A primeira série portuguesa no Festival de Berlim é sobre a Lisboa da troika

Ivo M. Ferreira realizará policial noir para a RTP e alguns operadores estrangeiros já estão a sondá-lo esta semana na Berlinale. Em busca de co-produtores, o Sul da crise ruma à Alemanha da austeridade. Ao som dos Dead Combo.

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Ivo M. Ferreira Enric Vives-Rubio
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A troika tornou-se sinónimo da crise financeira da última década PAULO PIMENTA
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Margarida Vilanova, protagonista de Cartas da Guerra miguel manso
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Cartas da Guerra em Berlim em 2016 STEFANIE LOOS/Reuters

O regresso de Ivo M. Ferreira ao Festival de Berlim, onde em 2016 competiu pelo Urso de Ouro com Cartas da Guerra, é pela porta da televisão. Prepara uma série policial noir com a crise financeira como pano de fundo, um elenco de banqueiros, desempregados ou pastores evangélicos na Lisboa da troika, no Portugal de há um par de dias. Sul, projecto criado para a RTP, é a primeira série portuguesa seleccionada para a plataforma de co-produções CoPro e está esta quarta-feira na Berlinale para tentar aumentar o seu orçamento e talvez até o seu âmbito geográfico.

O realizador admite ao PÚBLICO ter uma “curiosidade específica” pelo trabalho em televisão, um meio que lhe é estranho (confessa, aliás, que só "há muito pouco tempo" tem televisão em casa). As referências de qualidade que vai buscar são as de Twilight Zone ou Hitchcock Apresenta, blockbusters da televisão portuguesa dos anos 80, quando ainda só havia RTP. “Não há dúvidas de que o cinema se está a repensar, que todos estes meios se estão a repensar”, reflecte, explicando que também por isso a televisão e os 450 minutos que ela lhe dará para contar a história de Sul o cativaram.

Tem na manga Hotel Império, a sua mais recente longa ainda por estrear, sucessora do feito que foram as suas (e de António Lobo Antunes) Cartas da Guerra, mas agora fala de “um aguçar do dente para pegar nesta matéria tão fantástica” que foi a crise. “Dizia-se muito que a crise era também uma oportunidade”, lembra Edgar Medina, produtor e argumentista da série. “E é uma enorme oportunidade dramática, porque transporta personagens, sensações, momentos que são particularmente bons e fortes de trabalhar”, diz o co-autor dos guiões, escritos a meias com Guilherme Mendonça (as histórias contaram também a colaboração do cronista e escritor Rui Cardoso Martins). “Como contadores de histórias, temos também uma certa dimensão de vampiros”, aponta Medina, argumentando que a crise deu visibilidade a pessoas e histórias com muito potencial arquetípico. Veio “criar um imaginário de personagens”, intervém Ivo M. Ferreira, que diz querer tratar o tema com dignidade no ambiente do cinema de género – o policial, o noir.

Para já há um só rosto e um só nome para Sul, os do actor Adriano Luz, que protagoniza a série no papel de um inspector da Polícia Judiciária. O som, além do da Lisboa da austeridade, é o dos Dead Combo. A atmosfera, remata Ivo M. Ferreira, é também marcada pelo que sabemos hoje. “O facto de a dita crise ter aparentemente acabado não veio apagar este tempo, se calhar estamos mais alerta sobre uma crise mais constante e permanente”, que nos assombra.

Mais ambição

Neste Sul cruzam-se tendências actuais do mercado da ficção como a migração – ou será miscigenação? – dos players do cinema para a televisão e a força das séries. O momento de pico de forma que estas atravessam a nível global pôs a estação pública a apostar nelas como alicerce de grelha (e de um sonho de uma possível indústria). E também pôs os festivais de cinema a chamar a si a TV. Cannes vai passar a receber um festival de séries já em Abril, a Berlinale alberga há quatro anos a CoPro, que selecciona oito séries por ano para fazerem um pitch – ou seja, apresentar e “vender” o seu projecto.

“É uma oportunidade única, naquele auditório estão 300 dos maiores operadores de televisão audiovisual e agentes de venda de todo o mundo”, descreve Edgar Medina, que diz já ter agendadas várias reuniões. Pelo CoPro Series passaram títulos como Babylon Berlin (já estreada no Netflix, mas não em Portugal) ou a norueguesa Valkyrien.

O objectivo é aumentar o financiamento de uma série orçada em um milhão de euros e que teve um apoio de 500 mil euros do Instituto do Cinema e do Audiovisual, mais o que a RTP pagará pela sua exibição. “Para fazer 450 minutos de ficção de qualidade, uma série de televisão que se quer cinematográfica, é uma porção ínfimo do que precisávamos”, explica o produtor. Mas Berlim pode ser também uma porta para a exibição e a distribuição de Sul noutros países.

“Para pessoas do cinema de autor como nós, a grande angústia não é tanto comprar o carro, comprar a casa – é fazer aquilo de que gostamos nas melhores condições possíveis”, diz o fundador da Arquipélago. “A ambição desta série é muito maior do que o orçamento que tem neste momento.”

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