cenário. Havia muitos animais doentes e em sofrimento, crias e adultos, e não sabíamos como os poderíamos ajudar, pois nem sequer se deixavam apanhar por nós para poderem ser levados a um veterinário. Estudámos o que era feito noutros países para ajudar animais com estas características e descobrimos o método “Capturar-Esterilizar-Devolver”, que aplicámos nesta colónia. Foi o início da Associação Animais de Rua. Passados 10 anos, a colónia está reduzida a oito elementos que vivem felizes, gordos e saudáveis, alimentados diariamente por um cuidador e até um abrigo têm para as noites mais frias.

Um conselho para quem quer adoptar um animal
Evitar adoptar por impulso: visitar o animal e ir para casa, reflectir, conversar com a família sobre quem irá cuidar dele, como farão na altura das férias, etc. Esta é uma decisão que deve ser tomada para a vida e que terá implicações nas rotinas de todo o agregado familiar, logo deve ser bem ponderada. Mais do que focar-se nas características físicas, procurar adoptar o animal que melhor se integre no seu estilo de vida. Por exemplo, se tem um estilo de vida sedentário ou pouco tempo para passeios, não deve adoptar um cão jovem cheio de energia que precisa de fazer muito exercício físico, mas sim um animal sénior, que prefere sonecas e sofá a grandes correrias.

Um projecto que tem que ser conhecido
A Associação Quinta das Águias, localizada em Paredes de Coura, que, para além de acolher em regime de santuário cerca de 130 animais de diferentes espécies, tem tido um papel fundamental, em parceria com o município, na promoção de estilos de vida mais saudáveis, sustentabilidade e vegetarianismo, inclusive em acções com escolas e idosos.

Uma pessoa anónima que vale a pena conhecer
A Ivone Ingen-Housz, da Quinta das Águias. É um ser humano verdadeiramente inspirador, que não deixa indiferente ninguém que a conheça. Todos os dias cuida, com o seu marido Joep, dos cerca de 130 animais da Quinta das Águias, com um desvelo sem limites. Cada um deles recebe cuidados e atenção individual e é frequente vermos em casa deles um coelho ou uma galinha em tratamento num dos quartos. Mesmo ao colher ervas para a tisana da quinta, cada folha é observada com cuidado para não afogar acidentalmente um insecto na água a ferver. O mesmo carinho é estendido a todas as plantas e árvores. É enternecedor ver a Ivone a cuidar da sua horta biológica com um séquito de gatos silvestres atrás (todos eles resgatados e esterilizados pela Animais de Rua), que apenas se aproximam dela e de mais ninguém. É uma pessoa extremamente discreta e serena, não aprecia muito ser o foco de atenções, mas achamos que o reconhecimento do seu desvelo e dedicação diários a estes animais e a este pequeno paraíso na Terra seria merecido e interessante para quem ler a história dela. Só uma nota: a Ivone é minha mãe. Mas tudo o que digo é facilmente confirmado por qualquer pessoa que a conheça.

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