O hiato entre os médicos

Entre mim e os médicos de 60 anos, existe um hiato que, não sendo meramente etário, é um abismo de tempo e mundividência. Sem espanto, sabemos que a Medicina mudou, não por uma qualquer tendência genética própria, mas porque o médico operou a mudança. Se este devir possui carácter de força motriz, é porque acrescenta, à monótona cadência do tempo, o elemento da novidade, do facto até aí inexistente, a perpétua criação de saber, eternos nascimentos e inexoráveis mortes. Assim não fosse e a Medicina morreria cristalizada numa cientificidade inerte.

O olhar cruzado que lanço aos médicos de 60 anos vem a lume numa mescla de inquietude e admiração. Inquietude, antes de tudo, porque essa é uma geração de humanistas, em vez do tecnocrata em que me fui transformando. O seu saber técnico-científico acompanhava um espírito crítico e aberto, num mundo posto à vertigem do acontecimento. Eu, sobrevivente da ciência que se renova a um ritmo alucinante, vivo o paradoxo de ter de ser conhecedor, ao mesmo tempo que não aceito a impossibilidade de saber tudo. O mundo competitivo da Medicina fez-me esquecer que há mais mundo e fui adormecendo a capacidade de me espantar. Os médicos de 60 tinham dias de 48 horas. Os meus têm 24, eu não sei um quarto do que eles sabem e ainda não consegui ler nem Camus nem a última guideline da hipertensão.

Os nossos médicos de 60 tinham valor próprio e eram reconhecidos pelos seus pares, administradores e doentes. Hoje, o meu valor é dado na forma de custo para um sistema e sirvo unicamente na medida em que disfarço aquilo que me vendem como irremediável. Ainda assim, é neles que me inspiro.

Os médicos de 60 eram médicos, tinham doentes, pensavam e diagnosticavam e eu passei a ser colaborador cronometrado, médico protocolizado, casuisticamente escrutinado.

Aos médicos de 60 era-lhes reconhecida autoridade e por eles nutria-se uma justa admiração e sensata gratidão. As suas abnegadas horas de trabalho, às vezes mais do que é humanamente exequível, eram tão imprescindíveis que o sistema delas dependia como de pão para a boca. Eu, em contrapartida, trabalho num mundo que parece ter deixado de se envergonhar com a banalização do trabalho médico e o seu valor está posto aí, a preço de saldo. Ainda assim, é neles que me revejo.

Os médicos de 60 eram médicos, tinham doentes, pensavam e diagnosticavam e eu passei a ser colaborador cronometrado, médico protocolizado, casuisticamente escrutinado. Ainda assim, é neles que procuro o saber de que não disponho.

Os médicos de 60 souberam trabalhar na azáfama da ocasional adversidade e do temporário remedeio. Hoje, laboramos em permanência naquilo que antes era meramente pontual. A excepção fez-se regra e fazemos uma medicina aquém e na intoxicação do inevitável. Ainda assim, é neles que procuro o desejado repouso no incómodo.

Os médicos de 60 são figuras messiânicas e proféticas, que fizeram muito com muito pouco, que sabiam observar sem exames e ouvir sem pressa. Foi deles que herdei muita da medicina que tenho para dar. E ainda guardo deles a visão do mestre-médico que soube não só preservar-se da pulverização da ciência, como manter viva a nobreza da arte de ver pessoa onde a ciência só vê órgãos, artérias ou moléculas.

Mas não se enganem. Temos mesmo de ser nós, com 30 ou 60 anos, a recolocar a arte médica no nobre lugar a que legitimamente aspira: o lugar do Homem que cuida a própria humanidade. É isto que nos deve interessar, tudo o resto é política.

