Rússia não fecha a porta a Guterres e pede nova votação

Moscovo pediu uma nova votação no Conselho de Segurança para sexta-feira e confirma que a sua diplomacia joga forte. Fumo branco em Nova Iorque é hoje mais difícil.

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Putin e Merkel: divididos nos candidatos a secretário-geral da ONU Reuters/RIA NOVOSTI

A Rússia, um dos cinco países permanentes do Conselho de Segurança da ONU, portanto com direito a veto em relação a qualquer candidatura a secretário-geral, não fechou as portas a António Guterres. É o que se depreende da declaração do embaixador de Moscovo nas Nações Unidas, Vitaly Churkin, na véspera de serem novamente votadas as candidaturas, já com indicação do sentido de voto dos membros permanentes. Um primeiro “match” que deverá, contudo, não ser ainda o decisivo.

“Basicamente temos de ter o melhor candidato e alguém que possa ser apoiado pelo Conselho de Segurança e ser popular no sistema das Nações Unidas”, disse em conferência de imprensa o diplomata russo. Churkin lembrou a posição de partida da Federação Russa no processo de eleição do sucessor do sul-coreano Ban ki-monn. O Kremlin afinou pela tese de uma mulher oriunda do leste europeu.

“Achamos que é a vez da Europa de Leste a providenciar o próximo secretário-geral. Gostaríamos muito de ver eleita uma mulher, mas estamos menos orientados para as relações públicas do que outros países que têm afirmado, de forma vincada, a sua preferência por uma mulher para apenas começarem a votar em homens e contra mulheres, nós não faremos isso”, garantiu o embaixador de Moscovo. A referência a “relações públicas” é entendida como uma ironia à pressão diplomática de alguns países em defesa de uma solução de género.

Daí que a sugestão de um “melhor candidato” que tenha o apoio do Conselho de Segurança, que não é mais do que  eufemismo do “sim” russo, e que tenha popularidade  na ONU seja perene de sentido. Nas cinco votações até agora realizadas no Conselho de Segurança a candidatura de Guterres obteve sempre o apoio de dois terços dos 15 membros daquele órgão, o que não deixa de ser indicador de popularidade. Contudo, como indício de que a votação de hoje não deve ser decisiva, Moscovo já pediu novo acto eleitoral do Conselho de Segurança para depois de amanhã, sexta-feira.

Não é a primeira vez que as palavras do embaixador Vitaly Churkin exigem explicações de “kreminólogos”. No dia da terceira vitória de António Guterres, o diplomata admitia à Associated Presse que chegará o dia em que uma mulher seja secretária-geral. Mas, de seguida, ponderava: “A grande questão é saber se é este o momento certo.”

O problema não é semântico, mas político. Os analistas salientam que, num momento gélido das relações com os Estados Unidos e com a União Europeia, a Rússia joga o seu veto e a influência do seu voto entre os outros 192 Estados membros das Nações Unidas. As sanções comunitárias na sequência do conflito da Ucrânia e da anexação da Crimeia não estão esquecidas em Moscovo. Daí que a candidatura da comissária do Orçamento e dos Recursos Humanos, a búlgara Kristaliana Georgieva, não suscite qualquer entusiasmo. Apesar de ser mulher e do leste.

Tanto mais que Georgieva é patrocinada pela Alemanha de Ângela Merkel. Entre búlgaras, Moscovo prefere a actual directora-geral da UNESCO, a socialista Irina Bukova, a quem Sófia já retirou o tapete, mas que mantém a sua candidatura. 

Nesta fase, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança – França, China, Estados Unidos, Reino Unido e Rússia - cuja posição por disporem de direito de veto é decisiva, mantêm atitudes discretas e não revelam qual é a sua aposta. Há pouco mais de uma semana, a embaixada do Reino Unido em Lisboa, respondeu a uma pergunta do PÚBLICO de forma também enigmática: que o melhor candidato fosse secretário-geral das Nações Unidas. 

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