E se o combate a infecções graves estiver dentro do nosso nariz?

Um artigo na revista Nature revela a existência de uma bactéria no nosso nariz que produz um antibiótico capaz de combater infecções graves. A descoberta pode ser útil para desenvolver novas terapias de combate a infecções multirresistentes.

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O Sono, de Salvador Dalí (1937)

Afinal, uma das soluções possíveis para o combate às preocupantes infecções resistentes a antibióticos pode ter estado sempre debaixo dos nossos narizes. Ou, mais precisamente, dentro dele. Trata-se de uma bactéria comensal, um tipo de bactérias que vive no nosso organismo, se alimenta com ele mas não nos prejudica e, por vezes, até nos ajuda. Este é o caso da Staphylococcus lugdunensis que, segundo um artigo publicado esta quinta-feira na revista Nature, produz um composto que funciona como um antibiótico, impedindo a colonização do nariz por uma perigosa bactéria patogénica conhecida por causar infecções multirresistentes.

O nosso nariz é um verdadeiro ecossistema que acolherá mais de 50 espécies de bactérias. Neste tipo de “nichos” de bactérias (há outros locais importantes como os intestinos, a pele ou a cavidade oral), estes organismos (conhecidos como microbiota) competem uns com os outros. Nessa luta, usam estratégias de combate para eliminar a concorrência que se alimenta dos mesmos nutrientes.

Sabia-se que a perigosa bactéria Staphylococcus aureus que pode provocar infecções multirresistentes – nomeadamente a MRSA (Staphylococcus aureus resistente à meticilina), que é a principal causa de infecções associadas aos cuidados de saúde em todo o mundo – podia ser encontrada no nariz de 30% da população. Não se sabia muito mais do que isto e esse foi o ponto de partida da equipa de investigadores da Universidade de Tübingen, na Alemanha. O que quiseram perceber foi o que é que as restantes 70% das pessoas tinham no nariz que era capaz de impedir a colonização deste nicho por aquela bactéria perigosa (que provoca infecções no sangue, no coração e à volta de próteses). E encontraram outra bactéria, a Staphylococcus lugdunensis, uma comensal que produz um composto que funciona como um antibiótico, baptizado agora, em inglês, lugdunin, contra a Staphylococcus aureus.

“Isto é algo completamente novo. É um novo conceito. Foi completamente inesperado encontrar uma bactéria humana a produzir um antibiótico. E pode ser apenas um primeiro exemplo. Vamos procurar mais. Acreditamos que vamos encontrar nas cavidades nasais mais bactérias deste género”, referiu Andreas Peschel na conferência de imprensa da Nature sobre o artigo. A busca de novos antibióticos, muito centrada nos microrganismos existentes no solo e no ambiente, pode ser alargada e focar-se agora no nosso organismo. “Se calhar, não temos estado a olhar para os sítios certos”, reconheceu Andreas Peschel.

A equipa da universidade alemã fez uma experiência com ratinhos colonizados com a Staphylococcus aureus, usando este composto como um tratamento tópico. “Houve uma redução dramática depois do tratamento. Nalguns animais não foi detectada qualquer célula da bactéria”, resumiu Bernhard Krismer, outro dos autores do artigo. Os investigadores referem que uma das explicações para nem todos os ratinhos reagirem ao tratamento poderá passar por uma explicação simples: “Não vimos uma cura total para a infecção porque, como o composto era aplicado topicamente na pele, alguns animais lamberam-no.”

De resto o composto não parece ser tóxico, abrange um espectro alargado de estirpes da bactéria patogénica e, por outro lado, a perigosa Staphylococcus aureus não revelou qualquer capacidade de desenvolver uma resistência ao lugdunin e de anular o seu efeito. Os investigadores também examinaram amostras de 187 doentes hospitalizados e concluíram que apenas 5,9% dos doentes com Staphylococcus aureus tinham a bactéria Staphylococcus lugdunensis e que 34% não a tinham. O que, argumentam, prova que esta bactéria mantém a outra fora do território do nariz.

Questionados pelo jornalista, os investigadores responderam que a viagem deste composto até à prática clínica começou agora. “Identificámos um novo composto que é uma nova classe de antimicrobianos. Estamos no início. Faltam anos de mais investigação e muito dinheiro para uma aplicação clínica. Precisamos, por exemplo, de parceiros na indústria farmacêutica”, disse Andreas Peschel. Sublinhando que “nunca alguém encontrou nada assim antes”, o investigador explicou que até agora apenas “havia análises que mostravam que genomas de bactérias que vivem no nosso organismo contêm genes que podem servir para potenciais produtos antibióticos”.

A definição de novas estratégias de prevenção e a descoberta de novos antibióticos capazes de combater as infecções multirresistentes que estão a aumentar cada vez mais no mundo são uma prioridade mundial na saúde pública. Por dia, 12 pessoas morrem com infecções hospitalares em Portugal. No pior dos cenários e se nada for feito para travar este problema, lembra Andreas Peschel, dentro de poucos anos as mortes provocadas por este tipo de infecções vão ultrapassar as causados por cancro. O nosso microbioma, as bactérias que vivem nos nossos intestinos, na nossa pele, na nossa cavidade oral ou no nosso nariz, pode ser uma das respostas. Para já, os cientistas provaram que há uma promessa de novos antibióticos debaixo do nosso nariz. 

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