Especialista em Medicina Interna

30 anos dos 300 mil da nossa existência

Tenho a convicção de que a minha geração (e a dos nossos pais em muitos casos) foi testemunha e protagonista das mais vertiginosas mudanças de toda a história da humanidade. Demorámos 300 mil anos para chegar aos 2,7 biliões de pessoas, no ano em que nasci (1955), desde então a população cresceu cinco biliões e a esperança de vida aumentou 20 anos. Assistimos ao nascimento da televisão, à ida do primeiro homem à lua, ao aparecimento dos computadores, dos telemóveis, da Internet. As relações entre pais e filhos e entre homens e mulheres modificaram-se profundamente. O maio de 68 fez emergir os estudantes e os artistas como novos agentes da revolução. Participámos na queda das ditaduras e erguemos uma Europa unida. A educação, a saúde e a qualidade de vida das pessoas melhoraram significativamente. No entanto, a mesma geração iniciou a desintegração da Europa, colocou populistas à frente de nações, permitiu uma acumulação de 10 mil armas nucleares, sendo que apenas cinco já seriam suficientes para destruir o planeta, fizemos com que 93% das crianças respirem ar poluído e que o aquecimento global ameace a nossa sobrevivência. Carregamos a angústia e a culpa de sabermos que vamos deixar este planeta pior do que o recebemos dos nossos pais e esta carga contamina a nossa apreciação das novas gerações.

E em relação à saúde? Nos últimos 30 anos, a mortalidade infantil reduziu para cerca de um quarto. Foi a minha geração que deu corpo ao Serviço Nacional de Saúde, fizemos muitas reformas mas também desperdiçamos muitas oportunidades. Apareceram novas técnicas, novos fármacos e identificaram-se novas doenças. No entanto, a mudança demográfica dos nossos doentes, que são mais idosos, com múltiplas doenças e mais complexos, e o crescimento exponencial do conhecimento médico são as variáveis que têm originado algumas das mudanças mais profundas.

Carregamos a angústia e a culpa de sabermos que vamos deixar este planeta pior do que o recebemos dos nossos pais e esta carga contamina a nossa apreciação das novas gerações.

O que observo na geração dos 30 anos, que é a geração dos nossos filhos? São jovens que se interessam por outro tipo de culturas e menos pela cultura dita tradicional, poderão ter mais dificuldade na comunicação face a face mas mais facilidade na inserção em redes sociais, lidam com as novas tecnologias de forma quase orgânica, estão mais abertos à mudança e o mundo é o seu universo, têm maior mobilidade no trabalho e o sucesso na carreira deixou de ser uma meta fundamental na sua vida, valorizam mais a qualidade de vida e o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, são mais conscientes dos seus direitos e buscam um propósito e actividades que possam ter um impacte positivo na vida das pessoas.

Os médicos desta geração enfrentam a dificuldade em transpor o novo conhecimento para a prática clínica, têm de desenvolver outras aptidões: foram treinados para diagnosticar mas agora têm de saber avaliar a cognição e a capacidade funcional dos doentes, aprenderam a prescrever mas agora também têm de saber desprescrever, foram educados para curar mas têm de aprender a aliviar o sofrimento, aprenderam a reanimar mas têm de saber respeitar a dignidade da morte. 

O fascínio pelos computadores desvia-os da importância de estabelecerem uma ligação empática com os doentes. Uma certa mitificação dos exames complementares faz com que, por vezes, desvalorizem o acto de escutar os doentes, fazerem uma boa história clínica e um bom exame físico.

A capacidade para trabalhar em equipa tornou-se fundamental. A opção entre saber cada vez mais sobre cada vez menos ou manter uma capacidade holística é cada vez mais dicotómica. Dito isto, a minha prática clínica é simultaneamente de formação e, nessa função, tento nunca me esquecer de que estes são os médicos que vão cuidar de mim, quando eu for apenas o Sr. Luís da cama 224.

Especialista em Medicina Interna

A sociedade não olha para o juiz de hoje como o fazia “ontem”

Foi na bancada de um auditório, na frequência de curso de preparação para ingresso na magistratura, em que imperava a incerteza quanto ao rumo a seguir, que conheci alguém que me fez perceber qual o caminho.

