Sócrates força demissão de Campos e Cunha

As dúvidas do ex-ministro das Finanças sobre os investimentos públicos levaram Sócrates a decidir-se pelo seu afastamento. O artigo escrito no PÚBLICO do passado domingo foi considerado um acto de falta de solidariedade com o resto do Governo, ao pôr em causa projectos como a Ota e o TGV. Teixeira dos Santos é o novo ministro de Estado e das Finanças.

O artigo escrito no PÚBLICO no passado domingo está na origem do afastamento de Luís Campos e Cunha do Governo. As dúvidas do ex-ministro sobre projectos como a Ota e o TGV, aliás repetidas na terça-feira no Parlamento, levaram José Sócrates a decidir-se a suster as divisões no Executivo, provocando o pedido de demissão de Campos e Cunha.
O ex-ministro das Finanças, Campos e Cunha, pediu, assim, a demissão invocando "razões pessoais, familiares e cansaço", segundo afirmou o próprio ao PÚBLICO. Campos e Cunha referiu que tenciona regressar à docência na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, "depois de umas férias fora de Portugal".
Segundo soube o PÚBLICO, a contradição entre o ministro das Finanças - que colocava dúvidas sobre o investimento público, nomeadamente a Ota e o TGV - e os ministros das Obras Públicas e da Economia, empenhados agora em dinamizar o investimento, está na origem da decisão de substituição de Luís Campos e Cunha. Ainda na terça-feira, no Parlamento, o ministro tinha-se recusado, perante a oposição, a manifestar a sua opinião sobre os projectos do novo aeroporto da Ota e o TGV, alegando que ainda teriam de ser analisados.
Ontem, confrontado com esta contradição com o seu discurso, Mário Lino tentou minimizá-la perante a oposição, mas afirmou: "Ou queremos assumir o risco, ou não fazemos nada. O sector dos transportes é estratégico. Uma posição de não aceitação desta visão colocaria Portugal numa posição subalterna; configuraria a Península Ibérica com apenas um grande pólo [Madrid] e deixaria Portugal numa posição de apêndice".
A substituição foi rápida: perto das 19 horas, o ministro das Finanças começa a reunião com o primeiro-ministro. Pouco depois das 21 horas, sai o comunicado oficial anunciando que José Sócrates tinha pedido ao Presidente da República "a exoneração, a seu pedido" de Campos e Cunha e a sua substituição por Fernando Teixeira dos Santos, ex-secretário de Estado do Orçamento de Sousa Franco. As razões oficiais invocadas foram as de "cansaço", "pessoais" e "familiares". A posse do novo ministro das Finanças foi marcada para hoje ao meio-dia.
O ex-ministro das Finanças já tinha sido alvo de intensa polémica quando, antes da tomada de posse do Governo, tinha admitido a possibilidade do aumento de impostos, numa altura em que o primeiro-ministro se empenhava em desmenti-la. Foi depois dessas declarações de Campos e Cunha à TSF que José Sócrates propôs a famosa "regra do silêncio" aos membros do Executivo. Já recentemente, Campos e Cunha esteve novamente no centro das atenções quando se soube que - com Mário Lino, precisamente - era um dos membros do Governo que acumulava reformas com o vencimento de ministro, numa altura em que o primeiro-ministro fazia discursos apoteóticos contra as reformas dos deputados e titulares de cargos políticos.
Mas, também ontem foi referido, nessa altura José Sócrates esteve totalmente ao lado de Campos e Cunha, tendo vindo a público defendê-lo - um acto de "solidariedade" que é apontado em círculos governamentais como contrastante com os actos de "falta de solidariedade" com os esforços dos ministros da Economia, Manuel Pinho e das Obras Públicas, Mário Lino, empenhados em "reanimar a economia" e mostrar que "há vida para além do défice".
Mas Augusto Mateus, ex-ministro da Economia do Governo Guterres, considera, em declarações ao PÚBLICO, que "a exoneração de Campos e Cunha] é o embate entre uma visão política errada e uma visão técnica pouco suportada politicamente": "Alguém a sair não era o ministro das Finanças", defende.
O poder de levar por diante o ajustamento das contas públicas, segundo Mateus, "foi razoavelmente diminuído nas áreas que não dependem do ministro das Finanças, e esta situação de se anunciar todos os dias milhões sem nexo orienta mal as pessoas no que é preciso fazer". Mateus sustenta que "pôr a economia a crescer pressupõe que não haja ilusões de despesa pública" e "o sector público não é um motor de desenvolvimento, é quando muito de endividamento".

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