Começou a disputa pelo emprego mais impossível do mundo

Para ser secretário-geral da ONU, António Guterres tem de ganhar num jogo em que a Europa de Leste e os defensores da eleição de uma mulher para o cargo apostam forte. A primeira partida começa já.

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Guterres com refugiados na Tunísia: a experiência no ACNUR enriqueceu muito o seu currículo DOMINIQUE FAGET/AFP

A Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, começa esta terça-feira a ouvir os oito candidatos que até agora disseram querer “o emprego mais impossível do mundo”, como lhe chamou o primeiro secretário-geral da ONU, o norueguês Trygve Lie. António Guterres é um dos oito candidatos já declarados e um dos mais qualificados, depois dos dez anos de liderança do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR). Mas nada impede que surjam ainda novos pretendentes.

É a primeira vez que os candidatos à posição de secretário-geral se vão submeter a uma sessão de perguntas e respostas na Assembleia-Geral transmitida em directo pela Internet – os oito que dirigiram a ONU nos seus 71 anos foram escolhidos à porta fechada, no Conselho de Segurança, e a assembleia apenas pôs o carimbo final. Mas no Outono, estes dois órgãos decidiram tentar tornar o processo mais transparente.

Os candidatos apresentaram um documento de 2000 palavras com a sua “visão” e sujeitam-se às questões dos seus empregadores – os 193 Estados-membros da ONU, que entre terça e quinta-feira ouvirá todos os que já se apresentaram. Se outros se declararem, realizar-se-ão novas sessões.

Os candidatos favoritos...ou talvez não

Apesar desta abertura, quem continuará a ter a palavra determinante será o Conselho de Segurança, o verdadeiro centro do poder na ONU. As entrevistas servem para dar maior transparência ao processo de escolha, deixando entrar alguma luz no que até agora tem sido um escrutínio fechado no Conselho. A escolha de um novo secretário-geral está sujeita a veto dos cinco membros permanentes – Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França, os países vencedores da II Guerra Mundial.

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Reunião do Conselho de Segurança Emmanuel Dunand/AFP

Quais são as reais possibilidades de António Guterres nesta corrida? O próprio diz que ainda há “muito nevoeiro” e não arrisca mais do que arriscava há um ano: 20%. O facto de ser de um pequeno país, sem rivalidades geopolíticas, pode no entanto jogar a seu favor. A diplomacia portuguesa na ONU tem uma larga experiência em alcançar objectivos que parecem, à partida, inconquistáveis, como obter um dos dez lugares rotativos do Conselho de Segurança, ultrapassando candidatos que pareciam óbvios. Já o conseguiu três vezes. E em 2014, Portugal foi eleito para o Conselho Económico e Social das Nações Unidas.

A reforma desejada

Certo é que o próximo secretário-geral da ONU assumirá a liderança de uma instituição com uma enorme necessidade de reformas e várias crises para debelar. Fala-se na gigantesca burocracia, que torna um pesadelo fazer contratações – um processo que dura um ano – ou torna impossível dispensar alguém. “Se se fechasse uma equipa de génios do mal num laboratório, não conceberiam uma burocracia tão enlouquecedora, tão complexa, a exigir tanto esforço, mas no final tão incapaz de produzir o resultado desejado”, escreveu no New York Times Anthony Banbury, ex-secretário-geral adjunto e veterano de 30 anos nas Nações Unidas.

Nos seus documentos de “visão” para a ONU, a maioria dos candidatos fala em planos de reforma – vários falam na necessidade de deixar de funcionar em “silos”, compartimentos fechados em que os esforços se repetem. “Não se dá a devida consideração ao facto de a ONU ser um organismo de 193 nações. Há Estados que abordam a questão das reformas de perspectivas muito, muito diferentes”, disse ao jornal The Guardian Valerie Amos, ex-ministra para o Desenvolvimento britânica. Guterres tem também aqui uma vantagem: levou a cabo uma profunda reforma do ACNUR, logo que chegou a Genebra.

