Fármaco de uso veterinário vendido em Espanha e Itália ameaça abutres europeus

Anti-inflamatório levou à morte de 99% dos abutres na Índia em 15 anos e foi banido. Associações temem que a catástrofe se repita na Europa e sobretudo em Espanha, que concentra a maioria dos indivíduos.

As autoridades responsáveis pelos medicamentos em Espanha e Itália aprovaram o uso veterinário de diclofenaco, um fármaco apontado como a principal causa da morte de 99% da população de abutres na Índia em 15 anos. Sendo Espanha o país que concentra a maioria dos abutres europeus – incluindo os que chegam a Portugal –, as associações de conservação da natureza temem uma catástrofe semelhante à que ocorreu na Índia e apelam à União Europeia para banir o uso da droga.

O diclofenaco é um anti-inflamatório que pode ser usado para tratar gado bovino. O problema é que o fármaco permanece no organismo dos animais durante algum tempo após a morte e é altamente tóxico para os abutres, que se alimentam das carcaças deixadas ao ar livre. Dois dias depois de ingerirem carne contaminada, as aves morrem de falência renal.

Na Índia, entre 1992 e 2007, as populações de três espécies asiáticas – abutre-de-dorso-branco (Gyps bengalensis), abutre-de-bico-longo (Gyps indicus) e abutre-de-bico-estreito (Gyps tenuirostris) – diminuíram entre 97,5% a 99,9%. O custo estimado deste quase extermínio para a sociedade indiana rondou os 24.500 milhões de euros. Quando se provou a relação entre a morte dos abutres e o fármaco, em 2006, este foi proibido e substituído por outro – o meloxicam – com efeitos semelhantes mas não tóxico para as aves. Desde então, apesar de se saber que o medicamento continua a ser usado ilegalmente nalgumas explorações pecuárias, as populações começaram a recuperar, embora lentamente.

O surgimento do diclofenaco no circuito comercial europeu foi “surpreendente” e representa uma “ameaça significativa” para os abutres que voam nos céus da Europa, consideram a Fundação para a Conservação dos Abutres (VCF, na sigla em inglês), com sede na Suíça, e a BirdLife International, no Reino Unido. “É chocante que um medicamento que já devastou vida selvagem em larga escala na Ásia entre agora no mercado em países cruciais para a conservação dos abutres”, diz o biólogo português José Tavares, director da VCF, numa nota de imprensa. As duas associações enviaram esta semana um pedido à União Europeia (UE) para que o medicamento (que pode ser utilizado em humanos) seja proibido para uso veterinário.

Em Portugal, a Liga para a Protecção da Natureza (LPN), que coordena o projecto LIFE Habitat Lince-Abutre, também está preocupada. “Quando um país como Espanha abre a possibilidade de a droga ser usada, põe em causa a sobrevivência dos abutres a nível europeu”, sublinha o biólogo Eduardo Santos, responsável pelo projecto que visa a protecção do habitat do lince ibérico e dos abutres no Sudeste do país.

Perante o declínio das populações de abutres na Ásia, e uma tendência semelhante em África, a Europa é o território com mais indivíduos, com Espanha à cabeça: aqui vivem 90% dos grifos (Gyps fulvus), 67% dos quebra-ossos (Gypaetus barbatus), 97% dos abutres-pretos (Aegypius monachus) e 85% dos abutres-do-egipto (Neophron percnopterus), estando esta última espécie ameaçada de extinção. Para os grifos e os abutres-pretos, Espanha é mesmo o país mais importante do mundo.

“As populações portuguesas são transfronteiriças”, lembra Eduardo Santos, explicando que as aves procuram comida dos dois lados da fronteira. Por isso, embora o medicamento não seja autorizado em Portugal para uso veterinário, o impacto é expectável. E basta um animal contaminado para matar grandes populações de aves.

Desastre anunciado
Segundo a VCF e a BirdLife International, o diclofenaco foi autorizado para venda em Espanha em Março de 2013, mas o licenciamento só foi tornado público em Agosto. A comercialização está a ser feita pela empresa Fatro, tanto em Espanha como em Itália. Na avaliação de risco, necessária para o processo de aprovação do medicamento, não foi incluído o impacto nos abutres, dizem as organizações ambientalistas. “Abriram a porta a um desastre, se o uso se generalizar”, alerta Eduardo Santos.

Em Itália, onde existe uma importante colónia de abutres nos Alpes, o uso veterinário do fármaco foi autorizado em Julho de 2002, mas só para cavalos de competição, cujos cadáveres não ficam, por norma, à mercê das aves necrófagas. Porém, desde 2010 que é permitido o uso também em porcos e gado bovino, incluindo animais para consumo humano e produção de leite.

De Itália, o diclofenaco tem sido exportado para países como a Sérvia e Turquia. “Se os países europeus aprovam o uso veterinário do diclofenaco, isto pode ser encarado como um precedente a seguir pelos países da Ásia e de África”, acreditam as organizações internacionais, sublinhando que está em risco o ambiente e a saúde pública.

Os abutres têm uma importante função ecológica. Por se alimentarem de cadáveres, muitas vezes em decomposição, reduzem a propagação de doenças, algumas transmissíveis aos humanos, e impedem a contaminação dos lençóis de água. Entre 2008 e 2012, a UE investiu 10,7 milhões de euros em projectos de conservação da espécie, segundo as associações, que lançam um apelo: é preciso aprender com o que aconteceu na Índia e evitar nova catástrofe.

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