Nos primeiros dias da presidência de Trump, as distopias disparam nas vendas

1984, de George Orwell, subiu ao primeiro lugar da Amazon, tornou-se um dos títulos mais vendidos nos EUA. Mas a distopia de Orwell sobre um regime totalitário não foi a única a disparar nas vendas.

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Livros mais vendidos nos EUA: 1984, de George Orwell, O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, It Can’t Happen Here, de Sinclair Lewis, A Conspiração contra a América, de Philip Roth, As Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt Getty Images

A 9 de Abril de 2016, o jornal The Boston Globe fazia uma primeira página disruptiva. Uma foto de Donald Trump e o título: “Começam as deportações.” A data no cabeçalho era 9 de Abril de 2017. O futuro estava a ser visto a um ano de distância. Os jornais imitavam a literatura e o futuro ia-se escrevendo de forma especulativa com a intenção, conforme afirmou a jornalista Laura Miller, de “nos alertar para os perigos de uma corrente actual”, como acontece sempre numa distopia. Miller fez essa observação na New Yorker, em 2010, num artigo sobre a vaga de distopias que ressurgia na literatura, sobretudo na americana. Seis anos depois, a palavra voltou com uma colagem mais próxima à realidade, uma quase-ficção em directo que os media foram acompanhando; a resposta a um presente que parecia desafiar a razão e que se acentuou nesse dia 8 de Novembro de 2016, com os meios de comunicação social a recorrerem à literatura para explicar uma vitória que não previram e, sobretudo mais recentemente, para interpretar o discurso e as primeiras medidas do novo Presidente.

Nos primeiros dias da presidência de Donald Trump, uma das notícias a rivalizarem com o próprio era a de que 1984, de George Orwell, uma distopia sobre um regime totalitário escrita em 1949, estava no primeiro lugar de vendas da Amazon e era um dos títulos mais vendidos nos EUA. É a descrição de um mundo onde quem o governa quer passar a ideia de que não há uma realidade objectiva mas aquela que o “Partido” quer fazer passar, um mundo vigiado, dominado pela tecnologia que foi simbolicamente recuperado para o presente, 70 anos após a sua invenção, no momento em que a conselheira de Donald Trump, Kellyanne Connaway, falou em “factos alternativos”. Todos os jornais citaram Orwell nesse dia. Mas a distopia de Orwell não foi a única a disparar nas vendas. Também dispararam O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, It Can’t Happen Here, de Sinclair Lewis, A Conspiração contra a América (D. Quixote), em que Philip Roth escreve a partir de um “e se” — e se Charles Lindbergh, herói da aviação e fanático com traços nazis, tivesse vencido Franklin Roosevelt nas eleições americanas de 1940 e negociado um pacto com Hitler?

Desafiado a comentar a semelhança entre esse episódio ficcional e o presente, Roth saiu do seu silêncio. “É mais fácil compreender a eleição de um Presidente imaginário como Charles Lindbergh do que um Presidente real como Donald Trump. Lindbergh, apesar das suas simpatias nazis e propensões racistas, era um grande herói da aviação que tinha demonstrado enorme coragem física e génio aeronáutico ao cruzar o Atlântico em 1927”, disse à New Yorker, acrescentando que Lindbergh “tinha carácter e substância”. Quanto a Trump, “é apenas um artista do engodo”.

Ainda nesse email, Roth referia-se ao papel do escritor neste novo contexto. “Ao contrário dos escritores da Europa do Leste nos anos 70, os escritores (...) aqui não vivem reféns de um estado totalitário policiado, e seria imprudente agir como se estivéssemos, a menos que — ou até — haja um assalto genuíno aos nossos direitos e o país se afogue no rio de mentiras de Trump. Enquanto isso, imagino que os escritores continuarão a explorar a enorme liberdade americana que existe para escrever o que quiserem, falar sobre a situação política ou organizar-se como quiserem.”

É nessa liberdade que se lêem para já os textos de Hannah Arendt, como As Origens do Totalitarismo (D. Quixote) ,outro dos títulos que fazem parte do top de vendas dos últimos dias nos EUA. E se fazem conversas em que se especula, literariamente ou não, acerca do futuro.

A 16 de Novembro, uma semana depois das eleições, a escritora britânica Zadie Smith afirmava em Nova Iorque que estes seriam “tempos interessantes” para a literatura. “A história já nos ensinou que, em momentos como este, isso acontece.” Lembrou o exemplo de E. M. Foster, autor de Passagem para a Índia, no modo como se opôs às grandes guerras do século XX. Foi objector de consciência na primeira, e na segunda usou os microfones da BBC para combater o nazismo e toda a espécie de ideais totalitários em ensaios que o tornariam respeitado fora dos círculos literários. “Este não é só um problema americano, o do populismo. É o reflexo de uma crise global, e uma crise transporta-nos para uma nova forma de intervenção. A arte costuma estar à frente desse movimento.”

Smith falava durante a apresentação pública do seu mais recente romance, Swing Time, e nesses dias, sempre que um escritor falava publicamente na América, era chamado a manifestar-se em relação ao actual momento político do país. “A literatura pode salvar?”, perguntava-lhe provocadoramente a entrevistadora. “Não sei se salva, mas pode fazer muito bem”, respondeu a escritora. E os risos que então se ouviram na sala foram os da cumplicidade entre quem procura antes de tudo um discurso para entender o que se passa, mas sabe estar longe dessa resposta, apenas no princípio da interrogação, que já era mais do que um “e se...?” em Novembro e agora, no fim do primeiro mês de 2017, Roth verbaliza em forma de ameaça real nesse email já tão replicado: “Quanto à forma como Trump nos ameaça, diria que, como as famílias ansiosas e assustadas do meu livro, o que é mais aterrorizador é que ele faz tudo e mais qualquer coisa possível, incluindo, é claro, uma catástrofe nuclear.”

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