O que foi feito dos poetas revelados nos anos 80 pelos Anuários de Poesia da Assírio?

Trinta anos depois de ter lançado o primeiro Anuário de Poesia , a Assírio & Alvim vai relançar o projecto que revelou Adília Lopes. E muitos que não seriam poetas...

O que é que têm em comum a poetisa Adília Lopes, o historiador e ex-secretário de Estado da Educação Jorge Miguel Pedreira, o cantor lírico Jorge Vaz de Carvalho, o encenador e ex-director do Teatro da Guarda, Américo Rodrigues, o ilustrador e fotógrafo Jorge Colombo, a poeta e editora Maria do Rosário Pedreira, o historiador de arte Joaquim Caetano, a realizadora Joana Pontes ou o romancista José Eduardo Agualusa? A resposta é que, há 30 anos, todos eles escreviam poemas, e suficientemente bons para terem sido seleccionados pelos júris dos Anuários de Poesia de autores não publicados que a Assírio & Alvim publicou entre 1984 e 1987.

A editora anunciou agora que vai recuperar a iniciativa e que o próximo Anuário será lançado em 2015, assinalando, a 21 de Março, o dia mundial da poesia. Quem tiver poemas na gaveta, pode já enviá-los (num máximo de dez) para o endereço electrónico anuário@assirio.pt, juntamente com os seus contactos e com uma breve apresentação.

A Assírio & Alvim, que integra hoje o grupo Porto Editora, já anunciou também o júri do Anuário de Poesia de 2015, que será composto pelo romancista Almeida Faria, pelos poetas Armando Silva Carvalho e Golgona Anghel, e pelos editores Manuel Alberto Valente (também ele poeta) e Vasco David.

É difícil prever o sucesso que poderão ter hoje estes anuários, mas o impacto que tiveram há 30 anos foi considerável. Para se ter uma ideia, ao primeiro Anuário, de 1984, concorreram 918 autores, que enviaram 7200 poemas. O júri, composto por poetas diferentes gerações – José Bento, José Agostinho Baptista e Fernando Luís – acabou por escolher 83 autores, cada um deles representado com um máximo de três poemas, como previa o regulamento.

Esta mobilização em massa de potenciais poetas ficou a dever-se, antes de mais, à aura da Assírio & Alvim como chancela de poesia. Nesses meados dos anos 80, ter dois ou três poemas num volume da editora dirigida por Hermínio Monteiro, onde publicavam Mário Cesariny e Herberto Helder, era provavelmente mais prestigiante do que ter um livro publicado em edição de autor ou numa editora pouco reconhecida.  

O poeta e tradutor José Bento, júri dos anuários de 1984 e 1985, lembra-se da enorme quantidade de poemas que teve de ler e diz que “aparecia de tudo: das coisas mais convencionais, no estilo passarinhos ou fonte da aldeia, às coisas mais descabeladas, imitadas de Cesariny e de outros poetas”. Mas acha que valeu a pena e que se justifica retomar o projecto, já que “haverá quem não arranje editor, ou não tenha ainda material suficiente para um livro”.

Quilos de poemas
Com vinte e poucos anos em 1984, Fernando Luís Sampaio tinha tido no ano anterior uma fulgurante estreia poética com o seu livro Conspirador Celeste, e terá sido por isso que foi convidado a integrar o júri do primeiro Anuário. “Cheguei a levar para casa sacos plásticos carregados de poemas, e não eram um ou dois”, lembra o poeta e ex-director do Instituto das Artes: “no júri, já nos ríamos, perguntávamos uns aos outros: ‘quantos quilos de poemas já leste?’”. Mas a galhofa não os impedia de levar a tarefa a sério. “Tínhamos discussões vivíssimas”, garante.

Reconhecendo que os poemas recebidos eram, na sua maioria, “muito maus”, Fernando Luís Sampaio sublinha que apareceram, ainda assim, “alguns bons poetas, que depois continuaram, uns com mais visibilidade do que outros”. O exemplo que logo lhe ocorre é o de Adília Lopes, cujos primeiros poemas surgem já nesse Anuário inaugural, de 1984. Logo no ano seguinte, a autora edita o seu notável livro de estreia, Um Jogo Bastante Perigoso, e em 1987, com vários outros títulos entretanto publicados, é convidada a integrar o júri do quarto e último Anuário de Poesia, ao lado de Fiama Hasse Pais Brandão e João Rui de Sousa.

Dado que os autores dos anuários estão organizados por ordem alfabética do primeiro nome, Adília Lopes só não aparece a abrir o de 1984 porque a precede, com dois poemas, um autor que se identificou apenas com o pseudónimo Abrupto. Um adjectivo que, vinte anos mais tarde, viria a ser usado, como se sabe, para baptizar um dos mais influentes blogues da blogosfera portuguesa: o Abrupto de José Pacheco Pereira, ainda hoje activo.

Como a esta curiosa coincidência se somava o facto de o Abrupto do Anuário ter a mesma idade de Pacheco Pereira, e ainda a circunstância de um dos poemas do primeiro, aliás bastante recomendável, se intitular Haikais de Boticas, terra onde o segundo deu aulas após o 25 de Abril, o autor destas linhas achou que se justificava tirar a coisa a limpo. Em rigor, não se pode dizer que o tenha conseguido,  já que Pacheco Pereira respondeu com o clássico “não confirmo nem desminto”. Mas a pergunta pareceu diverti-lo, indício que o leitor interpretará como lhe aprouver.