Um dos pontos do relatório feito há uma década sobre a reforma da ONU criticava a forma de financiamento de vários programas, cujos responsáveis são obrigados a correr as capitais do mundo, pedindo dinheiro aos governos, ano após ano. Guterres, que dirigiu uma agência que está sempre no fio da navalha por falta de dinheiro, obrigada a captar financiamentos para funcionar, avança com a ideia de criar parcerias com instituições financeiras internacionais, bem como com o aumento da cooperação com a sociedade civil e o sector privado, além de outras organizações regionais, como a União Africana.

Em competição está também Helen Clark, ex-primeira-ministra da Nova Zelândia e directora do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – onde fez cortes e uma reorganização importante. As suas mudanças são apreciadas por muitos países ocidentais, mas pouco populares entre o chamado G77, o grupo das nações menos desenvolvidas, liderado pela Índia.

O peso das mulheres

Mas, sobretudo, há uma forte convicção de que os candidatos mais fortes ainda nem sequer foram formalmente anunciados. Neste ano há uma forte pressão para ser escolhida uma mulher – seria a primeira vez, e seria também um sinal de que havia vontade de corrigir a falta de mulheres nos quadros superiores da ONU. Das 166 pessoas que em 2015 trabalhavam no secretariado, directamente com Ban Ki-moon, com cargos de subsecretário ou secretário-geral adjunto, apenas 37 eram mulheres. Guterres promete tentar estreitar as falhas em termos de igualdade de género, e também em diversidade de regiões do mundo, outro tema sempre polémico.

Fala-se insistentemente de duas possíveis candidatas, que ainda não entraram na corrida mas poderiam transformá-la: a actual ministra dos Negócios Estrangeiros argentina, Susana Malcorra, que foi chefe de gabinete de Ban Ki-moon, e da comissária europeia da Bulgária, Kristalina Georgieva.

Malcorra tomou posse no Governo de Mauricio Macri no fim de 2015. Quanto a Georgieva, não é apreciada em Moscovo pelo papel que desempenhou na aplicação de sanções da UE à Rússia, mas é do partido que subiu ao poder em Sófia já depois de ter sido indicada como candidata búlgara Irina Bukova, a actual directora da UNESCO, considerada a favorita de Moscovo. Bukova não é muito bem vista pelos EUA, pois aceitou a entrada da Palestina na organização da ONU para a Educação e Cultura. E Georgieva é muito bem vista entre os europeus.

A Rússia já fez saber que preferia um candidato da Europa de Leste, pressionando para que se respeite a tradição não escrita de rotatividade pelas regiões do mundo. Isso explica que tenham surgido cinco candidatos de países resultantes da ex-Jugoslávia: Danilo Türk, ex-Presidente da Eslovénia (2007-2012) e ex-secretário-geral assistente para os Assuntos Políticos da ONU, nomeado por Kofi Annan; Vesna Pusic, ex-ministra dos Negócios Estrangeiros da Croácia e presidente do Partido do Povo Croata; Igor Lukšic, ministro dos Negócios Estrangeiros do Montenegro e ex-primeiro-ministro; Natalia Gherman, ex-ministra dos Negócios Estrangeiros e da Integração Europeia da Moldova; Srgjan Kerim, um empresário dos media que foi ministro dos Negócios Estrangeiros da ex-República Jugoslava da Macedónia, e presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas em 2006/2007.

A questão das regiões pode, no entanto, não vir a ter o peso tradicional, dizem fontes diplomáticas. Sobretudo porque a divisão da Europa em Leste e Ocidente é mais um resquício do pós-II Guerra Mundial em que assenta a arquitectura da ONU que hoje já não faz muito sentido – os países que apresentam candidatos a secretário-geral fazem parte da União Europeia ou querem vir a fazer parte.

Nesta altura da corrida ainda não há compromissos firmes de apoio, porque ninguém quer apostar num candidato que não seja o vencedor. Há só manifestações de simpatia. O Conselho de Segurança vai deixando para trás as candidaturas menos viáveis – o mandato de Ban Ki-moon só termina a 31 de Dezembro, e o seu substituto tem de ser escolhido até ao Outono. Para tal, as audiências desta semana terão o seu contributo mas não serão decisivas. com Teresa de Sousa

Análise de Teresa de Sousa: Uma candidatura entre dois mundos

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