Laurence Cossé: da matéria-prima à literatura

Em La Grande Arche a escritora enfrentou uma série de obstáculos — a espinhosa questão da forma — para tornar um fundo digerível sem diluir a sua riqueza.

Foto

Laurence Cossé nasceu em 1950. A sua obra romanesca é indissociável da questão do poder. Propõe a imersão em milieux particulares e inesperados: a gestão do património no Ministério da Cultura (Le Mobilier National), a entourage do primeiro-ministro de Louis XV (La Femme du Premier Ministre), uma hipotética condutora da Fiat Uno que matou a Princesa Diana e fugiu (Le 31 du Mois d’Août), uma livraria em guerra contra a pressão comercial no mundo da literatura (Au bon roman), uma jovem e iletrada marroquina (Les amandes amères), as altas esferas do poder religioso católico (Le Coin du Voile). Em La Grande Arche, enfrentou uma série de obstáculos — a espinhosa questão da forma — para tornar um fundo digerível sem diluir a sua riqueza.

O que reteve desta incursão num mundo totalmente estranho para si?
Em França, a epopeia do Arco e o trágico destino de [Johan Otto von] Spreckelsen [arquitecto] só eram do conhecimento de um pequeno grupo de profissionais. A minha pesquisa permitiu-me aprender tudo em relação ao desenvolvimento desta história. Foi com espanto que fui encontrando os pormenores, sempre surpreendida por descobrir um caso do “mal francês”, esta mistura de desenvoltura, ideologia, versatilidade, este semblante carregado que constitui o charme francês, o chique, a paixão política, o brio.

O que lhe despertou interesse neste monumento — que tem tendência para ser preterido pelos turistas e pelos franceses — a ponto de lhe dedicar vários meses da sua vida?
Foi o facto de gostar do Arco, da sua originalidade, beleza, e de considerar que representa um golpe de mestre urbanístico. Estas informações resumem tudo o que eu sabia de Spreckelsen: ele saíra do anonimato em 1983, ao ganhar, contra todas as expectativas, o Concurso Internacional de Arquitectura Tête Défense; à glória seguiu-se a morte — ele nunca veria o Arco. Era pouca informação, mas suficientemente forte para criar uma estrutura para um romance e manter-me ocupada durante quatro anos. O Grande Arco não foi preterido pelos franceses, simplesmente consideram-no enigmático. Os turistas deixaram de ter acesso ao topo, em 2010, ano em que o miradouro foi fechado, mas posso apostar que regressarão quando o miradouro voltar a abrir ao público, em 2017.

Consegue transmitir de forma transparente, tornando-os de fácil visualização, elementos arquitectónicos, a visão do espaço, pormenores do fabrico, numa linguagem simples. Houve necessidade de trabalhar essa clareza?
Essa limpidez, que é o mínimo do respeito que devo ao leitor, consegue-se através do trabalho. É necessário traduzir para a língua corrente as expressões especializadas. Os excertos de teor técnico foram validados por profissionais que me são próximos. Não queria que os especialistas dissessem: “nota-se que ela não tem conhecimentos nesta área”. Queria que o leitor menos informado pudesse compreender tudo. A escolha de certas palavras demorou tempo. Dou um exemplo: eu descrevera os pilares de apoio do monumento como não suficientemente “fortes”. Os meus consultores chamaram-me a atenção para o facto de, na área da Física de Materiais, “força” não significar “solidez”. Por isso, substituí forte por “resistente”, termo que poderá ser aceite pelos especialistas e compreendido pelos não-especialistas.

Opta por uma narrativa cronológica.
Obrigada por me questionar sobre a forma. Trata-se de criar, de procurar — senão inventar — formas particulares. Isto é verdade em relação a todo o romance, mas também em relação a cada capítulo, a cada frase. Faço sempre longa reflexão sobre a forma global antes de começar o processo de escrita. Nesse momento, depressa percebi que teria de fazer coexistir uma realidade densa com a aventura espiritual de Spreckelsen, a sua Via-Sacra, esta proximidade entre a glória e a morte — gostaria de que o título do livro tivesse sido Morte de um Arquitecto. Um fio cronológico serpenteia no centro da vibrante realidade sociopolítica dos anos 80, em França. Ademais, permiti-me fazer divagações, pelo prazer, pela fantasia, pela liberdade da escrita, que não tinham por si só lugar na reconstituição de uma caso trágico.

Trata-se de uma narrativa na qual se entrelaçam os planos político, técnico, etológico, sociológico, emocional e artístico. Na fase de preparação, durante as entrevistas, conseguia distinguir estes diferentes aspectos, ou estes apareciam naturalmente?
Nada é “natural” quando se escreve um romance. As coisas são mais ou menos fáceis em função do tema e da ambição do autor. Mencionei a longa reflexão sobre a forma global antes do processo de escrita, mas isto aplica-se a cada parte do texto. O autor pode ter como objectivo a clareza ou o efeito de caos, a misericórdia ou a ira — tudo é possível -, pode querer que as ligações entre as páginas sejam fluidas ou que revelem um contraste brusco, etc. “Sei que posso fazer tudo, mas nem tudo me convém,” disse São Paulo referindo-se ao comportamento humano. É uma frase que devemos ter em consideração quando realizamos um trabalho artístico. Encontrar “o que nos convém” é o desafio, a arte. Não, nunca abordava sucessivamente os planos político, técnico, etológico, emocional, artístico. Gravava tudo e fazia a transcrição integral. “A posteriori”, reagrupava, organizava os elementos das respostas que me davam, geralmente de forma bastante desordenada, tal como se faz durante uma conversa sem sequência lógica. 

Sugerir correcção
Comentar