Alentejo e Verdes apostam no crescimento da vinha

Mercado nacional prefere o Alentejo, enquanto os mercados externos preferem vinhos da região do Douro, essencialmente por causa do vinho do Porto.

Portugal é o décimo primeiro produtor mundial de vinho. Nos últimos anos, o potencial nacional de produção situou-se entre os 600 e os 700 milhões de litros, um valor próximo dos 60 litros por cada português. Metade dessa produção tem por destino o mercado interno, no qual o vinho é vendido principalmente em garrafa (45%) ou no sistema “bag in box” (40%), de acordo com a consultora Nielsen. A outra metade é exportada para mais de 100 países em todo o mundo. Se ao nível nacional, a região preferida é o Alentejo (seguida pelos Vinhos Verdes), na exportação a região dominante é claramente o Douro, essencialmente por causa do vinho do Porto.

Um país produtor que exporta metade do que produz nos seus 192 mil hectares de vinha dispersos por 582 mil parcelas pode estar numa situação confortável. Mas essa ideia, que genericamente está correcta, pressupõe que haja uma uniformidade no desempenho produtivo e comercial das regiões nacionais. O que está longe de ser verdade. O Douro tem dezenas de vinhos tintos (ou Porto) pontuados acima dos 95 pontos nas revistas internacionais mas debate-se com um problema estrutural de sobreprodução; o Dão e a Bairrada são regiões de culto para consumidores de nicho mas tardam em afirmar a sua qualidade e perfil quer no mercado nacional, quer no externo. Setúbal afirma-se no mercado de quantidade e Lisboa e o Tejo ganham cada vez mais espaço na disputa regional. Os Vinhos Verdes ou o Alentejo acabam neste campeonato por mostrar muito mais estabilidade e consistência.

É por isso que na bolsa de licenças para novas plantações lançadas em 2016 e 2017 pelo Instituto da Vinha e do Vinho sejam estas duas regiões a apresentar o maior volume de candidaturas. Os produtores alentejanos foram responsáveis por 34% dos pedidos de licenças que abrangeram 6320 hectares, enquanto os produtores dos Vinhos Verdes disputaram quase 15% da área em questão. O sucesso comercial dos seus vinhos faz com que os preços na produção (45 a 50 cêntimos por quilo na última vindima no Minho) sejam mobilizadores do investimento. No Douro, a maior região vinhateira nacional em área plantada, o sistema de regulação garante preços superiores para o volume de produção autorizado para o vinho do Porto; as uvas que ficam de fora desta autorização administrativa são geralmente pagas abaixo do custo de produção estimado (pouco mais de 600 euros por cada pira de 550 litros).

Face a estes números divulgados pelo IVV, não se pode estranhar que a casta preferida para as novas plantações seja uma variedade mais associada ao Alentejo: a Alicante Bouschet, com 14.8% do total dos pedidos em termos de área. Segue-se a Touriga Nacional (10.3%), que sendo originária do Dão (ou do Douro) se expandiu a todo o país, a Aragonez/Tinta Roriz, a Syrah (uma casta francesa bem adaptada às vinhas do sul), e a Loureiro, uma casta tipicamente minhota e baluarte do Vinho Verde. Mas se nesta escolha há linhas de continuidade, há também sinais de evolução. A clássica Trincadeira está em regressão e não aparece nas primeiras dez castas mais procuradas. E quase um terço dos pedidos relaciona-se com variedades que entram na categoria “outras”. O que pode sinalizar o esforço dos produtores nacionais em conservarem a extraordinária biodiversidade da viticultura nacional.

 

 

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