O alfarrabista vende livros porque não pode viver sem eles

Actualmente há à volta de 15 alfarrabistas no Porto. Um dos traços comuns dos vendedores de alfarrábios é a necessidade constante de adquirir mais livros. Paradoxalmente à ideia de negócio, uma das grandes dificuldades dos vendedores é ver alguns livros serem comprados.

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Livraria Académica Marco Duarte/nfactos
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Moreira da Costa Marco Duarte/nfactos
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Livraria Paraíso do Livro Marco Duarte/nfactos
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Timtim por Timtim Marco Duarte/nfactos
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Timtim por Timtim Marco Duarte/nfactos

Para um alfarrabista não há livros a mais. Pode, no limite, haver pouco espaço para os guardar. Nos bastidores das livrarias do Porto, especializadas na venda de alfarrábios, é comum existirem prateleiras com dezenas de milhares de livros, muitos deles ainda por catalogar. Essa ordenação e organização é um trabalho de décadas, diário e que se avoluma ao mesmo ritmo da entrada de novos livros. Há um traço comum entre alfarrabistas, que é o fascínio, mais do que pela literatura, pelo objecto físico do livro, cultivado por tradição familiar ou por mero acaso da vida.

Há quase 70 anos, Nuno Canavez, um ano após terminar o ensino primário, deixou a aldeia onde nasceu, no concelho de Mirandela, para rumar ao Porto à procura de melhores oportunidades de emprego. Com o caminho aberto por um irmão mais velho, que já tinha feito o mesmo, foi, incentivado pelo pai, trabalhar numa drogaria ou mercearia enquanto continuaria os estudos à noite. Ainda não tinha passado uma semana desde que tinha trocado Trás-os-Montes pela Invicta quando tropeçou num anúncio de jornal que pedia “rapaz para livraria”. Arriscou e marcou entrevista com Guedes da Silva, proprietário da Livraria Académica, fundada em 1912.

Quando chegou ao número 10 da Rua dos Mártires da Liberdade, estavam outros três rapazes à espera de conseguir o lugar. Guedes da Silva não fez muitas perguntas. Quis saber apenas se Nuno Canavez gostava de ler. Respondeu que na aldeia de onde vinha não havia muito para ler, além do jornal que o pai comprava ao domingo, mas que, naturalmente, “se tivesse oportunidade”, seria um leitor mais assíduo. Ficou com o lugar. Os outros rapazes foram embora, sem serem apresentados ao dono da Académica, porque Guedes da Silva terá preferido apostar num “diamante em bruto” e “sem vícios da cidade”, que tinha acabado de chegar e “precisava de uma mão para começar a vida”, diz Canavez.  

Matriculou-se no ensino nocturno para tirar o curso geral de comércio, que completou enquanto trabalhava, de dia, na livraria, onde começou por varrer o chão e limpar janelas, função que desempenhou durante cerca de cinco anos. Teve sempre o apoio do patrão, que não aceitava o dinheiro dos manuais escolares, adquiridos na livraria, e o deixava sair sempre que o horário das aulas se aproximava. Durante esse período, foi conhecendo os clientes que frequentavam o espaço, ouvindo as conversas, entre eles, sobre literatura e foi prestando atenção ao formato dos livros, às encadernações e aos prefácios. “Quem estiver interessado e atento está permanentemente a aprender”, afirma.

Um dia, a espreitar pela montra, estava Miguel Torga, que frequentava a loja com regularidade. O genro do patrão foi-lhe dizer quem era. Torga, que “tinha uma cara que parecia uma fraga e pouco se ria”, diz Canavez, entrou e cumprimentou-o. Perguntou ao, na altura, rapaz de 16 anos se gostava de ler. Respondeu que sim e disse que já tinha lido um livro da sua autoria: Um Reino Maravilhoso, sobre Trás-os-Montes, refere. Torga perguntou se também era transmontano. A partir daí, “o homem que para se rir nem a fazer cócegas, quando lá ia perguntava sempre se estava lá o seu conterrâneo”.       

Aos poucos Nuno Canavez foi subindo de posição dentro da livraria, foi ganhando mais conhecimento e o “vício dos livros” foi-se enraizando, até ter recebido o convite por parte do seu patrão para se tornar sócio. Ao longo dos cerca de 70 anos de actividade, diz ter visto passar pela livraria muitas das figuras da literatura nacional, seus contemporâneos. Sem memória disso, mas de acordo com relatos do proprietário original, já falecido, passavam por lá regularmente alguns dos fundadores da revista Águia, que ficava no 178 da mesma rua, na sede da Renascença Portuguesa, como Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão ou Teixeira de Pascoaes.

O espaço terá cerca de 80 mil volumes em stock, sobretudo raridades. Explica que há livros que podem ser vendidos por 2 mil ou 3 mil euros, como aconteceu há uns dias, quando vendeu, por 2 mil euros, a primeira edição de , de António Nobre, e por 3 mil o Embriões, de Teixeira de Pascoaes. Embora, actualmente, face à crise económica, diz haver uma maior procura pelo livro mais corrente, por ser mais barato. No entanto, afirma que nos últimos 50 anos não houve muitos alfarrabistas a fechar portas, pelo contrário, diz ter assistido, nos últimos dez anos à abertura de “uma série de novos” e sublinha haver espaço para todos. Com 81 anos, diz não trocar os 70 que dedicou aos alfarrábios por nada: “Vinha para o Porto para trabalhar numa drogaria e felizmente, por acidente, fui parar a um alfarrabista e isso fez de mim o que sou hoje”.