Falo de um juiz-conselheiro, repleto de saber, humilde e acessível que, com o seu jeito muito peculiar, me transmitiu muito mais do que certamente imagina.

Provinda de origens humildes, percepcionava o juiz como um ser quase divino, distante, intocável, mas o contacto com o referido conselheiro fez-me perceber que estava errada. Na verdade, embebida na leitura dos seus acórdãos, compreendi que a qualidade técnica desprovida das qualidades humanas como a justeza, o bom senso e a rectidão não é suficiente para “fazer” um bom juiz.

Depois de muito estudo, surgiu o acesso à magistratura.

Obviamente que também aprendi, com alguns juízes mais velhos, o que não queria ser e fazer.

Com juízes mais velhos muito aprendi, em especial que a imparcialidade, a ética e a integridade devem pautar sempre a conduta de um juiz, que mais não é do que uma pessoa vulgar no exercício de uma profissão.

A formação ministrada pelo CEJ foi exemplo disso mesmo. Com os juízes formadores, imprescindíveis para a formação académica, mas, sobretudo, humana, muito aprendi, e sei que estão lá, como colegas, quando for necessário.

Obviamente que também aprendi, com alguns juízes mais velhos, o que não queria ser e fazer.

A verdade é que, desde sempre, são inúmeras as dificuldades profissionais e pessoais que assolam os juízes no início de carreira, sendo inúmeros os quilómetros percorridos, para localidades recônditas, com momentos vivenciados de modo solitário. E, apesar de estas serem transversais a todos os juízes, estão mais perpetuadas nos tempos hodiernos, ao que se adita um maior enfoque da comunicação social na figura do juiz e na função de julgar.

Por outro lado, ao juiz de hoje é imposto um cada vez maior dever de fundamentação, ao que acresce um aumento do volume de trabalho, a exabundância legislativa e a visão economicista da Justiça.

De referenciar ainda o facto de a sociedade não olhar para o juiz de hoje como o fazia “ontem”. A cultura da reclamação e a mutação da própria sociedade, que tende a focar-se nos seus direitos e a descurar os deveres, fez com que o respeito pelo tribunal se diluísse. Apesar de os ventos da mudança serem tendencialmente positivos, trazem consigo aspectos negativos, como a tentativa de funcionalização da magistratura e a busca por uma justiça célere e eficaz sem garantias mínimas de qualidade do seu serviço. Os processos judiciais — que comportam a “vida” dos cidadãos — não podem ser encarados como meros números. Neste particular, todos os juízes, antiguidades à parte, comungam de um valor comum: pugnar por Justiça de qualidade em que os números não podem ser nunca um fim.

Por estes motivos, enveredei pelo associativismo judiciário, contexto em que tenho o privilégio de privar e trabalhar com juízes que, com a sua vasta experiência e competência, me demonstram que a primordial função do juiz é a de administrar a Justiça em nome do povo, com isenção, independência e imparcialidade, e a de pugnar pela defesa de tais valores, sem desistir de lutar pela integridade do sistema judicial, acautelando a confiança do cidadão na Justiça.

Para quem está no início da carreira, como eu, contar com o constante apoio dos colegas mais experientes, que se podiam resguardar na segurança da sua “antiguidade”, é gratificante e inspirador e faz-me acreditar que, a seu tempo, a minha geração servirá como exemplo para as gerações vindouras.

Juíza no Juízo de Competência Genérica da Marinha Grande

Sobre esta e outras Sílvias

Sílvia Magalhães, juíza, mulher, jovem, mãe de um menino de três anos e grávida de outro bebé. Conheci-a num dia soalheiro de Outono, em 2017, em Coimbra, na primeira reunião da lista com que nos candidatámos à direcção da Associação dos Juízes. Tinha metido na cabeça, desde o início, que queria uma equipa maioritariamente jovem e de gente desconhecida. Dá mais energia e reflexão crítica. A Sílvia que me puseram à frente naquele dia tem isso tudo: pensa fora da caixa e diz o que tem a dizer.

