Contos assim-assim: O cão

Um cão que dorme muito e que desconhece factos. Um cão que dorme ainda mais e que sabe o caminho de volta

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Joana Maltez

O cão estava sentado, à entrada do edifício da empresa. Aproveitando a sombra que uma árvore projectava no chão, dormiu meia hora. Talvez mais um pouco. Depois, dedicou-se a observar o espaço. Dali a dez minutos, estaria a dormir outra vez. A sua vida era uma canseira. Quando tivesse fome, regressaria a casa, a não muitos metros daquele local. E dormiria mais um pouco, quem sabe.

O carteiro passou e o cão não sabia que ele estava doente. Apressado, com um saco incrivelmente pesado a tiracolo, o carteiro entrou no edifício, dirigiu-se à recepcionista, deixou um monte de cartas e saiu. Nem ele, nem o cão, sabiam da doença. Nem ele, nem o cão, sabiam que um ano de vida seria a previsão mais optimista.

Um estafeta parou o camião no parque de estacionamento do edifício. Nem ele, nem o cão, sabiam que o camião não iria trabalhar, quando o estafeta regressasse. Era uma questão técnica, de difícil explicação, em poucas palavras. Na prática, o camião não iria trabalhar. Para o cão, seria um barulho estranho, capaz de perturbar o seu descanso. Para o estafeta, seria um dia perdido.

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João Nogueira Dias não escreve contos, escreve hipóteses. Curtas, por respeito aos leitores

O cão também não sabia que aquela funcionária que ali passava e que até olhou para ele, com um ar terno, iria ser chamada, por volta das 9:45, ao gabinete da directora, para ser alvo de um despedimento completamente surpreendente. Quando saísse do edifício, em lágrimas, não iria olhar para o cão. Não seria por mal, mas pelo facto de o desespero ter chegado sem aviso, como o faz quase sempre.

A directora da empresa passou pelo cão, olhou para ele e fez um sorriso. O cão não sabia quem era aquela mulher, nem sabia que ela trazia, no computador, uma apresentação de um produto totalmente inovador, capaz de revolucionar o mercado. Também escapava do conhecimento do cão que aquela apresentação seria, no mínimo, invulgar. Apesar de tudo, o cão levantou-se, com a cauda a abanar, e dirigiu-se a ela. A directora fez-lhe uma festa. Se o cão soubesse fazê-lo, teria sorrido.

O que o cão sabia, mesmo bem, era que a fome tinha chegado. Levantou-se, espreguiçou-se e seguiu o caminho de casa. Esse, ele sabia sempre. No caminho, cruzou-se com oito pessoas e dois gatos. Nem um cão. Melhor assim.

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