O novo anormal

Faz hoje um ano, o absurdo transformou-se em real. Olhar para o cargo de Presidente dos EUA passou a ter um significado diferente. Trump foi eleito como rejeição extrema “aos políticos” e está a confirmar que o populismo é ainda pior do que aquilo que o alimenta.

"A política é somar, não é subtrair. Trump não percebe isso. Olha para a base minoritária, não é um presidente de maiorias. E isso é comprometedor "

Jerry Brown, governador da Califórnia

 

“É tempo da nossa cumplicidade e do nosso comodismo perante o inaceitável acabarem. O comportamento do Presidente Trump é insultuoso e perigoso para a democracia. Não podemos permitir que isto continue muito mais tempo. Temos que parar de fingir que a degradação da nossa política e que a conduta do nosso governo são normais. Não são.”

Jeff Flake, senador republicano do Arizona

 

“Se os consumidores fizessem sempre escolhas racionais não haveria crises e Trump não seria Presidente. Acho que nada pode explicar Trump. Julgo que Trump revela as fraquezas de todas as ciências sociais. É impensável que alguém vote nesta pessoa: não tem experiência e parece que apenas se propõe a "fazer coisas". É natural que as pessoas se sintam zangadas, mas se estamos zangados não vamos pegar num martelo e bater com ele na cabeça. Estamos mais perto de Homer Simpson do que de Einstein»

Richard Thaler, Prémio Nobel da Economia 2017

 

Faz hoje um ano, o absurdo transformou-se em real.

A eleição de Donald Trump, mesmo sem se basear numa maioria de votos, sustentou-se num sentimento de rejeição “aos políticos” que muitos terão subestimado.

Mas o populismo levado ao limite da narrativa e do comportamento do 45.º Presidente dos EUA é ainda pior que aquilo que o alimenta.

Com Trump na Casa Branca, passámos a assistir a um “novo anormal”.

A agressividade e o insulto são, agora, protagonizadas pelo Presidente dos EUA. A mentira e os “factos alternativos” são armas poderosas para combater críticas reais e sustentadas a quem está no poder.

É uma espécie de “mundo ao contrário”, legitimado pelo voto

Presidência do caos e dos casos

Donald Trump é o Presidente do caos. E dos casos.

Se comédia for mesmo igual a “tragédia mais tempo”, talvez comece a ser altura de olhar para a Presidência Trump como uma piada de mau gosto. Como muito bem disse Jonathan Franzen, em entrevista publicada este sábado na Revista do Expresso, “Donald Trump está só a brincar”.

E o pior é mesmo o resto: o estilo truculento e mal-educado; a inconsistência estratégica; o cortejo de demissões, quedas e abandonos de pessoas próximas e influentes; o desprestígio e o embaraço que Trump provoca.

Nas chancelarias internacionais chamam “os adultos” à equipa de Segurança Nacional, Defesa e Relações Externas, pela forma como Tillerson e os generais Mattis, McMaster e Kelly tentar travar as tropelias do “miúdo” Trump.

A confiança e a admiração que os EUA despertavam no resto do mundo baixou, nestes nove meses, num terço: de 64% no fim dos anos Obama para 49%, agora (barómetro Pew Research Centre).

No auge da polémica sobre os acontecimentos de Charlottesville, Don Lemon, na CNN, elaborou: "É embaraçoso olhar para Donald Trump. E não digo só para nós, media. É embaraçoso para o país. Como foi possível chegar aqui? Como foi possível? Teremos sido nós, media, que não fomos suficientemente claros nos alertas? Não teremos feito bem o nosso trabalho de desmontar as mentiras, o desrespeito pelos factos, o "total eclipse dos factos" que Trump insiste em fazer? O discurso do Presidente no Arizona voltou a ser completamente fora da realidade, fora da razão, fora do pensamento, numa negação dos factos e da sensatez. Não teve "gravitas". Chegou ali e desatou a mentir aos americanos, a refazer a história, a contar uma versão totalmente distorcida do que aconteceu em Charlottesville. Não tem qualquer capacidade de auto-crítica. Parece um puto de seis anos a tentar justificar-se com um amigo imaginário. Não há sanidade no comportamento de Donald Trump... (pequeno silêncio, depois volta à carga) Neste momento, temos em Washington cada vez mais gente a dizer em privado que ele não está mentalmente habilitado para continuar na função. Como foi possível que, como país, tenhamos permitido isto? Um país tão extraordinário como a América, com gente tão capaz e competente, como foi possível eleger alguém tão mesquinho, tão pequeno, alguém que era suposto unir as pessoas. Como foi possível?"

Sem valores e sem coerência

O primeiro indulto que Donald Trump concedeu como Presidente foi para Joe Arpaio, antigo xerife de Maricopa, que tinha sido preso por discriminação racial e violação dos direitos civis dos latinos no Arizona.