Não menos divertido mostrou-se o historiador de arte, e ex-director do Museu de Évora, Joaquim Caetano, que integra actualmente a equipa do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA). “Não estou em condições de negar”, respondeu, quando lhe foi pedido que confirmasse ser ele o Joaquim Oliveira Caetano representado com vários poemas nos anuários de 1984 e 1985. De resto, a tratar-se de um homónimo nascido no mesmo ano, teria de ser uma sua desconhecida alma gémea, já que um dos poemas seleccionados para o Anuário de 1985 é uma homenagem ao S. Sebastião do pintor renascentista Gregório Lopes, obra conservada precisamente no MNAA.

Se vários autores representados nestes anuários publicaram depois livros de poesia, e alguns são hoje poetas conhecidos, são também muitos os que, como Pacheco Pereira e Joaquim Caetano, vieram a notabilizar-se noutros domínios. Por exemplo, o historiador, sociólogo e ex-secretário de Estado Adjunto e da Educação Jorge Pedreira. “Continuo a escrever poemas de vez em quando, mas não voltei a publicar”, diz. Está representado no Anuário de 1984 ao lado da sua irmã, a poeta e editora Maria do Rosário Pedreira, que usava na altura o pseudónimo Maria Helena Salgado, com o qual ainda venceu, em 1988, a primeira edição do prémio de poesia Sebastião da Gama.

A poetisa alentejana
Embora tenha vários livros de poesia publicados, também Américo Rodrigues, um dos poucos autores com poemas em todos os anuários, é hoje provavelmente menos conhecido como poeta do que enquanto encenador, actor, dramaturgo e ex-director do Teatro da Guarda. Recordando o entusiasmo com que, há 30 anos, se viu publicado no primeiro Anuário da Assírio & Alvim, confessa: “andei nos cafés a distribuir fotocópias”. Curiosamente, entre os que fazem o pleno dos quatro anuários há um outro encenador, João de Melo Alvim, que dirige hoje a companhia Chão de Oliva, em Sintra. E o dramaturgo e crítico Carlos Porto (1930-2008) colabora no de 1984.

Também a área das artes plásticas, entre artistas, críticos e curadores, não está mal representada. O ilustrador e fotógrafo Jorge Colombo surge logo no Anuário de 1984, tal como o crítico de arte João Pinharanda ou o director do Museu de Arte Contemporânea do Funchal, José Manuel de Sainz-Trueva. Já o arquitecto e pintor Vasco Câmara Pestana, que publicará em 1988, o livro de poemas Cadernos do Interior, tem poemas  nos quatro anuários.

No domínio do cinema, é de presumir (mas não foi possível confirmar) que o Manuel Augusto F. de Los Mozos dos anuários de 1984 e 1985 seja o cineasta Manuel Mozos. E a Joana Pontes que participa no de 1984 é mesmo a realizadora homónima, autora de um filme sobre Jorge de Sena e de vários outros documentários. Surge no anuário como sendo de Porto Covo, porque “tinha lá um namorado na altura”, explica, e enviou de lá os poemas. O curioso é o que se passou a seguir, e que mostra bem o impacto que esta iniciativa da Assírio tinha na época: “Quando saiu o Anuário, o Diário do Alentejo publicou uma notícia a dizer que tinha surgido uma nova poetisa alentejana”.

O poeta, ensaísta, tradutor e cantor lírico Jorge Vaz de Carvalho ou a olissipógrafa Marina Tavares Dias são outras figuras públicas cujos poemas foram seleccionados para os anuários. Menos conhecido da generalidade dos portugueses, até porque trabalha em Bruxelas desde meados dos anos 80, Jorge Bento Silva, do Anuário de 1984, é um alto quadro comunitário que se vem dedicando há quase 30 anos a actividades bastante pouco líricas, relacionadas com a segurança interna e a luta contra o terrorismo.

Mas não se vá pensar que entre os quase 300 autores que os anuários divulgaram, havia de tudo menos futuros poetas. Com resultados naturalmente desiguais, quer na extensão das futuras bibliografias, quer no reconhecimento crítico que vieram a obter, há dezenas de poetas que passaram por estas antologias dos anos 80. E também alguns que, tendo publicado poesia, são mais conhecidos pelo que fizeram noutros géneros literários ou no ensaísmo, como o romancistas José Eduardo Agualusa, a pessoana Manuela Parreira da Silva, a ensaísta e tradutora Maria Teresa Dias Furtado, ou ainda o autor de literatura juvenil e crítico José António Gomes, que usa também o pseudónimo João Pedro Mésseder.

Entre aqueles que são hoje sobretudo conhecidos como poetas, os nomes que mais se destacam são talvez José Alberto Oliveira, Daniel Maia-Pinto Rodrigues e Luís Filipe Parrado. Mas podem acrescentar-se, com desculpas aos muitos que ficarão por nomear, Alberto Marques (pseudónimo de Nuno Figueiredo), Antero de Alda, António Ladeira, Fernando Eduardo Carita, que morreu em 2013, Inês Sarre, João Tomaz Parreira, Joaquim Luís Alves, Jorge A. Maximino, Manuel Afonso Costa, Maria Azenha, Moisés Belo Gama, Nicolau Saião, Teresa M. G. Jardim ou Raul Simões Pinto, também autor de livros sobre (respectivamente) as tascas e as putas do Porto.

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