Há tempos saiu do conforto do anonimato para dar a cara numa reportagem da Ana Henriques (PÚBLICO 17/11/2018) e falar sobre os desafios do início da carreira, naquela hora e meia de curvas e contracurvas entre Moimenta da Beira e São João da Pesqueira. Como eu, em 1994, ao domingo à noite, a caminho de Ponte de Sor, no Citroën ZX pago a prestações, a cantar Creep, dos Radiohead, é pelos tribunais do Portugal interior e rural que começa o “caminho das pedras” de todos os juízes.

A amizade e a cumplicidade do associativismo tiram-me distanciamento para falar desta Sílvia. Mas posso projectar nela um testemunho sobre as Sílvias e Sílvios que entram hoje na carreira judicial, perto dos 30 anos, e abraçam um projecto para toda a vida, de recompensas e frustrações.

Diz-se que os juízes jovens são mais autoritários e convencidos. Talvez. Eu aos 30 anos também era.

Diz-se que os juízes jovens são mais autoritários e convencidos. Talvez. Eu aos 30 anos também era. Depois, vem mais experiência, mais segurança, mais capacidade de encaixe, e entra-se num registo mais tranquilo. Presumo que é assim em todas as profissões. Na Sílvia não vejo esses traços, mas se os tiver, livre-se deles quanto antes.

Há uma coisa em que os juízes de hoje são melhores do que os de ontem: na fundamentação das decisões. Não sei se decidem melhor ou pior. Os advogados que digam. Mas explicam mais e melhor porque é que decidem desta maneira e não daquela. Isto é muito importante para a sindicabilidade das decisões e para a legitimação da nossa função. Às vezes diz-se que se escreve demais nas sentenças. Também penso que sim. Citações desnecessárias e argumentação supérflua. Isso passa. À medida que o tempo avança, ganha-se capacidade de dizer mais em menos palavras e de limpar as gorduras desnecessárias dos textos.

Talvez seja apenas a nostalgia dos velhos que acham que no seu tempo era melhor, mas penso que os juízes mais novos entram na carreira com mais tiques de funcionário público e menos cultura de juiz. É mau. Há quem demore demasiado tempo a perceber o seu papel na arquitectura dos poderes do Estado e se julgue, apenas, uma peça mais de uma engrenagem administrativa. Informatização e pressão da produtividade, que padronizam a forma de pensar e de actuar e demasiado afastamento da comunidade de partilha de experiências no tribunal, com a solidão do teletrabalho e a falta de julgamentos colectivos. A Sílvia é uma das que remam para o lado certo e combatem essa pulsão funcionalizante do sistema.

Sendo o universo dos juízes tão plural, não sei bem se este retrato apressado dos mais novos tem algum valor, e menos ainda como é que a Sílvia se encaixa nele. Há, porém, uma singularidade nela, que lhe acrescenta uma característica rara e valiosa e em que me revejo, a quase 30 anos de distância. Refiro-me ao “bichinho” do associativismo judicial, a essa vontade de tirar os olhos do processo e tentar ver mais à frente, a essa consciência do conjunto, a esse gosto de se colocar ao serviço do outro. Não há muitos juízes dispostos a esse sacrifício pessoal. A Justiça precisa de mais Sílvias e Sílvios assim.

Presidente da Direcção da Associação Sindical dos Juízes Portugueses

A política em tempos da Internet 2.0

Há 30 anos surgiu uma ferramenta que revolucionaria as nossas sociedades para sempre: a Internet. O protocolo World Wide Web (WWW), criado pelo norte-americano Tim Berners-Lee no ano em que nasci, foi inicialmente pensado para partilhar informação entre investigadores, evoluindo para sistema de gestão de informação e, mais tarde, servidor. 