Durante duas décadas e meia, Arpaio perseguiu imigrantes ilegais de forma impiedosa e tratou-os de forma desumana, impondo condições duríssimas das prisões do seu condado.

O que fez Trump? Perdoou a quem assim agiu, num sinal perturbador sobre o que acha que se deve fazer às minorias sem direitos na América.

A maioria dos americanos (51%) sente-se "embaraçada" por ter Donald Trump como Presidente. 59% dizem que Trump não é honesto, 60% consideram que não tem características de boa liderança e 61% não partilha dos seus valores. Sete em cada 10 (!) acham que ele deve parar de tuitar (sondagem Quinnipiac University, 21-26 setembro).

E desde 30 de outubro, depois de conhecidas as primeiras acusações da Comissão Mueller sobre a Russia Collusion, Paul Manafort, o homem que dirigiu a campanha presidencial de Donald Trump entre maio e agosto de 2016, está acusado de "conspiração contra a América".

Nem Philip Roth se lembraria disto. Na era Trump, a realidade é ainda mais assustadora do que a ficção.

Obsessão: apagar tudo o que Obama fez

Donald Trump tem uma obsessão em destruir todas as marcas deixadas por Barack Obama.

E, ainda pior do que isso, o 45.º Presidente dos EUA revela um desconhecimento primário e absolutamente assustador sobre os principais dossiês que dominam a agenda presidencial.

Essa conjugação de falhas é perigosa e potencialmente explosiva, tendo em conta os poderes do inquilino da Casa Branca.

Inédito e inclassificável

Tem um percurso marcado pelo egocentrismo empresarial, com o único objetivo de fazer dinheiro e salvar a face, sem olhar ao interesse coletivo ou a responsabilidades fiscais.

Foi à falência quatro vezes, usou os acordos feitos com a autoridade tributária para ganhar com isso, sem se preocupar com os direitos dos seus funcionários que perderam os empregos.

Representa a América que olha para o dinheiro e para o sucesso empresarial acima de tudo, sem ter em conta os valores morais ou políticos.

Para perceber Trump não basta olhar para a fortuna: é fundamental compreender a forma como conseguiu ser uma figura mediática e do espetáculo, sobretudo na última década, como apresentador do «The Apprentice».

É, essencialmente, alguém que vende bem o seu nome (Torre Trump, Avião Trump). Até lançou uma vodka Trump, ele que nem bebe álcool. Milhões de americanos acham que ele é “o homem mais rico da América”. De acordo com a lista mais recente da Forbes, é apenas o 248.º.

Nunca, antes de Trump, alguém tinha chegado à Casa Branca em ter sido eleito antes para um cargo político ou assumido chefia militar. Ele chega lá sem credenciais políticas, militares ou diplomáticas, numa abordagem agressiva e insultuosa. Foi como rasgar todos os manuais de marketing político e eleitoral.

Geralmente os magnatas financiam os políticos para beneficiarem na sombra. Trump é o primeiro caso de um magnata que passa para o lado do poder, porque a sua principal ambição passou a ser a de conhecer o poder.

Se Kennedy foi o primeiro Presidente da TV e Obama o primeiro Presidente da Intenet, Donald Trump é o primeiro Presidente Reality TV.

O primeiro aniversário do grande choque

A eleição de Trump foi uma enorme surpresa, mas há que ter a humildade de compreender as razões, por muito que não concordemos com elas.

A chave está em perceber que 2016 foi o ano da penalização do establishment.

Hillary era incomparavelmente melhor candidata e mostrou isso nos debates. Mas estava colada à ideia que iria ser penalizada: era considerada a candidata do sistema.

Trump agarrou a narrativa do populismo, do tornar a América grande outra vez e da crítica às elites. Isso chega a ser risível, ver Trump como o defensor dos descamisados, sendo ele alguém que durante décadas fez parte dessa elite e financiou os políticos que arrasou durante a campanha.

Mas esta foi a eleição que premiou as perceções, a exploração do medo e os “factos alternativos”.

Foi a derrota da realidade, houve um “divórcio da realidade”, se nos lembrarmos que Hillary era a herdeira política de oito anos globalmente bem-sucedidos da presidência Obama na área económica e da redistribuição fiscal.

O Make America Great Again de Trump parte de um pressuposto errado: a América nunca deixou de ser grande e estava a recuperar com Obama. Mas o medo prevaleceu sobre a realidade.

Trump ganhou porque conseguiu agarrar boa parte dos “zangados” do sistema.

Há uma década que 80 a 90% doa americanos reprovam o desempenho do Congresso e dos políticos de Washington. Se olharmos para esse dado, verificamos que os 46% de Trump acabam por não ser um número assim tão impressionante.

