Sibéria: a vida entre os -10º e os -55ºC (numa nuvem tóxica)

Elena Chernyshova fotografou Norilsk, na Sibéria, e contou ao P3 a sua experiência. O projecto "Days of Night, Nights of Day" retrata a vida dos 175 mil habitantes da cidade a que a fotógrafa se refere como "o inferno na terra"

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Elena Chernyshova

Elena Chernyshova fotografou a vida em Norilsk, na Sibéria, na Rússia, a cidade mais a norte no círculo polar ártico. O projecto "Days of Night, Nigths of Day" é o retrato dos hábitos da população e das paisagens geladas de uma região de características singulares.

Elena Chernyshova esteve em Norilsk três vezes: uma para conhecer a cidade e fazer contactos, as outras para experienciar a noite e o dia polares. A sua paixão pelo Ártico (partilhou com o P3 em entrevista via "email") surgiu porque a sua mãe viveu acima do círculo polar durante dez anos e consigo partilhou, durante a infância, histórias desses tempos. Norilsk atraíu a fotógrafa também pela sua originalidade. "Quando ouvi falar de Norilsk, sobre a sua história e sobre as condições ecológicas, climatéricas e de isolamento que os seus habitantes enfrentam, não consegui ficar indiferente. Apaixonei-me pela cidade e surgiu uma enorme curiosidade de saber como as pessoas vivem num local assim, como se adaptam àquele ambiente."

A sua adaptação ao frio nem sempre foi fácil. "A minha câmara funcionou bem mesmo com 45 graus negativos. [...] Às vezes entusiasmava-me ao fotografar algo e esquecia-me do frio. Algumas pessoas alertaram-me para o facto de a minha cara estar a congelar; nesse caso tinha imediatamente de aquecer-me para evitar feridas."

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Ao contrário do expectável, as pessoas que Elena encontrou em Norilsk não eram melancólicas e fechadas. "Encontrei pessoas abertas, amistosas, criativas e com um excelente sentido de humor. As pessoas de Norilsk gostam de dizer que a maior riqueza da região não são os depósitos [de metais], mas sim as suas gentes. O que mais me surpreendeu foi a atitude dos habitantes: podem amaldiçoar e criticar a cidade, sonhar em abandoná-la e finalmente fazê-lo, mas adoram-na. É um paradoxo como uma cidade que parece o inferno na terra pode ser tão amada. Há um incrível e particular apego destas pessoas pelo local. Quando o abandonam para viver noutros lugares, as pessoas relembram Norislk com saudade."

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Norilsk, Sibéria, Rússia

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Norilsk é a cidade número sete no ranking das cidades mais poluídas do mundo e a mais poluída da Rússia. A forte indústria de exploração de cobre cobalto e níquel emprega 60% da população e gera 2 milhões de toneladas de emissões de dióxido de enxofre anualmente (correspondente ao que, por exemplo, França emite num ano) e 4 milhões de toneladas de metais pesados que, num raio de 50km, são perigosos para a saúde. Os níveis de poluição são de tal modo elevados que quase 100 mil hectares da frágil vegetação que envolvia a cidade desapareceu. Como consequência directa destes números, a taxa de incidência de cancro na população é o dobro da média na Rússia e a esperança média de vida dez anos inferior.

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As temperaturas, em Norilsk, variam entre os -10 e os -55 graus celsius todo o ano, acompanhadas de ventos fortes e frequentes céus cinzentos. Os períodos de frio extremo estendem-se cerca de 280 dias por ano e mais de 180 são marcados por violentas tempestades de neve que decorrem nos dois meses em que a cidade não vê a luz do sol — a denominada "noite polar". As ligações à cidade fazem-se apenas por via aérea ou marítima (a última disponível apenas entre Junho e Setembro), sendo totalmente inexistente qualquer ligação por via terrestre. Apesar de todas as características que tornam este local inóspito à vida humana, nele habitam 175 mil pessoas; Norilsk torna-se por isso a segunda cidade mais populosa acima do círculo polar ártico.

Norilsk deve a sua existência ao trabalho forçado dos prisioneiros do Gulag, vítimas do regime comunista de Estaline (ex-URSS). Estes prisioneiros, cerca de 500 mil, construíram e laboraram durante 20 anos nas minas e fábricas metalúrgicas da região. Muitos desses sucumbiram às duras condições de vida impostas pelo regime.

A fotógrafa procurava financiamento para a realização deste projecto desde 2009. Foi através da atribuição de uma bolsa pela Lagardere Foundation que finalmente pôde realizar o "Days of Night, Nights of Day", lançado em 2013.

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