Dificilmente quem está a ler este artigo consegue imaginar a sua rotina diária sem o acesso direto e imediato à informação e comunicação. O mesmo é verdade para a forma como, por estes dias, se faz política dentro ou fora das instituições.

Com um clique a qualquer hora do dia sabemos quem ganhou as eleições do outro lado do hemisfério ou quantas pessoas saíram à rua em defesa da democracia em Hong Kong. Um curto tweet do líder da Casa Branca pode marcar o dia e provocar a ansiedade das praças financeiras ou um vídeo publicado no Facebook por um pai que conseguiu meter a filha a rir-se das bombas de Idlib pode dar a volta ao mundo e marcar a narrativa sobre os horrores da guerra na Síria.

As grandes lutas por direitos cívicos e pela democracia mantêm-se, embora com contornos e formas diferentes.

O acesso imediato à informação e a facilidade com que qualquer pessoa pode produzir um conteúdo informativo e, em teoria, criar um facto político acelerou a velocidade política e criou uma nova escala para as suas atrizes.

Recordemo-nos que as revoltas da Primavera Árabe ou das praças dos indignados se organizaram nas plataformas digitais ou, hoje, a Greve Climática Estudantil. Dificilmente estes exemplos de resistência cívica internacional teriam explodido sem o catalisador de partículas da internet 2.0.

Democratizou-se o acesso ao espaço público para reivindicar mudanças. Este tipo de democratização alargada do espaço público não existia há 30 anos e isso faz toda a diferença no que toca às reivindicações dos nossos tempos. 

Mas quanto mais percebemos o funcionamento das redes sociais, mais percebemos que esta democratização de acesso esbarra com um dos desafios da era digital: o algoritmo. 

É aquilo que define o que vemos e em que momento. Escândalos recentes com a Cambridge Analytica provaram que há uma opacidade gritante na forma como a informação nos chega, porquê, quando e quem favorece. É preciso democratizar o algoritmo. Sem essa democratização continuamos a não ter um controlo da informação, os nossos dados digitais continuam a pertencer a empresas, nem temos regras do jogo claras. 

Tal como o combate às fake news, que é urgente porque a sua propagação é rápida e tem servido de veículo de transmissão de movimentos de extrema-direita, a luta pela democratização das redes sociais e do algoritmo é um dos combates do nosso século. A quem pertencem os nossos dados e quem e como decide aquilo a que temos acesso.

Pode ainda não parecer uma luta alargada, mas, quando percebemos que a política se faz cada vez mais através de ferramentas digitais, têm que existir garantias de transparência, proteção, democracia. Quem fazia política há 30 anos, sem nenhuma destas ferramentas, pode ainda ter dificuldade em fazer esta transição. Mas ela é inevitável, apesar de alguns se manterem agarrados a cânones que têm menor adesão à realidade. 

Podem ter passado 30 anos, mas as grandes lutas por direitos cívicos e pela democracia mantêm-se, embora com contornos e formas diferentes. Esta diferença face há 30 anos não significa, necessariamente, que quem se mantém na política desde aí não se consiga adaptar, mas são precisos esforços grandes para perceber que “antigamente é que era melhor” ou que hoje em dia já “não se debate a sério”. Com as décadas chegam alterações, quem faz política tem, necessariamente, que se adaptar a elas e moldar a política para responder às novas reivindicações. Não era melhor nem pior, mas é seguramente diferente. 

Politóloga e deputada do BE

Escreve segundo o novo acordo ortográfico

“Ter 30 anos hoje impõe ter interesse pela política”

Ter 30 anos hoje impõe ter interesse pela política. Porventura exercitado nas redes sociais ou em estruturas alternativas a partidos (tertúlias, ONG, clubes, associações cívicas...). A geração dos millennials sabe que tudo o que a rodeia e afecta depende da preservação do planeta e da utilização racional e sustentável dos seus recursos. Transição energética, transformação digital, economia circular, regulação das migrações, etc. requerem governação na aldeia global. O combate pelos direitos humanos e pela igualdade de género, contra as desigualdades crescentes, não se fará sem política na polis à escala mundial.

