O medo de fazer rir

Há quem, quando envelhece, se farte de levar porrada e deixe de ter piada em público. É o caso de Eddie Murphy e de muitos outros

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Lucas Jackson/Reuters

Até à semana passada, estava empolgado por ver Eddie Murphy a apresentar os Óscares. Parecia uma criança. Claro que, como em quase tudo na vida, o entusiasmo não serviu de nada. Depois de Brett Ratner ter proferido um comentário homofóbico, demitiu-se da produção da cerimónia. E Eddie Murphy foi com ele. (Ironicamente, um dia depois do anúncio, estreou-se em Portugal "Alta Golpada", o último filme de Ratner com Eddie Murphy. Nas legendas, “bitch” vem traduzido como “panilas”, adicionando-se homofobia onde ela não existia. Enfim.)

A minha esperança, semi-confirmada pelo filme, onde a prestação dele é exemplar, era que Eddie Murphy voltasse. O mesmo Eddie que, nos anos 80, foi a pessoa com mais piada no mundo inteiro. De "Saturday Night Live" aos filmes como "Os Ricos e os Pobres" ou "Um Príncipe em Nova Iorque", passando pelos especiais de "stand-up comedy", ninguém lhe chegava aos calcanhares. Esse Eddie não aparecia há anos. O talento continuava lá, mas a piada há muito que se tinha ido, diluída em filmes para família e comédias boçais. Isto dos cómicos ficarem velhos e acomodados é algo que acontece muitas vezes. Ou é da idade, da falta de paciência para impressionar ou, simplesmente, do cansaço de levarem porrada. Que é o que aconteceu com Eddie Murphy. Ele ainda faz rios de dinheiro, mas com filmes maus onde parece que perdeu a magia que tinha antes. Não é verdade. Uma mente cómica não se perde assim. Tem é medo de sair. Quando dizemos que Steve Martin ou Herman José já não têm piada, é a esse fenómeno que nos referimos. Eles continuam a ter piada, só que por medo ou falta de paciência já não a usam tanto.

Além da desilusão de Murphy, um dos acontecimentos mais impressionantes da semana passada foi a polémica gerada por uma piada feita no Canal Q sobre dois adeptos sportinguistas que caíram no fosso em Alvalade. A atenção dada levou a que Catarina Homem Marques (de quem sou amigo, devo clarificar) recebesse, através da Internet, ameaças de morte e violação. Se calhar tenho uma visão romântica da violação, mas que raio de pessoa é que, ao ser confrontada com alguém que odeia, tem como primeiro impulso violar? Não percebo nada de futebol, mas sei que é por causa de reacções destas que as pessoas deixam de ter piada e que não podemos ter coisas boas. E que, desde que não haja ódio – e ali não houve –, se pode fazer humor com quase tudo (quase, porque com o Holocausto em si é complicado). Mesmo que não tenha piada, defendo com unhas e dentes esse direito. E que as pessoas fiquem chocadas. Mas vamos ter calma. Também fico ofendido sempre que vejo o Marco Horácio na televisão, e nunca o ameacei de morte.

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