“A maior parte dos cantores sabe como cantar, mas não o que dizer”

Waltraud Meier regressa nesta quinta-feira à noite à Gulbenkian para interpretar dois emblemáticos ciclos de Mahler sobre poemas de Friedrich Rückert.

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A notável cantora alemã Waltraud Meier está de regresso a Lisboa dr

Após uma tocante interpretação dos Wesendonck Lieder, de Wagner, na última temporada Gulbenkian, a notável cantora alemã Waltraud Meier está de regresso a Lisboa para dar voz a outro dos seus compositores de eleição: Gustav Mahler. Esta quinta-feira, às 21h, interpretará no Grande Auditório da Av. de Berna os emblemáticos ciclos Kindertotenlieder e Rückert-Lieder com a Orquestra Gulbenkian, sob a direcção do jovem maestro Lorenzo Viotti.

Ao longo da sua carreira, Waltraud Meier distinguiu-se quer em papéis de meio-soprano, quer de soprano dramático, tendo atingido uma enorme notoriedade nesta última categoria. Nascida em Würzburg, iniciou os seus estudos de canto particularmente ao mesmo tempo que cantava em cinco coros distintos! Foi em 1976 que decidiu tornar-se cantora profissional, estreando-se na Ópera de Würzburg, como Lola, na Cavalleria Rusticana, de Mascagni. Começou a ser conhecida nos palcos internacionais no início dos anos 1980, após a sua aclamada estreia no Festival de Bayreuth como Kundry (Parsifal), seguindo-se uma sucessão de interpretações marcantes ao longo dos últimos 40 anos.

Em Lisboa vai interpretar os Kindertotenlieder e os Rückert-Lieder, de Mahler. Qual é a sua visão destas obras?
Os Kindertotenlieder não são apenas um ciclo de canções terrivelmente tristes. Friederich Rückert, que escreveu os poemas após a morte dos filhos, dá-nos também uma outra visão. Estas canções acabam por ter também algo de pacificador e consolador. Uma mãe fala das crianças mortas e dessa perda tremenda, mas no final ela acredita que estão no céu, que estão num bom lugar e a ser bem cuidadas. Os Rückert-Lieder são o ciclo de uma vida. Começam de um modo alegre e a meio de Um Mitternacht, e em Ich bin der Welt abhanden gekommen tornam-se muito mais profundos, transportando-nos para longe deste mundo, para outra dimensão. Mahler conhecia muito bem os poemas e transforma-os em música maravilhosa.

A sua carreira está muito ligada a Wagner, mas entretanto já pôs um ponto final em personagens como Isolda e Kundry. Tem saudades desses papéis?
Estou muito contente com o modo como finalizei esses papéis. Considero que as minhas últimas apresentações como Isolda e Kundry foram muito boas, estou orgulhosa por ter terminado esses papéis dessa maneira com essa qualidade. Assim posso olhar para trás com grande satisfação e felicidade.

Que outras personagens irá ainda interpretar nos próximos tempos?
Estou no 41.º ano de carreira, portanto não há um longo prazo. Mas continuo a fazer a Clitmenestra da Elektra de Richard Strauss, a Waltraud no Crepúsculo dos Deuses de Wagner e estou a planear a Ortud do Lohengrin para o Festival de Bayreuth.

Qual dos papéis wagnerianos constitui o maior desafio e quais foram os seus preferidos?
O maior desafio foi Isolda. Em relação ao que gosto mais, devo dizer que só canto o que gosto! Cada vez que faço um papel, mergulho totalmente nele. Tenho de gostar da personagem mesmo quando é menos positiva. Quando entramos em profundidade na sua psicologia, temos de acreditar nela, de a aceitar a 100%, de encontrar as razões que a levam a agir daquela maneira.

Quais são os requisitos que considera mais importantes num cantor?
Saber centrar-se no texto. Não basta entender o texto, é preciso vivê-lo e estar sempre consciente do que estamos a cantar. Muitos cantores esquecem o significado do que cantam, pois ficam demasiado preocupados com a dimensão puramente vocal. É essencial tornar claro o que estamos a dizer, porque cantar é dizer por outros meios, ou seja, falar através da música.

Acha que a abordagem interpretativa do repertório wagneriado tem mudado ao longo dos anos?
Com o tempo tornamo-nos mais maduros, mas é uma mudança gradual. É difícil falar em mudanças nas tendências interpretativas de um modo geral, pois depende muito do maestro. Em relação ao concerto na Gulbenkian, estou muito curiosa e ansiosa por trabalhar com o jovem Lorenzo Viotti. Disseram-me que é um maestro maravilhoso.

Ainda faz sentido falar de escolas interpretativas?
A música é a mais internacional das profissões. Temos orquestras com músicos que vêm de todas as partes do mundo. Já não faz muito sentido falar de um perfil de orquestra germânica, americana, francesa, etc. As tendências estão cada vez mais misturadas.

Com que maestros e encenadores tem sido mais gratificante trabalhar?
Entre os maestros destacaria Barenboim, Muti, Levine, Arthur Masella, entre outros. Dos encenadores, para mim, Patrice Chéreau foi sempre o rei, um deus! É triste não ver ninguém que siga os seus passos agora. Sei que é difícil, mas ele era um fazedor de teatro completo, estava totalmente por dentro da psicologia, da filosofia, da história, das diversas formas de arte, de tudo! E era também muito musical. Tenho muitas saudades. Mas claro que há outros bons encenadores, por exemplo Harry Kupfer, Claus Michael Grüger, Luc Bondy... Tive muita sorte em trabalhar com eles.

Considera que hoje há um excessivo domínio da personalidade do encenador?
A dimensão visual tornou-se demasiado importante, e não tanto a direcção de actores/cantores. Fico mais impressionada quando vejo pessoas a representar e a expressar emoções. Não me preocupo tanto com o cenário, prefiro uma encenação que apele à imaginação e à fantasia do público.

Também se dedica ao ensino do canto?
Tenho leccionado masterclasses, mas não sigo o modelo habitual. Procuro que sejam mais completas. Trabalho muito sobre o texto com os estudantes e faço trabalho corporal. O meu tópico é o seguinte: a maior parte dos cantores sabe como cantar, mas não o que dizer. Eu tento transmitir-lhes o que dizer.

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