Falhas constantes no serviço da Transtejo e da Soflusa desesperam utentes

Transporte fluvial tem vindo a apresentar problemas técnicos e supressões de carreiras constantes nas últimas semanas. Os utentes estão fartos e contestam por um serviço público de qualidade.

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Chegar a uma estação fluvial e perceber que uma ou várias ligações foram suprimidas tem sido uma constante nos últimos tempos GUILHERME MARQUES

Há muito que as queixas relativas ao serviço de transporte fluvial da Transtejo e Soflusa se acumulam e levam a constantes protestos por parte dos utentes e trabalhadores. Mas nas últimas duas semanas a situação piorou e chegou-se a um ponto de ruptura que originou quebras no serviço em praticamente todos terminais e estações fluviais daquelas duas empresas. Sindicatos, utentes e autarquias exigem que o Governo faça algo para resolver o problema. 

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A Transtejo assume, na Carta do Cliente, a obrigação de “fornecer um serviço de qualidade e adequado às expectativas”, mas quebra este compromisso diariamente, segundo o testemunho dos utentes. E, numa carta, a que o PÚBLICO teve acesso, dirigida ao Ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, uma delegação de entidades sindicais, comissões de trabalhadores e utentes e câmaras municipais descreve uma “situação insustentável”.

Há duas semanas, a Capitania do Porto de Lisboa foi chamada ao terminal fluvial de Montijo, por volta das 8h00, para serenar os ânimos dos utentes no Cais do Seixalinho. Em causa estava o suprimento da carreira das 7h30 devido a “problemas técnicos” com o navio. “Quando chegou ao local a carreira já estava normalizada” e não houve necessidade de uma intervenção maior”, assegurou um agente da polícia marítima.

Mas este episódio não é único no Montijo. João Luís, de 38 anos faz a travessia no Tejo desde 2012 e diz que “melhorias não têm havido”. O utente explica-nos que “já aconteceu estar a chegar [ao cais] e o barco que estava a sair era o barco da meia hora anterior. Aconteceu recentemente, há coisa de 15 dias. O barco da 7h30 saiu às 8h00 e depois não houve o das 8h30 e só saímos às 9h00”, recorda.

O presidente de Câmara de Montijo, o socialista Nuno Canta, diz que não subscreveu a carta endereçada ao ministro do Ambiente apenas porque o documento não lhe chegou às mãos. O autarca afiança que tem “feito tudo” para que “as empresas que estão a gerir os transportes façam aquilo que lhes compete”. “O Governo tem de resolver e a câmara exige exactamente isso, apesar de ser da mesma cor política que o Governo, vinca Nuno Canta.

Por seu turno, uma comissão de utentes do Cais do Seixalinho reuniu-se para concertar uma acção de protesto. No dia 4 de Janeiro, entre as 17h30 e as 19h30, haverá uma concentração no terminal fluvial do Cais do Sodré que visa reivindicar uma melhoria imediata da qualidade do serviço público da Transtejo e Soflusa.

A empresa enfrenta queixas nos vários concelhos em que opera. Apesar de ser para “quem vem do Seixal o método mais fácil para vir para Lisboa, segundo Rafael Magalhães, “o serviço é um bocadinho mau” desabafa este estudante, de 21 anos. Opinião corroborada por Paulo Santos, funcionário público, que ao fim de seis anos de travessia pensa em mudar para a Fertagus. E, tudo, diz, porque “falta manutenção, faltam os horários e faltam muitos barcos”.

O descontentamento repete-se em outros terminais. Por exemplo, no Terreiro do Paço, onde é feita a ligação com o Barreiro, vários utentes apresentam queixas semelhantes. No quadro electrónico que assinala os horários dos embarques é possível verificar supressões de carreiras.

Nada a que Maria Ferreira não esteja já acostumada nos 15 anos que tem como utente da Soflusa. Considera o “serviço razoável”, mas salienta que já foi prejudicada com a supressão de carreiras. E, confidencia-nos que tem sorte por trabalhar num “lugar onde o patrão sabe das dificuldades que são os transportes e não cria problemas maiores” apesar do incómodo que sente.

Quem viaja entre o Barreiro e Lisboa e vice-versa encontra bastantes barcos com frequências curtas. No entanto, a administrativa de 60 anos revela que o serviço “tem épocas em que está um caos”. Os problemas mais frequentes prendem-se com atrasos e supressões de carreiras, que segundo a mesma “ocorrem durante todo o dia”, mas que se acentuam nas horas de ponta.

