Morar em Nova Iorque: a cidade que nunca dorme vista por Irina Matos, investigadora de 32 anos

Irina Matos reside em Nova Iorque há 1 ano e 3 meses. Trocou Portugal por aquela que é uma das cidades mais carismáticas do planeta. Não se arrepende da escolha. Foi mesmo uma das melhores decisões da sua vida

Irina Matos é investigadora na The Rockefeller University
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Irina Matos é investigadora na The Rockefeller University
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De todas as cidades no mundo Nova Iorque é, provavelmente, a que mais associamos à emigração. A porta de entrada para um mundo novo cheio de oportunidades. De certa forma continua a manter esse estatuto. E por isso mesmo talvez seja uma das cidades mais cosmopolitas e multiculturais a nível mundial. Não é por acaso que todos a sonham visitar, tal é a magia que a envolve. É para muitos a cidade universal. E Irina Matos tem o privilégio de viver nela.

Natural de Lisboa, onde estudou Biologia Microbiana e Genética na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e com uma passagem pelo IBMC/INEB e IPATIMUP no Porto onde concluiu um Doutoramento, Irina Matos frequenta, actualmente, um pós-doutoramento na conceituada The Rockefeller University. O seu trabalho de investigação passa pelo estudo de uma proteína envolvida no cancro do colo-retal. Ou seja, os pacientes que sofrem deste tipo de cancro “que têm alterações no gene que codifica esta proteína apresentam por vezes lesões ao nível da pele. A minha equipa espera conseguir uma forma de evitar estas lesões”, clarifica.

Mas esta não tem sido a única actividade de Irina. Durante anos dedicou-se à microscopia de fluorescência. “Usei células da mosca como tubo de ensaio. De forma a seguir as estruturas celulares de interesse usamos proteínas que são fluorescentes quando excitadas com determinados comprimentos de onda. Isso permite-nos seguir ao vivo o que está a acontecer dentro da célula. Os resultados finais são, normalmente, imagens espectaculares”, explica. E algumas destas imagens foram mesmo seleccionadas para uma secção de imagens da revista de referência Cell.

E porquê Nova Iorque? “Esta não foi a minha primeira opção. Quando vim a entrevistas nos Estados Unidos escolhi Boston como primeiro destino para desenvolver os meus estudos”, confessa. No entanto tudo correu de forma inesperada. Após uma entrevista Irina foi convidada para integrar uma equipa com pessoas de diversos locais do mundo no Laboratory of Mammalian Cell Biology and Development da The Rockefeller University. “Houve dois factores fundamentais para aceitar esta proposta: a elevada taxa de empregabilidade depois do pós-doutoramento e a liberdade na condução dos próprios projectos”, refere. E assim ficou por Nova Iorque.

Uma cidade que se adapta a cada um

Irina vive num último andar (por coincidência acontece o mesmo no trabalho), o que lhe permite ter sempre “uma vista fabulosa. É uma cidade acelerada, onde o tempo passa rápido demais. Sabia que vinha para uma cidade agitada mas integrei-me bem. Muitas vezes quando vou no metro ou na rua imagino que sou figurante num filme. Por vezes penso que nada disto é real e que estou mesmo a viver um sonho. Esta cidade superou largamente as minhas expectativas” salienta.

Nova Iorque é, de acordo com Irina, “uma cidade fantástica, com uma energia muito própria. É uma cidade que se adapta a cada pessoa, a cada cultura. Aqui podes ser quem quiseres, como quiseres e quando quiseres”. E o que mais lhe agrada é a oferta cultural: “todos aqueles eventos com que apenas podia sonhar quando estava em Portugal aqui são uma realidade ao meu alcance. Todos os dias há imensas coisas novas para fazer”. Mas nem tudo é bom. O que menos agrada é “o barulho. É a cidade que nunca dorme e não deixa dormir. Moro numa zona de muito movimento e nem o facto de viver num 26º andar me isola do barulho. Encontrar o som do silêncio é uma alegria e pode tornar-se uma obsessão”, refere.

As diferenças culturais também são significativas. “Há uma imensa pressão para o sucesso, as pessoas vivem obcecadas por isso. Não há o espírito de entreajuda” mas, por outro lado, “existe muito mais a cultura do mérito e do reconhecimento”, desabafa. Irina gostava que em Portugal se pudesse “aproveitar melhor o potencial humano que existe”.

De resto e como qualquer emigrante Irina sente saudades da família, dos amigos e, claro, da culinária. Mas sente-se “uma pessoa de sorte por ter tido a oportunidade de sair de Portugal e encontrar um novo local onde me começo a sentir em casa”. No entanto ainda vive o sonho “de Portugal ser a minha primeira opção para formar o meu grupo de investigação. Ainda me sinto muito ligada ao país”. Mas o regresso, para já, fica adiado.

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