Mecenato, crowdfunding e Estado

A campanha Vamos Pôr o Sequeira no Lugar Certo, iniciativa do Museu Nacional de Arte Antiga, tendo como parceiros o PÚBLICO, a agência de publicidade Fuel, a RTP e a Fundação Millennium BCP, visando recolher fundos para adquirir para o MNAA por 600.000€ o quadro A Adoração dos Magos de Domingos Sequeira, é iniciativa inédita em Portugal, cujo impacto e importância estão mesmo para além daquele específico objectivo. O que está também em causa é saber se na sociedade portuguesa há capacidade de mecenato e deste tipo de campanhas públicas de angariação, ditas de crowdfunding. É que a “cultura do mecenato” é ainda insuficiente num país habituado a que esses assuntos sejam função do Estado e em particular do Estado central. Suscita esta constatação uma questão estrutural: há em Portugal notórias insuficiências da acção estatal, designadamente em sectores básicos, mas há também “Estado a mais” no apelo reiterado ao seu manto protector. Basta constatar como mesmo no capitalismo nacional se clama pelo “mercado livre” mas sempre que há problemas logo se reivindica o apoio ou isenções estatais.

A este dado acrescem outros no sector cultural, em particular a de entender se ao Estado compete apenas a preservação patrimonial ou também o apoio à criação garantido a diversidade, numa clivagem que corresponde à dicotomia política estabelecida de direita/esquerda.

Ora, seja no entendimento patrimonial conservador seja na actividade dos agentes artísticos entre os quais o discurso público é a reclamação do apoio estatal, não se devem menosprezar as tentativas de apoio mecenático e da sociedade civil. Já existem em Portugal empresas e instituições que são mecenas importantes, o BPI, a Fundação EDP, a Sonae, mesmo a Caixa Geral de Depósitos ou a Fundação BCP. Sem algumas destas e muitas outras não haveria o sucesso do modelo fundacional de parceria público/privado, como Serralves e a Casa da Música. Sem esses mecenas, mas também sem a dotação estatal: as duas modalidades não devem ser polos antagónicos mas sim complementares.

Mas há outra questão, a do apoio mecenático ser também um modo de patrocínio público assinalado em ciclos, exposições ou outras iniciativas. Quer isso dizer que no tocante aos mecenas de maior relevo há a contrapartida de virem expressamente mencionadas.

É esta outra cultura ou mentalidade que explica o lapso chocante que há na campanha Vamos Pôr o Sequeira no Lugar Certo, com apenas 35.000€ recolhidos em entidades empresariais, a ANA e a Fundação EDP. Tem havido coisas extraordinárias, não apenas o contributo de cidadãos que na edição on line do PÚBLICO compram pixéis que correspondem a doações, evidentemente os 200.000€ da Fundação Aga Khan, mas também, simbolicamente, os 370€ reunidos por alunos das escolas da Casa Pia, os 13.000€ obtidos numa festa do Lux ou os contributos das autarquias – com a Junta de Freguesia da Campo de Ourique, em Lisboa, a tomar a iniciativa e a apelar a todas as congéneres, a Câmara Municipal de Cantanhede, que foi a 1ª e não é propriamente um concelho rico, ou os 15.000€ da Câmara do Porto correspondentes aos 2,5% do concelho no todo nacional, montante que, mal-agradecido, o ministro da Cultura disse que “está quiçá aquém do que o Porto merece”. Com mais de 2/3 da verba necessária, a campanha do Sequeira já um sucesso, ponto de viragem, mas também pôs a nu os limites da cultura empresarial de empresas e mantém até agora interrogado o papel do Estado: não se tendo atingido a verba necessária, irá ou não aquele contribuir com o remanescente em falta? Este é um caso de estudo, que inclusive ultrapassa o âmbito da campanha em si.

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