Além da apoteose

Sharon Jones pode ter demorado a editar — o seu primeiro disco surgiu quando já passava dos 40 — mas desde que lhe tomou o gosto ainda não parou quieta, e ainda não deu um passo em falso. Para aferir do grau de apuro funk/soul de Give The People What They Want, não é preciso mais do que ouvir os primeiros segundos deRetreat!, a faixa de abertura: a guitarra picada, a pandeireta, a anca a rebolar e a frase que define bem a voz cheia de entrega da senhora Jones, “You play with me and you play with fire”. Grandes metais no refrão. Final em grande, com os coros e a bateria a partir tudo. Ainda não refeitos, vem a baita ginga de Stranger to my happiness, que talvez só perca em suor para a magnífica People don’t get what they deserve

Mas atenção: a sra. Jones, por mais finais grandiosos que proporcione, por mais apoteose que arranque da garganta, não é sempre um vulcão a borbulhar. Ela também sabe fazer o mercúrio derreter devagarinho: Slow down, love, com aquele baixo reptilíneo, os metais todos seda, há-de servir à feitura de muita criança. E o mesmo se pode dizer de Making up and breaking up, canção que pede que os pares dancem o mais juntinho possível. Há quem chame a tudo isto retro-soul: uma imitação da soul da década de 1960. Mas não: na sua cabeça, Jones nunca saiu dessa época. Felizmente, no seu coração também não.

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