Cientistas do Porto criam teste rápido para identificação de espécies

Técnica pode facilitar investigações criminais, controlo da segurança alimentar
e análises para identificação de vítimas em situações de desastres de massa

Como descobrir rapidamente a que espécie corresponde uma gota de sangue encontrada no local de um crime? Como saber se um carregamento de carne é mesmo de origem bovina? Perguntas como estas podem ter uma resposta fácil com um novo método de identificação de espécies, desenvolvido por cientistas do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (Ipatimup). Chama-se SPIDplex esta técnica baseada na genética molecular que, se vier a ser comercializada em larga escala, permitirá a distribuidores e investigadores criminais esclarecer quaisquer dúvidas em apenas dois dias.
"Para além da detecção de material biológico humano, o método está desenhado para a identificação das espécies pecuárias de maior interesse económico (bovinos, caprinos, ovinos e porcinos), bem como de cães, gatos, ratos, cavalos e burros. É mesmo possível obter resultados em espécies não mamíferas, como galináceos", explicou o investigador Filipe Pereira. Este cientista de 26 anos é um dos quatro autores do artigo com a descrição deste kit que, em Abril, será submetido à publicação numa revista internacional na área forense.
Os cientistas garantem que a nova técnica garante "uma análise rápida, eficaz e económica de uma variedade de amostras." Se assim for, o SPIDplex pode ser uma ferramenta útil para análise de amostras em larga escala - num desastre de massas como a queda das Torres Gémeas de Nova Iorque em 2001 ou, por exemplo, o tsunami que varreu o Sudeste Asiático após o Natal de 2004. Mas também pode ser útil no exame post-mortem do conteúdo do estômago de vítimas mortais ou ainda na solução de questões criminais que envolvam animais.
Estudos arqueológicos ou ecológicos também podem encontrar na nova técnica uma mais-valia, uma vez que amostras de fezes, pêlos ou ossos podem ser suficientes para determinar a espécie em causa.
"A versatilidade deste método e sua potencial aplicação à escala industrial poderá identificar correctamente as espécies presentes numa grande variedade de alimentos processados como, por exemplo, enlatados, enchidos e produtos lácteos, detectando assim possíveis fraudes. As indústrias de produção de rações para animais, sujeitas a forte legislação proibindo a presença de derivados de certas espécies, poderão ter também grande interesse nesta tecnologia, para garantir a conformidade dos seus produtos", acrescenta o investigador, que desenvolveu o trabalho em parceria com António Amorim, Leonor Gusmão e Barbara van Asch.
Esta nova técnica só é possível graças às disparidades que existem na sequência genética de cada espécie, uma "marca diferencial" que geralmente está alojada no ADN mitocondrial (material genético das mitocôndrias, que são organelos fundamentais na produção de energia celular, e estão fora do núcleo). Por outras palavras, é como se o cão tivesse um "código de barras" diferente do cavalo mas muito semelhante ao do lobo.

Catálogo genético
Com a ajuda de ferramentas informáticas, o grupo do Ipatimup analisou séries de ADN das mais variadas espécies disponíveis em base de dados públicas. Assim foi possível determinar com precisão, na sucessão de letras que compõem o texto genético, quais as passagens correspondentes a um bovino ou felino, por exemplo. Reunidos, esses pedacinhos do genoma foram algo que podemos chamar de um catálogo para identificação de algumas espécies.
Para utilizar o SPIDplex, os cientistas têm de extrair ADN mitocondrial das amostras de material biológico - pode ser uma mancha de sangue num tecido ou um pedaço de hambúrguer, por exemplo. Como estamos acostumados a pensar no núcleo da célula como o detentor nas nossas informações genéticas, podemos achar estranho o facto dos investigadores preferirem recorrerem ao ADN das mitocôndrias e não do núcleo. Contudo, há duas fortes razões que explicam esta opção.
"O processo para a identificação da espécie inicia-se com a extracção de ADN do material biológico da amostra. Uma das vantagens deste método é a utilização de ADN mitocondrial que, devido à sua relativa abundância nas células, permite obter resultados mesmo em amostras com elevado grau de degradação, como amostras forenses e de produtos alimentares processados", Explica Filipe Pereira.
"Após a extracção do ADN, o passo seguinte é a obtenção de várias cópias (amplificação) das regiões do ADN mais informativas para este método, utilizando o PCR, uma das mais habituais técnicas moleculares de laboratório", esclarece Filipe Pereira. A reacção em cadeia da polimerase - PCR, na sigla inglesa - permite fazer muitas cópias do material genético a partir de uma pequena amostra.
O objectivo é amplificar várias passagens do texto genético ao mesmo tempo e no mesmo tubo de reacção. Por conseguir trabalhar em simultâneo com cinco regiões diferentes de dois genes, a técnica ficou conhecida como multiplex PCR. "Há a vantagem de reduzir a ocorrência de falsos negativos, visto ser elevada a probabilidade de se obter amplificação em alguma das várias regiões analisadas, o que não aconteceria se apenas fosse analisada uma única região", afirma o investigador do Ipatimup.

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