“Não faço roupa para esconder as pessoas”

Pedro Pedro desenha peças para mulheres descontraídas, mas também usáveis por homens. A crescer internacionalmente, gostava de trabalhar “numa grande casa de moda”.

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Pedro Pedro criou a sua marca em 1998 Rui Gaudêncio
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Além de desenhar roupa, Pedro Pedro conta histórias. A comunicação não-verbal do vestuário, dos cabelos, da maquilhagem ou a atitude das modelos que as mostram é o que distingue a sua marca “casual urbana, muito descontraída”. “É claro que as peças têm de ter um valor acrescentado, têm de ser vestíveis, ter o meu cunho. Mas acima de tudo sou um contador de histórias”, define-se ao PÚBLICO no dia do desfile de Verão no  39.º Portugal Fashion, no Pavilhão de Portugal, em Lisboa.

Pedro Pedro criou a sua marca em 1998. Fez uma pausa em 2004 para investir na marca Pedro Waterland, com Júlio Waterland, e retomou a etiqueta Pedro Pedro em 2008, na ModaLisboa. “É superdifícil ser-se designer numa altura de crise económica. Faz-nos pensar em alternativas e fazer coisas que se estivesse tudo a correr bem, não faríamos. Sou bastante flexível. Estou a fazer coisas na área, desde styling até catálogos, a trabalhar com empresas de sapatos”, enumera.

O sportswear e as peças confortáveis, como os casacos aconchegantes de Inverno, são o seu ex-líbris. Cria roupa “que se possa usar sempre” e não apenas numa estação. “Não faço roupa para esconder as pessoas ou para se sobrepor à sua individualidade. Tento que as valorize”, afirma sobre as suas colecções, onde o preço médio de uma peça é 150 euros e que sendo para mulher, não estão restritas a um género. “Faço isto há quase 20 anos e nunca me apeteceu usar uma coisa minha. E, de repente, comecei a fazer casacos bomber e já tenho um ou dois. Há sempre um lado masculino, não é preciso ser propositadamente uma colecção de homem.”

Falamos da sua colecção para o Verão – “mais experimental” do que as anteriores – e fora das quatro paredes do showroom em Lisboa cai a primeira grande chuva depois dos meses quentes. A indústria de moda internacional questiona-se sobre a sazonalidade das peças, num mundo global, e o novo modelo de apresentação “veja agora-compre agora” impõe-se com grandes casas como a britânica Burberry ou o português Nuno Baltazar. Pedro Pedro tem feito “alguma introspecção” e admite uma possível mudança, embora a presença em feiras internacionais, como a White em Milão, o limite. “As feiras continuam com estações. Teria de desdobrar esforços em termos financeiros.” Mas “é sempre Verão em algum lado, é sempre Inverno em algum lado” e, também por isso, na nova colecção Dune tem tricot desfiado e veludo amarelo, inspirado nas cortinas vermelhas em veludo de Twin Peaks, de David Lynch.

Esta estação, trocou a apresentação semestral na ModaLisboa pelo Portugal Fashion, evento ao qual regressou em 2015 e que lhe dá uma presença em showroom desde Fevereiro e no calendário de desfiles paralelos da Semana de Moda de Milão desde Setembro. A mudança “permite que a marca vá por outro caminho”, o da internacionalização, que contacte com vários mercados e compradores, fazer pré-vendas. Ainda assim, a sua apresentação é em Lisboa, no primeiro dia do Portugal Fashion. “As pessoas que me compram estão em Lisboa”, diz.

Nos objectivos, a curto e médio prazo, está à procura de agentes de compras que o representem e o levem a outros países e de uma loja em Lisboa. “Tenho a certeza que seria um investimento seguro, mas não deixa de ser um investimento e precisa de algum planeamento.”

Designer e contador de histórias, reforça várias vezes, é muito visual. A sua colecção para este Inverno, pendurada na sala da agência que o representa e vende as suas peças na capital, questionava se uma imagem continuava a valer mil palavras quando vivemos asfixiados pelas imagens. Apesar disso, a indústria é “também muito uniformizada”, diz, com inspirações transversais aos desfiles de Nova Iorque, Londres ou Milão. “Já está tudo inventado. A grande revolução é a tecnológica, é a dos tecidos, dos materiais. Se são resistentes ao calor, se mudam de cor conforme o ambiente.”

“Faço bem com pouco”, diz, mas “se tivesse mais recursos se calhar seria diferente”. Aos 43 anos, com 18 de marca própria, o que lhe falta fazer? “Trabalhar para uma grande casa de moda. Gostava de ter essa experiência e perceber como funciona lá fora.”

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