Franjas, borlas e galões para príncipes e sultões

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Carlos Alberto e o seu tear do princípio do século XX

Era uma arte de salões e palácios, de fardas para soldados galantes, de vestidos que pareciam cortinados. Com o encerramento de muitas empresas, a passamanaria corria o risco de desaparecer, mas a Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva recuperou uma oficina e acredita que a arte de enrolar fios até onde a imaginação permitir tem um futuro. Por Alexandra Prado Coelho (texto) e Nuno Ferreira Santos (fotos)

Carlos Alberto Rodrigues encosta-se para a frente, deixando cair o peso do corpo, ajusta as correias de couro nos ombros e faz deslizar os pentes do tear. Há 49 anos, quando começou nesta profissão, ficou registado como "profissional de franjas e galões e análogos em tear". Hoje o seu trabalho é conhecido por uma única palavra, mas não muito mais fácil de pronunciar - passamanaria.

O tear de Carlos Alberto, agora instalado numa oficina da Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva (FRESS), no Largo das Portas do Sol, em Lisboa, pode ser do princípio do século XX e todo o sistema pode parecer quase medieval, mas foi daqui que saíram muitos dos galões, franjas de reposteiros, cordões - enfim, aquilo a que chamamos habitualmente "berloques" - para palácios em Inglaterra, casas de campo de duques, embaixadas, palácios de sultões das Arábias.

Houve tempos em que qualquer dama ou cavalheiro que se prezasse vivia cercado por estes cordões, franjas e galões. Eram um símbolo de distinção social e de prestígio militar. Rodeavam as cinturas das senhoras, espreitavam por baixo de molhos de saias, afagavam os pulsos no final das mangas, enfeitavam o cabeção dos cavalos, decoravam os coches e os dosséis. De várias cores, desenhos, feitios, com borlas mais felpudas e outras lisas, pendiam dos cortinados, provocando os gatos, e deixavam-se enrolar pelos dedos distraídos dos jovens enamorados, que, suspirando, se encostavam às janelas.

Durante décadas, a empresa Passamanarte, de Belas, fundada por Olegário da Silva Andrade, especializou-se nestas técnicas. Trabalhou para clientes portugueses e para clientes estrangeiros. Em 1992, quando um incêndio destruiu nove salões do Castelo de Windsor, em Inglaterra, foi em Belas que se teceram e torceram todos os galões e cordões para decorar novamente o palácio da família real britânica.

Houve tempos áureos: trabalharam para o n.º 10 de Downing Street, a residência do primeiro-ministro britânico, para o castelo dos príncipes alemães Thurn e Taxis, em Regensburg, para as casas de campo dos duques de Gloucester, para o palácio do sultão do Brunei, para o Supremo Tribunal dos EUA e para a Main Street da Disney.

Não conseguiram, no entanto, evitar a crise e entraram em processo de falência e risco de extinção. Os fundadores tinham vendido a empresa a duas estrangeiras, uma inglesa e uma americana, Jane Brighty e Marion Smith, entusiastas desta arte, mas nem o seu entusiasmo conseguiu travar o processo. A Passamanarte ia mesmo fechar. Foi aí que entrou em cena a FRESS, que tem como uma das suas missões a preservação de saber-fazeres antigos em risco de se perderem.

"Quando as senhoras declararam falência, tomei a iniciativa de ir falar com elas", conta Luís Calado, presidente da fundação. "Ficaram muito entusiasmadas com a hipótese de integração [de parte da empresa] na FRESS, e aceitaram continuar a representar este sector no mercado americano e britânico."

A empresa já estava nas mãos do tribunal, mas não tinha credores, e, com o apoio de um mecenas privado, a FRESS conseguiu ficar com todo o stock de matérias-primas e produtos acabados, as máquinas, e ainda integrou quatro técnicos.

Arte de criar volume

Carlos Alberto - que agora vai buscar um cartão de desenhos para colocar no tear e faz passar as laçadeiras sobre os fios esticados, para fazer um galão - é um desses técnicos. Leonor Pinto é outra. Pega num papel com várias amostras de cordões, e explica como começa o processo. "Os clientes mandam-nos amostras dos tecidos [dos cortinados ou dos sofás, por exemplo] e nós tentamos arranjar a cor que combine com eles." São essas várias propostas que depois enviam para o cliente tomar uma decisão. Podem fazer qualquer coisa - basta juntar fios.

Tudo começa, na verdade, com um fio. Seda, lã, algodão, aqui e ali finos fios de ouro ou prata. As outras duas técnicas da Passamanarte estão, num outro espaço, a trabalhar nessa junção dos fios. "Fazem quilómetros para unir fios para fazer os cordões", diz Leonor. "A pessoa vai fazendo a grossura à medida que vai trabalhando", reforça Carlos Alberto. Para a frente e para trás, leva fio, traz fio. Depois, entre os dedos de Carlos, eles encaracolam-se em rolinhos e todos juntos fazem uma franja.

Leonor quer mostrar outra coisa. Agarra numa pequena esfera de madeira com uma abertura no meio e com enorme rapidez passa um fio de um lado ao outro, cobrindo meticulosamente a esfera que, em menos de nada, fica "vestida". São estas esferas que depois compõem os cordões caindo sobre as franjas num jogo de sobreposição de elementos que, se quisermos, pode não ter fim.

É uma técnica, explica num texto de apresentação António Camões Gouveia, director do Museu de Évora, "precisa e de dimensão estética, capaz de contorcer e torcer os fios, não de os fiar e de os agrupar em trama, mas de os rodar entre si e sobre si, sobrepondo jogos e nós feitos e desfeitos, volumes fictícios e reais". É uma arte de criar volume - "volume esse que tanto ajudou os pintores do Renascimento e do Barroco", sublinha Camões Gouveia.

Há muitos modelos pendurados nas paredes à nossa volta. Imaginamos o que possam ser os gostos - mais barrocos? - dos sultões árabes, ou os mais clássicos dos palácios de Inglaterra, os mais ousados, pedidos por decoradores portugueses para casas que hão-de aparecer nas revistas, ou as versões mais modernas que Leonor vai experimentando para atrair clientela diferente.

O interesse de João Rolo

Uma das grandes apostas da fundação para diversificar os usos da passamanaria é o vestuário. "Hoje é muito usada pelos estilistas no vestuário de senhora, galões, remates de bolsos, borlas a cair", diz Luís Calado. Na apresentação pública da nova oficina da fundação, o estilista João Rolo ofereceu-se para fazer três vestidos que mostrassem as potencialidades da passamanaria.

O que a fundação quer preservar nas várias oficinas que tem (madeiras, têxteis, metais, pele, etc.) não é tanto o objecto final tal como ele sempre foi feito, mas a própria arte, e isso, sublinha o presidente, "permite aplicar o saber-fazer em coisas modernas usando técnicas tradicionais". E não é só o vestuário - também o calçado, a joalharia de autor, as artes cénicas, podem redescobrir a passamanaria, acreditam os responsáveis da fundação.

Por enquanto, os quatro técnicos vindos da Passamanarte estão a trabalhar sobretudo em encomendas para o estrangeiro. A ideia é aproveitar o prestígio que o trabalho feito em Portugal tem. "Havia empresas no mercado externo, baseadas sobretudo em mão-de-obra intensiva, e muitas faliram", explica Luís Calado. "Há um interesse externo que reconhece a qualidade da mão-de-obra portuguesa. É pena se não olhamos para isto numa perspectiva de nicho" com potencial para sobreviver.

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