Bernardo Silva, um emigrante à força com um talento invulgar

Sem espaço no Benfica, o médio criativo arriscou o salto para França. Em três épocas, somou jogos e admiração. E continua fiel ao futebol da infância.

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Lee Smith

Pep Guardiola: "Bernardo Silva é fantástico". Fabinho: "É tremendo com a bola nos pés e apresenta uma enorme confiança para alguém tão jovem". Deco: "Tem um futuro fantástico pela frente e tudo para ser um jogador de top mundial". Treinadores de renome, colegas de equipa, antigas glórias do futebol, é fácil encontrar quem aponte elogios na direcção do médio que nesta sexta-feira trocou o Mónaco pelo Manchester City. Um jogador cuja classe se tornou evidente nas camadas jovens do Benfica, mas que teve de deixar Portugal para se exprimir num palco à sua medida.

Velocidade em condução, uma elevada capacidade de ler o jogo, uma qualidade tremenda no momento da decisão (passe ou remate). Foram estes alguns dos atributos que lançaram Bernardo Silva para o estrelato, tornando-se em três anos numa peça imprescindível no "onze" do Mónaco e num jogador de talento invulgar, que se deu a conhecer ao mundo no Campeonato da Europa de Sub-21, em 2015, na República Checa.

Nesse torneio, Bernardo transportou para dentro do campo o que há muito havia demonstrado na equipa B do Benfica, na qual desempenhava um papel de relevo. Era um futebol ainda com resquícios do futebol de rua, mas já com a noção exacta dos princípios de jogo que o haveriam de impulsionar para outros voos. Recolheu um par de distinções de melhor em campo no Europeu em que Portugal chegaria à final e foi-se tornando num jogador cada vez mais completo. 

"Sempre adorei jogar futebol. Recordo-me de jogar bastante nas traseiras da casa dos meus avós e com os meus amigos na escola. Desde que me lembro, o futebol sempre fez parte da minha vida", recordava Bernardo Silva em 2015, em declarações ao site da UEFA. Hoje com 22 anos, o médio criativo admite que há traços do seu futebol que perduram. "Penso que muitas coisas dessa altura permanecem comigo. Tento jogar futebol exactamente da mesma forma que aprendi quando era miúdo. Claro que agora a responsabilidade é completamente diferente, mas penso que os jogadores devem jogar com a mesma alegria do que quando éramos apenas nós, uma bola e a rua".

É o regresso da modalidade ao estado puro. E é muito desse romantismo que vive o futebol de Bernardo, feito de arrancadas repentinas, de dribles curtos e do aproveitamento de espaços que o adversário ainda nem se apercebeu que libertou. Um manancial de qualidades que, ainda assim, não foi suficiente para convencer a equipa técnica do Benfica, que em 2013-14 lhe reservou apenas três jogos (8 minutos na Liga, uma partida na Taça da Liga e outra na Taça de Portugal), numa altura em que outros jovens da formação tinham tido já mais oportunidades.

Numa entrevista ao jornal francês L'Équipe, o jogador abriu o coração acerca das razões que terão conduzido ao seu desaproveitamento na Luz. "Fiz três jogos, mas sempre a entrar nos últimos cinco minutos. Treinava com a equipa principal, mas como lateral esquerdo. Percebi que não tinha futuro naquela equipa", assumiu, lembrando que todo o seu percurso tinha sido feito como médio ofensivo. "Era a primeira vez que treinava regularmente como lateral esquerdo. Foi a primeira pré-temporada no Benfica e, quando somos colocados numa posição que não é a nossa, tudo fica mais complicado".

A carreira de Bernardo começou a descomplicar-se depois de rumar ao Mónaco, numa transferência a troco de 15,75 milhões de euros. Em 2014-15, o seu índice de utilização disparou, tendo participado em 45 jogos, tendência que se manteve nas temporadas seguintes (44 em 2015-16 e 58 na época que agora terminou). A estes números, juntam-se 28 golos marcados e dezenas de assistências - um dos seus pontos fortes.

Nesse particular, tem também alguns pontos de contacto com um dos seus ídolos. "O meu jogador favorito? Talvez Rui Costa, porque representou o Benfica. Foi um símbolo do Benfica e da selecção durante muitos anos. Por isso sim, diria que foi o meu jogador português favorito. A nível internacional, escolheria [Zinédine] Zidane. Para mim, ele foi o melhor jogador do mundo durante a minha infância", confessou.

E se o médio criativo (que parte muitas vezes da ala para dentro) nascido em Lisboa em 1994 não tem problemas em pronunciar-se sobre as referências que ainda conserva, o mesmo poderá dizer-se em relação aos seus próprios predicados. Qual o seu melhor atributo? "Talvez a minha capacidade para tomar as decisões certas em campo. Tento sempre tomar a decisão mais inteligente quando estou a jogar, seja a altura de aumentar ou diminuir o ritmo de jogo, de atacar ou de atrasar a bola para permitir à equipa reorganizar-se". Virtudes que não passaram despercebidas a Pep Guardiola.

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