O ano vivido por uma trabalhadora do BES: Banco bom, banco mau

Nas duas últimas semanas de Julho, quando tudo se precipitava no BES, Sandra (nome fictício) estava fora do país, a gozar férias. Entre as várias notícias negativas para o banco esteve a detenção, a 24 de Julho, de Ricardo Salgado, que foi constituído arguido no âmbito da investigação Monte Branco. O líder histórico da família Espírito Santo acabou por sair em liberdade, depois de ter sido interrogado, contra o pagamento de uma caução no valor de três milhões de euros.

Os receios sobre a solidez do banco, pela sua exposição a empresas do grupo e a Angola, avolumam-se. O governador do Banco de Portugal (BdP) desdobrava-se em declarações sobre a robustez do BES e sobre a disponibilidade de bancos internacionais para assumirem uma participação no seu capital, garantindo dessa forma a recapitalização. Ou, em alternativa, acenava com a possibilidade de recurso à linha de recapitalização pública, criada com dinheiros da troika. Mas as garantias de Carlos Costa acabaram por se esfumar perante o enorme buraco nas contas semestrais, reveladas a 30 de Julho. Nada menos do que prejuízos de 3600 milhões de euros, fruto da constituição de provisões de operações que estão sob investigação.

Sandra, que trabalha há oito anos na instituição e preferiu não ser identificada, estava a salvo dessa pressão: “Nessa altura, as informações ainda não passavam na comunicação social internacional. Eu só tive percepção do que estava a acontecer no dia 31 de Julho, quando cheguei a Portugal. Já aqui, vi a comunicação social e tentei perceber o que estava a acontecer”, recorda.

O que estava a acontecer na bolsa era a queda a pique das acções do BES. Em duas sessões, a desvalorização superou os 65%, até que, a 1 de Agosto, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários suspendeu os títulos uma hora antes do encerramento da sessão, para nunca mais voltarem a negociar. A queda na bolsa, para um mínimo de 0,10 euros, precipitaria o anúncio de uma intervenção, logo no fim-de-semana seguinte.

Apesar das notícias sobre a situação financeira do banco terem começado a acentuar-se no início do ano, Sandra garante que só sentiu que algo estava a correr mal no dia em que o regulador do mercado de capitais a suspendeu as acções. Nessa altura tornou-se evidente que seria inevitável uma solução externa. À pergunta se não se apercebeu da pressão do BdP para que o BES fosse separado dos restantes negócios da família Espírito Santo, ainda em finais de 2013, responde que os funcionários não deram por nada. E as divergências entre Ricardo Salgado e o primo José Maria Ricciardi, foram lidas como “uma mera disputa de poder”.

O prejuízo de 2013, de 517 milhões de euros, divulgado em Fevereiro passado, também não fez soar campainhas de alarme nos trabalhadores, garante. Sandra explica com o facto de o banco ter uma forte presença no exterior. “Bastaria uma ou duas operações para anular esse prejuízo”, assegura. O aumento de capital de capital de 1.045 milhões de euros, anunciado em Maio, com um desconto de 34% face ao preço das acções, também não levantou dúvidas. Questionada sobre se houve alguma pressão superior para colocar o aumento de capital, a resposta é igualmente um “não”. “Quando tudo se precipitou foi uma surpresa”, garante. 

Banco bom, banco mau

Nas horas que precederam a comunicação do governador do BdP, a 3 de Agosto, Sandra diz que “não estava muito ansiosa”, mas depois admite que tudo se alterou. “O que mais ressaltou [da comunicação do Governador] foi que deixava de existir um banco e passaria a existir outro, que teria um nome supostamente de Novo Banco. Daquilo que me recordo, naquele dia não era certo o nome que iria ficar”, relata a bancária de 38 anos e licenciada em Direito.

Acto imediato: “Ligar para o gerente, que tem muito mais experiência de banca do que eu e tentar perceber o que era aquilo”. Em resposta, o gerente admitiu que, no dia seguinte, segunda-feira, quando Sandra começava a trabalhar, iria haver “situações um bocadinho complicadas”. Mas manifestou alguma esperança de que a situação se tornasse mais clara nas horas seguintes. “O governador fez o comunicado, mas de certeza que vai haver movimentações durante a noite”, disse, na conversa com Sandra.

A 4 de Agosto, o primeiro dia do Novo banco, Sandra, que tem um filho de três anos, levantou-se um pouco mais cedo porque “queria chegar ao banco por voltas das 8h, meia hora antes do que era habitual”. Logo pela manhã, ao contrário do que seria normal mas que se tornou uma rotina nas manhãs seguintes, ligou a televisão para perceber se tinha havido desenvolvimentos sobre a situação do banco.

