Da Jamba à Angola de todos os Santos

Angola tem de ser respeitada enquanto país soberano. Mas uma coisa é um país outra coisa são os congressos de um partido, mesmo os do MPLA.

Angola pela sua história, pela dimensão geográfica, pelas riquezas, pela língua oficial e por lutas comuns com os portugueses anticolonialistas, é um país prioritário no relacionamento de Portugal. Assim como o Brasil e restantes países de língua oficial portuguesa. Desde o dia 11 de Novembro de 1975,dia da independência de Angola.

Vergonhosamente o PS, o PPD e o CDS sabotaram esse relacionamento e contrariamente ao Brasil, Portugal foi dos últimos países a reconhecer a independência de Angola.

Foi uma das páginas mais negras da história do Portugal democrático com Angola. Mas há uma razão político-ideológica para tal atitude.

Vivia-se então uma acesa luta a nível global entre o campo ocidental liderado pelos EUA e o campo liderado pela URSS.

Os EUA e até a China perfilavam-se atrás de Jonas Savimbi fornecendo-lhe apoio militar, político, diplomático de todo o género. Angola estava a ferro e fogo.

Todos os partidos compreendiam a importância estratégica de Angola, sobretudo tendo em conta as lutas de libertação da África do Sul, da Namíbia e do Zimbabwe.

Por isso as longas viagens levaram para a Jamba via Pretória muita gente de primeiro plano daqueles partidos. Todos recordarão episódios tristes da queda de um avião e mais caricatos como o sinaleiro da Jamba que deixava basbaques alguns visitantes.

Eram outros tempos embora todos considerassem Angola prioridade; uns reconhecendo o Estado angolano; outros apoiando o terrorismo da Unita/Savimbi que atacava e raptava portugueses que iam trabalhar para Angola.

Nessa altura o Palácio das Necessidades e os partidos acima referidos nunca se importaram como destino dos portugueses vítimas da Unita, tal a cegueira político-ideológica…ou a submissão aos mandarins da NATO.

Está ainda por fazer a história dessas páginas vergonhosas da diplomacia portuguesa que apoiada nos partidos do arco do poder recebia como Jonas Savimbi como um chefe de Estado, o mesmo que tinha, nas suas cadeias, portugueses raptados por irem trabalhar para Angola.

Foram-se mudando os tempos e Angola foi mudando o seu azimute. Deixou o nome de origem e passou a ser uma República.

Mas à medida que o tempo foi passando a República de Angola começou a parecer mais com um reino de interesses.

A guinada que o mundo deu para fazer valer os negócios acima de tudo o que exista no planeta, em linguagem conhecida da segunda guerra mundial  negócios über alles, os dirigentes angolanos estenderam o tapete vermelho aos grandes oficiantes dos negócios.

Foi um encontro de vontades que teve naturalmente reflexos em Portugal. Depois de Angola passar a ser considerada no mundo globalizado e bem aberta à finança mundial chegou a hora dos indígenas nacionais correrem para Angola em busca de negócios.

Para tanto não lhes foi nada estranho terem encontrado um eco clamorosos do lado de quem tem a economia nas mãos.

Para Portugal quanto mais negócios se fizerem com Angola melhor é, desde que sejam reciprocamente vantajosos, e possam resistir às agruras dos tempos que estão em permanentes mudanças.

O problema aparece quando de um lado são quase sempre os mesmos e do outro a mesma coisa.

Investimentos angolanos em Portugal são seguramente bem-vindos, e é de presumir que os investidores portugueses o sejam em Angola.

O que aconteceu no Congresso do MPLA que levou a Luanda PCP,PS, PPD, CDS e o Paulinho das feiras, o porta-voz dos combatentes do ultramar português, o paladino contra a descolonização criminosa, agora homem de negócios e amigo do MPLA, vai entroncar nessa viragem de Angola em direção ao mundo financeiro.

O MPLA é um partido, não é um Estado. Um partido tem uma ideologia. A do MPLA filiado na IS deveria ser a social-democracia, a qual não é pertença de um conjunto de famílias ou amigos, mas sim um conjunto de valores políticos para gerir um país.

Quem vai a um congresso de um partido sabe que é assim. Portanto quando o MPLA convida o o PS, seu parceiro da IS, o CDS e o PSD está dar um sinal que em Portugal o MPLA( não o Estado) quer ter relações com todos desde o CDS, desde o Paulo Portas até ao PCP, menos o BE.

É um pouco chocante uma tal postura que é simultaneamente um sinal de como o MPLA se vê na situação angolana.

Angola tem de ser respeitada enquanto país soberano. Mas uma coisa é um país outra coisa são os congressos de um partido, mesmo os do MPLA.

O caminho angolano a fazer é dos angolanos e das suas opções. As alavancas da economia estão nas mãos de meia dúzia de famílias com particular relevância na família Santos. É também um assunto angolano que aos angolanos diz respeito, devendo sobre essa matéria tão relevante poder opinar e agir em função das opiniões por mais agreste que sejam. No fundo trata-se de discutir o futuro do país da rainha Ginga, a fundadora do reino de Angola e de Agostinho Neto, arquiteto da independência.

A criação de uma burguesia nacional a partir do aparelho de Estado não é novidade. Apesar disso pode ser feita com o mínimo de tolerância em relação a outros setores da população ou usando a repressão quando surgem opiniões diferentes.

Um caminho de confronto com setores da intelectualidade e outras camadas mais esclarecidas da população não augura nada de bom.

Os elogios do CDS, do PSD, de Paulo Portas dão que pensar. A austeridade irmana-os? Serão os negócios? Mas que negócios?

O percurso foi longo para se encontrarem – da Angola da Jamba à Angola de todos os Santos.

*Advogado

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