No Cais do Sodré, cuja afluência de passageiros é elevada, por via das ligações ao Montijo, Seixal e Cacilhas a situação é idêntica tendo-se intensificado nos últimos dois anos descreve Margarida Morais, técnica superior em Lisboa. “Há muitos atrasos, adiaram também carreiras, o percurso era feito de dez em dez minutos e agora é de 20 em 20 minutos”, diz a técnica que faz o percurso Cacilhas-Cais do Sodré há nove anos. E, salienta ainda, a segurança “causa preocupação” uma vez que “os barcos estão a cair de podre”.

Quem faz a ligação Belém-Trafaria-Porto Brandão concordará. Também aqui há supressão de carreiras, quase sempre relacionadas com a manutenção dos barcos. Desde o início do ano registaram-se 32 dias com supressões de viagens nesta ligação, situação que foi mais problemática nos meses de Setembro e Outubro.

Valter Esteves, empresário, tem por hábito fazer-se transportar com o carro para a Trafaria, no ferryboat e salienta as vantagens: “o valor da viagem sai a 2,40 euros se comprarmos dez viagens e depois não há o desgaste com o pára-arranca. Justifica vir de barco”, assume. No entanto, afirma já ter chegado à estação de Belém e não ter ligação. Foram as circunstâncias, que minam a fiabilidade do serviço, que obrigaram o empresário a tornar-se “um bocadinho mais precavido” e verificar antecipadamente no site da empresa se terá transporte.

Já Maria Domingues e Graça Gonçalves vêem nos gadgets modernos “corpos estranhos” e contam com as informações afixadas na estação para saber de alguma interrupção. As duas utentes não escondem o desânimo que sentem sempre que têm de ficar retidas à espera que o barco seja reposto. Queixam-se de que os horários são muito espaçados. O PÙBLICO ainda lhes perguntou se já reclamaram, mas a resposta foi negativa: “Para quê? Para eles guardarem os papéis na gaveta? Não vale a pena”.

Faltam embarcações?

Para Luís Leitão, coordenador da União dos Sindicatos de Setúbal, a questão da fiabilidade do serviço é um problema que decorre da “falta de embarcações” gerado pelo que considera ser “desleixo” da administração das empresas.

Mas a administração Transtejo/Soflusa refuta por completo a ideia de “desleixo” e explica porquê: “em 2016, fruto do esforço para a recuperação dos atrasos verificados nos anos anteriores, conseguiram realizar-se dez docagens [para reparações de manutenção], estando mais quatro navios em docagem para processo de obtenção do certificado de navegabilidade”.

A administração nota ainda que foi empossada há quase um ano e insiste que herdou alguns problemas, nomeadamente a falta de investimento. O ministério do Ambiente, que tutela o sector, já tinha criticado o anterior executivo pelo “desinvestimento nos transportes públicos em Portugal”, fruto de uma política de concessão dos serviços, entretanto interrompida.

Num comunicado enviado ao PÚBLICO, a empresa diz ter “25 navios com condições de exploração em serviço público, dos quais se encontram hoje, quatro em processo de docagem e quatro em reparação de avarias, pelo que estão 17 em disponibilidade para a operação. Sendo que, no pico de serviço diário, são necessários apenas 15 navios para realizar o serviço programado”, esclarece.

No entanto, o sindicalista Luís Leitão assegura que “este ano duas embarcações perderam o certificado de navegabilidade” e salienta que há seis navios da Soflusa” que irão perdê-lo até Setembro de 2017, se nada for feito. “A empresa prepara-se para deitar ao ‘caixote do lixo’ 7,5 milhões de euros com um navio adquirido em 2010”, lê-se numa carta enviada pela União de Sindicatos de Setúbal ao ministério.

Em causa, afirma Luís Leitão, está o Almadense, que, pelo que sabe, “vai ser mandado abater”, apesar de só ter efectuado quatro mil horas de navegação. O motivo – crê o sindicalista – está relacionado com o facto de o barco não cumprir alguns requisitos. O sindicalista diz não ter dúvidas de que este “foi um negócio ruinoso para a Transtejo”.

A administração da Transtejo/Soflusa assume, em resposta ao PÚBLICO, que “existem quatro navios que não estão em exploração”. E admite que está a ponderar a sua permanência na frota ou se será melhor aliená-los ou, até mesmo, enviá-los para abate. “O Almadense faz parte dos quatro navios cuja função e necessidade se encontra em análise”, respondeu a empresa.

O Ministério do Ambiente já prometeu mudanças na gestão da Transtejo/Soflusa. Um novo conselho de administração tomará posse no início de Janeiro de 2017 e nova administração terá de apresentar até ao final de Fevereiro de 2017 um conjunto de medidas, designadamente, um plano urgente de manutenção de navios”. Até lá, comissões e sindicatos prometem levantar a voz por um serviço público de qualidade.

Texto editado por Abel Coentrão

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