Mas, afinal, qual é o desemprego real?

A fronteira esbatida entre desemprego e precariedade serve apenas para lançar uma nébula sobre a verdadeira dimensão da nova realidade laboral

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William Ross

Recentemente, a alta do desemprego (nunca baixou significativamente) produziu um grande desconforto no Governo, com Passos Coelho ou Marco António Costa a atacarem até o Instituto Nacional de Estatística, e mesmo entre os seus defensores, como é o caso de João Miguel Tavares. A compartimentação do desemprego e do subemprego têm servido para camuflar a trágica dimensão de mais de um milhão de pessoas sem trabalho, mas os dados compartimentados são disponibilizados e o cálculo da taxa real de desemprego está à disposição, mediante algumas contas, podendo ser contraposto à taxa oficial de desemprego, uma medida política que apaga a realidade.

A divisão do emprego e desemprego em diversas categorias é o espelho de uma política de divisão dentro do campo de quem trabalha e de perseguição aos desempregados. As múltiplas formas de precariedade estão espelhadas em categorias como trabalhadores por conta própria isolados (leia-se falsos recibos verdes), trabalhadores por conta própria empregadores (pequenos patrões, falsas empresas em nome individual ou falsos recibos verdes), familiares não remunerados, subempregados a tempo parcial, outros contratos, etc. A nível do desemprego há uma massa uniforme chamada de população desempregada, da qual estão excluídas todas as zonas cinzentas, como os inactivos à procura de emprego, mas não disponíveis, inactivos disponíveis mas que não procuram emprego. Isto para o INE. Existem ainda as estatísticas oficiais do IEFP, que já ninguém leva muito a sério, e que adicionam ainda novas compartimentações no desemprego: ocupados e indisponíveis temporariamente.

Milhões de vidas num limbo

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João Camargo, engenheiro do ambiente, trabalhador a “part-time” e activista dos Precários Inflexíveis

Se Passos Coelho e Marco António Costa fazem há muito da mentira a sua acção exclusiva, João Miguel Tavares tentava até agora ser mais subtil no seu apoio às mentiras do Governo. Num ataque abjecto a organizações como o Centro de Estudos Sociais, que teve a audácia de fazer uma avaliação crítica dos dados do INE, o comentador acabou por revelar a sua oposição à investigação científica e particularmente social, quando a mesma revela verdades inconvenientes e visões alternativas à sua. João Miguel Tavares, que ganha a vida vendendo a sua opinião, revelou neste processo quão baixo se pode chegar para defender o indefensável.

A fronteira esbatida entre desemprego e precariedade serve apenas para lançar uma nébula sobre a verdadeira dimensão da nova realidade laboral: milhões de vidas num limbo entre o desemprego de longa duração e os contratos precários mal pagos e de curto prazo. Como interpretá-lo varia muito: o CES contabilizou, além dos desempregados “oficiais”, os inactivos desencorajados e os activos migrantes, introduzindo, pela primeira vez, a dimensão de uma emigração histórica, resultado das políticas catastróficas do Governo, e chegou a uma taxa de 29% de desemprego real. O jornal "Dinheiro Vivo", contabilizando subempregados e desencorajados, chega a 22%. O FMI adiciona os desencorajados e o subemprego para chegar ao valor de 20,5%. Todos os números basicamente duplicam os números oficiais.

Os Precários Inflexíveis anunciaram em Dezembro de 2012 que desempregados e precários já eram mais de metade de toda a força de trabalho: um novo regime social. A confusão sobre quais os números reais do desemprego pode ser vista de forma diversa: quem é precário só tem desemprego pela frente e quem está desempregado pode esperar, no máximo, uma das múltiplas formas de precariedade. Nesse caso, confirmamos o triste número: mais de 2 milhões e meio de pessoas são precárias ou desempregadas, metade da população activa.

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