Hillary teve grandes vitórias na América urbana, pujante, diversa, das costas, e por isso teve mais três milhões de votos. Mas Trump arrasou na América rural e profunda e a chave foram menos de 100 mil votos em três estados do Midwest: Pensilvânia, Michigan e Wisconsin.

O pós crise na Rust Belt ditou o destino desta eleição – apesar da globalidade da situação na América ser positiva.

Incapacidade total

Entre as principais promessas, falhou em tudo para já: não há muro nem projeto; Reforma Fiscal só ainda umas ideias no papel; Travel Ban barrada 3 vezes nos tribunais; ObamaCare, que iria ser revogado em 100 dias, um ano depois ainda sobrevive.

Trump tende a compensar os falhanços legislativos com comícios nos locais onde mantém base fiel. Mas essa base está cada vez mais reduzida a 30 e poucos por cento: é o presidente mais impopular da América em primeiro ano de mandato, desde que há contagens diárias.

Saiu do Acordo de Paris tendo opiniões contrárias dentro da sua própria Administração; ameaça rasgar o Acordo Nuclear do Irão, não percebendo que a saída da América apenas fragiliza a posição dos EUA nesse tema, não acaba com um acordo que é 5+1.

O mais perturbador é que, na questão do Irão e em outras relacionadas com política externa, Trump dá mostras de não compreender que nas relações internacionais não se pode olhar só para o “o lucro”: há que tentar acordos ‘win-win’, em que todas as partes possam apresentar algum ganho. É no que dá pôr um multimilionário sem qualquer experiência política a presidir ao país mais influente do mundo.

Perdeu quase todos os elementos que lhe eram próximos e entrou em guerra interna com o próprio Secretário de Estado, Rex Tillerson, e o procurador-geral, Jeff Sessions.

Mais grave que isso tudo, desprestigiou a função presidencial e reduziu, neste ano, a influência dos EUA no resto do mundo.

Mais do que a Coreia do Norte, mais do que o Irão, mais do que o terrorismo jiadista islâmico, a maior ameaça à segurança nacional americana é a instabilidade da Administração Trump e do Presidente.

Há dois únicos aspetos positivos a salientar até agora: o facto de Trump ter conseguido nomear o juiz Neil Gorsuch, acabando com o impasse no Supremo desde a morte do juiz Antonin Scalia, e ter mudado de posição sobre o Afeganistão, mas só depois de muita pressão dos generais, que lhe explicaram que uma retirada total seria campo aberto ao reemergir do talibãs e ao reposicionamento do Daesh.

Relação de Trump com os republicanos: é complicado

Donald Trump mudou o Partido Republicano para sempre.

Conseguiu fazer dos republicanos “barriga de aluguer” para concretizar o seu sonho de chegar à Presidência.

Trump não era republicano: já foi democrata, chegou até a financiar os Clinton, já foi de um terceiro partido. O que ele queria era ser candidato presidencial. Mas percebeu que só podia chegar lá pela nomeação de um grande partido – e viu na fragilidade do Partido Republicano em 2016 a sua grande oportunidade.

A grande ironia é que Trump ganhou rejeitando os republicanos: insultou McCain, menorizou Rubio, difamou Graham, gozou com Christie que depois o viria a apoiar, chamou “sonolento” a Jeb Bush.

Na agenda de campanha, prometeu um megaplano de infraestruturas que em nada tem a ver com a agenda republicana, que rejeita qualquer investimento público ou despesas. Mesmo o muro com o México implicaria custos que os republicanos nunca aceitariam.

Depois há o lado da eficácia política: os republicanos até concordam com Trump na rejeição do ObamaCare. Mas recusam-se a revogá-lo enquanto não há uma alternativa viável. Fazer isso seria tirar qualquer cuidado de saúde a 18 milhões de americanos – e isso teria efeitos eleitorais nos republicanos nas midterms de 2018.

E nem sequer vai melhorar?

É impossível imaginar uma redenção: a personalidade e as características deste Presidente mostram que ele não corrige.

Trump não é um político hábil, não tem capacidade de criar consensos e estabelecer compromissos: e só assim um Presidente consegue vitórias no Congresso.

O trunfo de Trump é conseguir falar diretamente a cerca de um terço do eleitorado americano, que o apoia cegamente, bastando para isso que o Presidente insulte o “mainstream media” e os “políticos em Washington”.

E não devemos subestimar o instinto de sobrevivência de Trump: quando tudo parece perdido para ele, acaba sempre por evitar a queda.

A grande contradição é que os democratas paralisaram perante o “choque Trump”.

Estão há um ano parados no mantra de “este presidente é inaceitável” e ainda não conseguiram virar a página das “saudades de Obama” e do “choque da não eleição de Hillary”.

Os grandes momentos de oposição a Trump neste ano foram protagonizados por senadores republicanos como McCain, Bob Corker ou Jeff Flake. É urgente para os democratas criarem alternativas.

O relógio para 2020 está a contar.

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