Quem tem medo da ciência que estuda a felicidade?

Sinto nas palavras e expressões de muitos uma resistência à ideia de que se possa estudar a felicidade. Há nesta resistência um viés cultural que penaliza o riso e a alegria, remetendo-os para o campo do lúdico e do superficial

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KeturahStickann/Flickr

Ao mesmo tempo que toda a gente quer ser feliz, parece que ninguém acredita que se possa ser feliz, ou que se possa, de uma forma rigorosa, séria e sistematizada, estudar os processos que nos conduzem (individual e colectivamente) à felicidade.

Sei bem que a palavra felicidade tem andado, no passado, na boca de pessoas muito diferentes: padres, freiras, monges, gurus da auto-ajuda, escritores, filósofos ou poetas. Percebo que cause alguma estranheza ouvir-se a mesma palavra pronunciada por cientistas. Mas como já notava Fernando Pessoa, há coisas que começam por se estranhar e que depois se entranham.

Sabendo que todos queremos ser felizes, estava à espera que o entranhar não demorasse tanto. De facto, o que a ciência contemporânea está a fazer é apenas um passo lógico, que há muito podia ter sido dado, mas que só agora foi ousado (qual ovo de Colombo): em vez de se focar apenas no combater e prevenir de problemas, procurar encontrar as formas de potenciar as qualidades. E isso é uma mudança que devia alegrar as pessoas, não inquietá-las.

A verdade é que sinto nas palavras e expressões de muitos (de comentadores a académicos, passando pelo público em geral) uma resistência à ideia de que se possa estudar a felicidade. Por vezes até vem o riso, o escárnio e a crítica leviana. E sou sincero, nessas situações, não consigo deixar de fazer a analogia com os pré-adolescentes nas aulas de sexualidade: porque lhes estão a falar de algo que desconhecem mas inquieta, expressam o seu riso nervoso e a piada fácil. Desconhecimento é a palavra-chave.

Enquanto escrevo esta crónica muitos cientistas pelo mundo inteiro estão a escrever artigos onde descrevem os resultados das suas mais recentes pesquisas sobre a felicidade dos seres humanos: de neurologistas, internistas e psiquiatras a economistas e psicólogos, todos investigam seriamente a felicidade e assumem o tema como um tópico de fronteira, uma investigação científica de ponta, que a todos devia interessar pois a todos pode beneficiar. Mas penso que há nesta resistência à ciência da felicidade algo mais profundo: um viés cultural (de tradição judaico-cristã) que penaliza o riso e a alegria, remetendo-os para o campo do lúdico e do superficial.

Afinal quem muito ri e é alegre, num mundo tão complexo e duro como o nosso, só pode estar muito perto de ser um pateta feliz. E sim, não deve um cientista ser uma pateta feliz. Mas volto a apelar ao mostro do desconhecimento: quem procurar conhecer esta nova ciência da felicidade perceberá que tudo nela é igual em rigor e seriedade. Os próprios pesquisadores são igualmente concertados, analíticos e autocríticos.

São, inclusive, os primeiros a reconhecer as dificuldades da pesquisa e a expor os problemas. Ao contrário dos tradicionais (e já referidos) pregadores da felicidade, não prometem soluções fáceis, fórmulas mágicas nem certezas absolutas. Sabem o quão difícil é estudar a felicidade (ó realidade subjectiva e complexa).

Apenas encaram o problema como difícil mas relevante, desafiante e tratável. E fazem-no, é certo (na maioria dos casos), com um sorriso nos lábios. Investigador e docente universitário doutorado em economia da felicidade

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