Eleições na zona euro aumentam incerteza nos mercados da dívida

E se Marine Le Pen ganhar? A pergunta está a ser feita com mais frequência nos mercados e Portugal é um dos países prejudicados.

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Marine Le Pen defende uma saída da França do euro EPA/ARNOLD JEROCKI

A expectativa de mudanças radicais na política económica nos Estados Unidos e a possibilidade de ocorrência de vitórias eleitorais de candidatos anti-euro durante os próximos meses na Europa colocaram, durante esta semana, os mercados financeiros da zona euro num clima de permanente incerteza. Um cenário que é especialmente preocupante para os países com mais dificuldades em aceder a financiamento externo, como Portugal.

Durante as últimas 48 horas, os principais sinais de nervosismo surgiram do desempenho do euro face às restantes divisas mundiais e da evolução das taxas de juro da dívida pública dos países da moeda única.

Esta terça-feira, o euro prolongou para cinco o número de sessões consecutivas em que perdeu terreno face ao dólar, invertendo por completo a tendência de apreciação que se tinha registado no final do mês de Janeiro. Em simultâneo, países como a França, Itália e Espanha, para além de Portugal, viram as suas taxas de juro da dívida registar um aumento do diferencial face à dívida alemã, aquela que é vista como mais segura pelos investidores.

A causa mais recente para estes resultados é, de acordo com a generalidade dos analistas, a aproximação de diversas eleições cruciais em países da zona euro e, em particular, o facto de nesta altura não se poder excluir por completo um cenário em que um candidato anti-euro vença eleições e assuma o poder.

A França, o segundo maior país da zona euro, é o foco da maior parte das atenções. Qualquer sinal, mesmo que pequeno, de que Marine Le Pen possa ter hipóteses de chegar à presidência do país com um programa que inclui a saída do euro tem tido como resposta dos mercados uma depreciação da divisa e um alargamento dos diferenciais de taxas de juro dos países do Sul da Europa face à Alemanha.

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Foi o que aconteceu desde o passado fim-de-semana, com as dificuldades sentidas por François Fillon para afastar a polémica em torno do emprego que deu à sua mulher e que o fizeram perder, de um dia para o outro, o estatuto de favorito nas eleições presidenciais. Embora as sondagens não apontem para a sua vitória final, a descida de Fillon mostra que a candidata da Frente Nacional, Marine Le Pen, ainda está na corrida.

O diferencial entre as taxas de juro da dívida a 10 anos da Alemanha e da França, que no arranque da semana passada eram inferiores a meio ponto percentual, estão agora nos 0,725 pontos.

Portugal, tal como a Espanha ou a Itália, acompanharam a França neste agravamento dos spreads, com a taxa de juro da dívida a 10 anos já na casa dos 4,2% e com o diferencial face aos juros alemães a situar-se um pouco acima dos 3,82%, quando no início da semana era de 3,6%.

Para Portugal este factor de incerteza global em relação ao que as eleições na Europa podem significar para o projecto do euro, vem agravar um cenário que já não tinha nada de confortável. As taxas de juro da dívida portuguesa têm vindo a registar uma trajectória ascendente desde que se tornou claro que o Banco Central Europeu não pretende mudar as suas regras para permitir que as compras de dívida pública portuguesa se mantenham ao mesmo nível nos próximos meses.

Para evitar que os limites de dívida portuguesa que pode ter no seu balanço não sejam violados, a entidade liderada por Mario Draghi tem vindo a reduzir progressivamente o seu nível de compras mensais, que no passado mês de Janeiro atingiu um novo mínimo desde que está em vigor a última versão do programa de compras de activos do banco central.

Em relação à evolução do euro, há outros factores, com efeitos contraditórios, que é preciso também levar em equação. Se o facto de um país como a França poder equacionar a saída da moeda única é motivo para a depreciação da divisa, também é preciso não esquecer que a Administração Trump tem dado sinais de não estar satisfeita com uma política de dólar forte que retira competitividade à economia.

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