Réplicas de vida

Este seu percurso de vida já se reflectiu noutros, que lhe seguiram as pisadas. É o caso da Livraria Paraíso do Livro, na Rua José Falcão. Antes de abrir o novo espaço, em 2009, a proprietária, Amélia Coelho, trabalhou na Livraria Académica durante 25 anos. Curiosamente, a história da alfarrabista não é muito diferente da de Nuno Canavez, que lhe abriu a porta da Académica de forma muito semelhante à maneira como lá foi parar. Amélia Coelho, diz que se arrepia ao lembrar-se dessa história. Também vinda de uma aldeia, no seu caso, do Douro, foi escolhida para a função como forma de retribuição por parte de Canavez por alguém um dia lhe ter, também, dado essa oportunidade. Com o conhecimento que adquiriu ao longo de duas décadas e meia, Amélia, decidiu lançar-se a solo e criou um espaço mais orientado para a ficção científica e policiais, mas que também reúne clássicos da literatura portuguesa.

Amélia Coelho despertou para a leitura ainda na sua aldeia motivada pela Biblioteca Itinerante da Gulbenkian, que por lá passava. Mas só depois de ter começado a trabalhar com alfarrábios foi criando uma relação mais próxima com os livros. Um dos problemas dos alfarrabistas diz ter origem nessa mesma relação que é criada, que nalguns casos dificulta o próprio negócio: “Ainda na semana passada um cliente queria comprar um livro da Agustina Bessa-Luís, que custa 375 euros, e estava-me a custar vendê-lo”, refere. Este sentido de pertença que se cria em relação aos livros diz ser uma das constantes do ofício e é o que diferencia o alfarrabista de um livreiro comum: “Os livros são nossos até que alguém os venha comprar”. Na parte da frente da loja estão “seguramente 25 mil livros”, mas na totalidade dos 375 metros quadrados a contar com o armazém, estarão “uns 100 mil”. O número vai aumentando, porque, de acordo com Amélia Coelho, o alfarrabista quer sempre comprar mais.

Cinco gerações de alfarrabistas

Quem também diz ser um comprador compulsivo é Miguel Carneiro, quinta geração da família a dar continuidade ao negócio da Moreira da Costa, o mais antigo alfarrabista do Porto, fundado em 1902 pelo seu trisavô. Aos seis meses, ainda dentro da alcofa, já era levado pelos pais para a livraria. Aos seis anos começou a agrupar os livros nas estantes e aos 13 já começou a trabalhar mais a sério, mas só aos 18 é que assumiu funções a tempo inteiro.

Nasceu e cresceu “no meio dos livros”, como diz, e desenvolveu uma paixão, sobretudo, pelo livro antigo, “manuseado”. “Como qualquer alfarrabista”, diz preferir comprar do que vender. O primeiro livro que comprou, uma edição dos Lusíadas, de Emílio Biel, demorou 15 anos a vender por não se conseguir desligar do lado afectivo. Quando se pergunta o que prefere comprar é categórico: “Tudo”. Ao “tudo”, soma-se um espólio de 50 mil livros que o alfarrabista, do número 30 da Rua de Avis, colecciona. Na cave, um dos espaços de eleição de Miguel, estão 30 mil por catalogar. Dos anos de actividade que tem, destaca a possibilidade que lhe é dada de poder contactar com os clientes, que são fonte para que vá alargando o seu conhecimento.

Actualmente, no Porto, existem entre 15 a 20 alfarrabistas.

Alfarrábios aos quadradinhos

A Timtim por Timtim é um alfarrabista dedicado exclusivamente a livros de colecção de banda desenhada, fundada por Alberto Gonçalves. Dos 10 aos 16 anos, o alfarrabista comprou “religiosamente” a revista Tintin, editada em Portugal entre 1968 e 1982. Recorda que todas as sextas-feiras esperava ansiosamente pela saída de mais um número. Lia avidamente a secção de correspondência, que seria, na altura, a única forma de ficar a par das novidades da BD europeia.

Durante muitos anos o seu sonho era conseguir comprar a colecção completa do Tintin belga, que na altura, na década de 1960 e 1970, lhe parecia ser “um feito irrealizável”.  Só na viragem do século conseguiu alcançar esse objectivo, altura em que voltou a comprar banda desenhada com mais regularidade. A dada altura “tinha muita coisa repetida” e, por isso, em 2004, decidiu abrir uma loja na Praça do Marquês de Pombal, que abria apenas em horário pós laboral: “O horário de funcionamento era entre as 18h00 e a hora do jantar”, explica. O nome escolhido remete para o lado afectivo da ligação que criou na sua infância e adolescência com o herói belga. No entanto, é possível encontrar banda desenhada europeia e americana de todos os géneros.

A partir de certo momento percebeu que havia um mercado para aquele tipo de negócio por não existir, até à altura, um espaço para coleccionadores de banda desenhada. Depois do Marquês, após passagem breve pela Rua das Oliveiras mudou-se, em 2006 para o espaço actual na Rua da Conceição, onde permanece há 10 anos.

O espólio foi aumentando e só por falta de espaço é que não aumenta mais. Por vontade do proprietário do alfarrabista, que diz ser o único do género no país, teria ainda mais peças à venda.  

Além de banda desenhada também é possível encontrar na loja peças de colecção sobre cinema, desporto ou cadernetas de cromos.

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