Numa praça de Beja, substituiu-se calçada por laje e o resultado é um piso partido

Em 2003 foram gastos cerca de 500 mil euros na renovação do espaço. Decorridos 13 anos, das 1600 lajes de mármore que formam o pavimento, estão partidas cerca de 300.

O estado actual do pavimento
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O estado actual do pavimento
Como era antigamente
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Como era antigamente

De entre as 13 intervenções de requalificação e reordenamento de espaço urbano que faziam parte do programa Beja Polis, destaca-se a alteração profunda que foi efectuada na Praça da República, onde, em 2003, foram investidos cerca de 500 mil euros. Agora, outro tanto ou mais será investido pela câmara para que tudo volte ao que estava antes, retirando-se as lajes que se foram partindo para que a calçada regresse.

Quando foi apresentado o projecto de reformulação da principal praça da cidade de Beja, em 2001, a opção da autarquia suscitou desde logo forte contestação. O modelo proposto anulava radicalmente a configuração do espaço, em calçada portuguesa, datado de 1940. No seu lugar iria surgir um pavimento em lajes de mármore de Trigaches com um metro de lado e uma espessura de cinco centímetros. Decorridos 13 anos, das 1600 lajes de mármore que formam o pavimento, foram partidas pelo rodado das viaturas quase 300.  

Pinto Leite, à época coordenador do Programa Polis, reagindo, em dado momento, ao cepticismo dos críticos do projecto de reformulação da Praça da República, alegou ter sido “adoptada uma solução minimalista que evidencia a sua importância e contemporaneidade”.

As críticas recrudesceram quando foram encontrados importantes achados arqueológicos durante os trabalhos de remodelação da praça. Com efeito, no subsolo surgiram “pequenas peças quadrangulares de mosaico (tesselas) incrustadas em pavimentos antigos muito bem preservados”, descrevia-se em 2003.
A praça, de configuração rectangular, com cerca de 4500 metros quadrados de área, está na zona mais sensível da cidade de Beja por se situar no local onde foram (re)descobertos, em 1997, os primeiros vestígios do fórum romano pela arqueóloga Conceição Lopes. Foi o arqueólogo Abel Viana o primeiro a identificar estruturas que associou a um templo romano, em 1939, durante os trabalhos de abertura dos alicerces para a construção do depósito de água que acaba de ser demolido.

A arqueóloga Adelaide Pinto, então envolvida no levantamento arqueológico da Praça da República, referiu que, apesar da importância dos achados, só era possível “limpar, fotografar e registar” por falta de verbas para levar a cabo uma escavação. Os vestígios foram outra vez enterrados, depois de revestidos com uma tela de geotêxtil coberta com uma camada de areia. Por cima foram colocadas as lajes de mármore.

Para além do mal-estar gerado na população por não ser possível aproveitar a oportunidade para se revelarem importantes testemunhos do passado histórico da cidade, a solução encontrada para o novo pavimento da praça depressa se revelou inadequada perante o uso que foi feito do espaço.
Viaturas pesadas “até da própria autarquia”, admitiu ao PÚBLICO João Rocha, presidente da Câmara de Beja, foram partindo as lajes, um tipo de pavimento que provoca quedas frequentes, sobretudo nos mais idosos, devido ao piso escorregadio e ao facto de as oscilações do solo deixarem umas lajes salientes em relação às outras.

João Rocha reconheceu a razão dos protestos de um número crescente de cidadãos que insistem em reclamar o pavimento instalado em 1940 e anunciou, na passada semana, a reposição da calçada “semelhante ao que era antigamente”, mantendo, no entanto, o piso plano, sem passeios.
Mais receptivo à promoção e valorização da componente arqueológica e histórica da praça, o autarca quer “um centro histórico desenvolvido e dinâmico” e até já lhe atribuiu uma designação: Fórum Beja. Vai inclusive estudar a possibilidade de tornar visível o piso romano que foi identificado durante os trabalhos da remodelação da praça em 2003, colocando um espaço vidrado.

O autarca tem, contudo, um bico-de-obra pela frente. A nova remodelação da praça vai implicar também a reformulação da rede de águas pluviais e de esgotos que atravessam o espaço. O levantamento das lajes vai impor mexidas no subsolo onde permanece quase desconhecida uma grande riqueza arqueológica.
Resta saber até onde o município estará disposto a investir para satisfazer a expectativa mantida ao longo de séculos sobre o que estará por baixo da praça, quando, a poucos metros ao lado, continua a ser escavado um património arqueológico datado de um período temporal que vai do século VII a.C até à época moderna. Conceição Lopes, que coordena os trabalhos, já identificou vários alicerces de construções romanas, islâmicas e medievais que se estendem para a área da praça.

João Rocha não avança um valor do custo da nova remodelação da Praça da República em Beja, mas tudo aponta para que seja superior aos 500 mil euros investidos em 2003 numa obra que durou 13 anos. O programa Beja Polis, que envolveu 13 projectos, custou ao erário público cerca de 20 milhões de euros.

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