Já no trabalho, “o briefing habitual foi centrado em tentar perceber qual é a notícia e no que se iria dizer ao cliente”, que era a “grande preocupação”, conta a funcionária. E o afluxo de clientes aos balcões no primeiro dia do Novo banco foi maior. “Não houve uma enchente, pessoas em fila à porta, mas houve muito mais gente ao longo desse dia e ao longo dos dias seguintes. E houve clientes que queriam levantar o seu dinheiro e levantaram-no, mas alguns dos que saíram já regressaram”, assegura.

Nas primeiras semanas de Agosto, os clientes que se dirigiam aos balcões, mas também por telefone e por e-mail, queriam perceber se estavam no banco bom ou no banco mau. E se todas as suas aplicações estavam no banco bom e se os meios de movimentação, como os cartões de multibanco do BES, funcionavam e poderiam continuar a ser usados. “E para estas dúvidas nós tínhamos resposta, porque das palavras do governador percebemos que, se todas as estruturas transitaram para o Novo Banco, também os clientes e os seus produtos transitaram”, afirma Sandra.

“A esse nível, a nossa situação [dos funcionários] foi facilitada, porque mesmo os clientes que tinham aplicações, depósitos a prazo e acções, mesmo de títulos que ficaram cotados a zero, passaram a ser clientes do Novo Banco. Não houve um único cliente que tenha ficado na gestão do BES”, acrescenta. A formação dada ao longo dos anos, mérito do banco, inclusiva para atendimento de pessoas da terceira idade, revelou-se de grande utilidade nesta fase, refere.

Mas as dúvidas mudaram quando chegou a última semana de Agosto e os primeiros dias de Setembro, recorda a funcionária, explicando que os clientes começaram a preocupar-se com o tipo de aplicações que tinham. “Queriam saber se podiam movimentá-las ou não. E algumas não podiam ser movimentadas, pela simples razão de que passar de um banco para outro tem questões legais inerentes. E aqui as notícias ­– que devem ser dadas se forem bem dadas – deixavam os clientes muito confusos”, assegura. “Tive clientes que esperaram pelo meu regresso de férias para me perguntarem “o que é que eles [jornalistas] diziam”. 

Esclarecer os clientes

Após a intervenção, o acompanhamento das notícias passou a ser uma preocupação na vida de Sandra, sempre na perspectiva de, a partir daí, perceber e poder esclarecer as dúvidas dos clientes. “Tínhamos de ouvir as calamidades que alguns jornalistas diziam para perceber o que é que os clientes nos perguntavam”, recorda, referindo ainda que uma notícia não chega da mesma forma a clientes com 30 ou com 60 e 70 anos. E revela que, para o esclarecimento dos clientes, foi importante o reforço do serviço interno de actualização das principais notícias sobre o banco.

A par das notícias divulgadas pela comunicação social, a falta de respostas, por parte do BdP, sobre a situação concreta de vários produtos financeiros [como aplicações em papel comercial e obrigações], foi uma das situações que colocou maior pressão sobre os funcionários. “Quando um cliente me perguntava se podia mobilizar um produto que era um daqueles que o BdP disse que tinha de aguardar pelo pagamento, eu dizia-lhe que não. Mas se de seguida me perguntava quando é que podia ser pago, eu não tinha resposta. Isso angustiava-me mais”, explica a funcionária.

À pergunta se a medida de resolução lhe gerou algum receio de perda de emprego, Sandra responde com um categórico “não”. Explica que “não fazia sentido que a seguir a uma medida de resolução começassem a reestruturar pessoas. E porque a mais-valia do banco somos nós”, frisa. E acrescenta que, “independentemente do que alguém possa ter feito de má gestão ou não, porque isso caberá às entidades esclarecerem, não podemos esquecer que houve 20 anos de gestão que nos deram algumas mais-valias, tanto mais que é reconhecido na praça pública que nós somos, tecnicamente, os bancários mais bem preparados, também para estas situações. Isso demonstra-se, porque, em termos de relatórios de qualidade, mesmo passando por tudo o que passou, o Novo Banco está a manter os mesmos padrões”.

O cenário de venda do Novo Banco, uma condição prevista no Fundo de Resolução, que injectou 4,9 mil milhões de euros na instituição, também não preocupa esta bancária. “Estamos numa fase de criação de valor para o banco e estamos a conseguir. A minha preocupação continua a ser o cliente. Alguns clientes perguntam a quem vamos ser vendidos e continuam a estar um bocadinho intranquilos com isso. O que nós queremos ver é a situação fechada”, diz.

E mesmo acreditando que essa operação vai implicar reestruturações, Sandra mantém um discurso optimista. “Qualquer banco faz reestruturações. Temos neste momento um BPI que pela situação de Angola tem uns rácios inferiores a um banco que foi criado a 4 de Agosto. Eu se fosse colaboradora do BPI neste momento estaria mais preocupada. Nós sabemos e pelas ofertas que aparecem que, se calhar, quem nos vai adquirir vai precisar de nós”. Mas vai admitindo que “há pessoas que lidam melhor que outras a estas situações”.

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