Abdellatif Kechiche, o caçador da luz e da carne

Foi assim no final da projecção para a imprensa de Mektoub, My Love: Canto Um: protestos e “bravos”. Abatam-no se precisarem disso. Mas é um grande cineasta.

Fotogaleria
Mektoub, My Love: Canto Um dr
Fotogaleria
Mektoub, My Love: Canto Um dr
Fotogaleria
Abdellatif Kechiche dr
Fotogaleria
Abdellatif Kechiche com os actores Shain Boumedine e Hafsia Herzi LUSA/CLAUDIO ONORATI
Fotogaleria
LUSA/CLAUDIO ONORATI

Estão abertas as hostilidades, para já chamaram-lhe "machista". Por insistir sobre o corpo das raparigas, por as objectificar e por não fazer o mesmo aos rapazes, que sentido faz isso hoje, perguntaram-lhe, o que é que acontece “aos desejos” do público feminino que constitui os outros 50 por cento do planeta?

Abdellatif Kechiche usa os óculos como usava Wong Kar-wai, mas não parece afectação de coolness do franco-tunisino — isso era mais lá de casa no ex-wonder boy de Hong Kong. A voz é frágil, muito tímida, mas a determinação é límpida: haverá algum preconceito em alguns espectadores antes de verem os seus filmes, responde a quem lhe fez uma pergunta de contabilidade?

Diz que filmou, filma, “mulheres fortes e livres”. E que não é um “provocador” ou um desestabilizador do politicamente correcto. Quer devolver, ampliadas, as sensações que os corpos lhe provocam. Alguns aplaudem. Foi assim no final da projecção para a imprensa de Mektoub, My Love: Canto Um (competição): protestos e “bravos”. Abatam-no se precisarem disso. Mas é um grande cineasta.

Mektoub, My Love: Canto Um, o título indica, é apenas o primeiro tomo de um projecto, que dará origem a três filmes, inspirado na leitura de La Blessure, la vraie, de François Bégaudeau (o autor a quem Laurent Cantet deve A Turma, uma Palma de Ouro de Cannes). É uma obra a que Kechiche foi regressando ao longo de vários anos para se apoderar dela, para a integrar no seu território, como é o caso de Sète, a cidade portuária do Sul de França, à beira do Mediterrâneo, que já era o cenário das angustiantes evoluções finais de O Segredo de um Cuscuz (2007), filme que receberia em Veneza o Grande Prémio do Júri, depois de A Esquiva, em 2003, ter recebido o prémio para a melhor primeira obra. (Kechiche tem sido feliz aqui no Lido, espera-se que isso se reafirme em 2017.)

O realizador foi enchendo a convivência com o livro de Bégaudeau com as suas impressões, amores, musicas (e lá teremos de voltar aos Supertramp, vai uma aposta?). O resultado – até ver, porque a história continuará e transformar-se-á, o segundo tomo está filmado, o terceiro arranca a seguir a Veneza — passa-se no Verão de 1994, com a chegada de Amin (Shaïn Boumedine), aprendiz de fotógrafo e argumentista, que vem da cinzenta Paris à procura das cores de Agosto. O que se passa nessas férias, sexo e comida, música de discoteca e ventura bucólica, convivência de classes e origens, raparigas e rapazes (actores que passaram por meses de casting e ensaios e que se estreiam com Kechiche; outros, como Hafsia Herzi, de regresso a uma felicidade que reconhecem) é, para o realizador, o último sinal do século XX. “Quando as pessoas viviam de forma mais harmoniosa”.

Se é um statement, se há implicações, tonalidades políticas, nesta ideia de que para compreendermos o que estamos a viver hoje temos de recordar como vivíamos ontem, Mektoub, My Love: Canto Um dilui as âncoras narrativas e a abre-se ao usufruto. O gesto não pede desculpas, e, pelo que se consegue ver deste primeiro encontro com espectadores, é a sua potência de escândalo. Podemos resumir assim Mektoub, My Love: Canto Um: uma série de cenas de engate e um tipo que é ensopado por elas, que as observa e bebe (este voyeur que vem envolto pela luz e que participa da escuridão talvez possa ser Abdlellatiff Kechiche, já lá vamos).

Sabemos o que liga as personagens por blocos de conversa, diálogo, sabemos  – pelo que Kechiche revelou na conferência de imprensa – que algumas figuras a que os diálogos se referem, sem elas terem aparecido, vão ser personagens nos tomos seguintes. A experiência pode, portanto, alterar-se. Mektoub, My Love pode tornar-se em várias outras coisas – sabendo que há um pacto com o cinema de Kechiche que se manterá, porque há sempre um pacto antes de cada filme, e que diz respeito à duração das sequências: uma incontrolável ligação entre o êxtase, a saciedade e a saturação. Mas para já o Canto Um é uma caça à luz e à carne, é o filme de um impressionista, de um sensualista, que suspende o “plot” em favor dos sentidos. (Ele diz uma coisa bonita, que a intenção é que o espectador “contemple” o filme, e é verdade que isso não é apenas um horizonte, é mesmo a forma como o filme se oferece).

E chegamos a Amin (Shaïn Boumedine). Há uma dualidade de que se suspeita e que ainda não é totalmente confirmada: criatura que parece transportada pela luz e transportar a luz, gosta do escuro. A sua suavidade, delicadeza, que faz dele amparo para os magoados do amor, não esconde, ao longo das quase três horas do primeiro tomo, que está em rota de revelação (ficamos à espera, vai ser um belo susto).

Não se lhe conhecem ligações afectivas. Mas conhece-se a sua necessidade de estar perto da sensualidade e do sexo, de experimentar vendo — com uma câmara. Não tem medo algum. Amin não é a autobiografia de Abdlellatif Kechiche. Mas tem as impressões dele. Com ele o cineasta, depois da obra de todas as polémicas, A Vida de Adèle (2013), em que foi acusado de voyeurismo pelas actrizes, faz um filme que se instala naquele território, o de cineastas como César Monteiro ou Jean-Claude Brisseau, por exemplo, de uma verdade irredutível, escandalosa: eles próprios, sem medo de si próprios.

Sugerir correcção
Comentar