Quem pode criticar os millennials por serem, em geral, cépticos e algo distanciados da política? Eles viveram a angústia das suas famílias atingidas pelo desemprego e a destruição de direitos sociais, em resultado da crise do capitalismo em 2008. Viveram o descalabro financeiro, a paranóia dos mercados, o alastrar da corrupção e da criminalidade organizada. Se acaso conseguiram emprego, mesmo se qualificados, vivem na precariedade e na incerteza. Sem habitação acessível são forçados a deixar tarde a casa dos pais, a adiar ter filhos e compromissos. Vivem ligados pelo digital, estão a mudar a economia, têm preocupações sociais e intuem que só em democracia se pode resistir à sujeição orwelliana. Os jovens de 30 anos hoje têm justas exigências quanto à intervenção do Estado e à prestação de contas pelos seus representantes, instituições e serviços. Exigem qualidade, eficácia, transparência, controlo, justiça.

Sem política e sem democracia não há futuro – aos 30 anos, já deu para entender. Não é hora para desprezar os partidos políticos democráticos. É preciso entrar neles para os mudar.

As consequências políticas estão aí. Mesmo na América de Trump, sondagens mostram que a maioria dos millennials não apoia o sistema capitalista, e que até a noção de “socialismo” está em reabilitação. Na Europa, como nos EUA, quem mais embarca na propaganda nacional-populista que explora ódios, medos e inseguranças são pessoas descartadas pela ideologia neoliberal.

Quem tem 30 anos sabe que o digital requer linguagem e padrões universais. Sabe que sem regulação global os big data e a inteligência artificial não são confiáveis e prestam-se a perversas instrumentalizações. Sabe que sem regulação global qualquer conflito armado impulsiona a corrida aos armamentos mais letais, que pode degenerar em hecatombe nuclear. Sabe que sem regulação global não se controlam alterações climáticas, nem se reorganizam os factores trabalho e capital, nem se controlam migrações, nem pandemias, nem se preserva a natureza, nem se garante segurança. Quem tem 30 anos sabe que tem de exigir mais dos governantes e das estruturas multilaterais de regulação. Esses jovens são salutar e criticamente pró-europeus: querem uma União Europeia com ambição, estratégia, meios e controlo democrático.

Sem política e sem democracia não há futuro – aos 30 anos, já deu para entender. Não é hora para desprezar os partidos políticos democráticos. É preciso entrar neles para os mudar. E nunca desistir de os responsabilizar.

O PÚBLICO faz 30 anos, não pode deixar de se assumir como millennial. Feito por muitos jovens e por quem, mais experiente, não desistiu de construir o futuro, consolidar a democracia e abrir novos horizontes a Portugal. Parabéns, PÚBLICO! Publique-se sempre!

Embaixadora e militante do PS

O que ficou para trás não foi boicote

Têm mais do dobro da minha idade, mas o sulco que se abriu entre nós não é o das décadas. O que nos separa? Sentamo-nos à mesma mesa, temos o mesmo ecrã à frente. Com jeitinho, talvez o mesmo pasmo perante um caderno em branco, uma centelha que possa culminar num romance. Mas não dá para o negar: enfileiraram vários livros, cobriram prateleiras. É possível que o extraordinário tenha sucumbido à condição de banal, e por isso não há como não indagar se, aos 60, avançar a galope para um romance poderá ter a mesma condição de desafio. E que dizer do estado infantil de encantamento? Em cada escritor, haverá um Alberto Caeiro até ao fim?

Têm olhos míopes mas nós também os temos. Não leram tudo, nem de perto. E cada um é uma escola, décadas de entulho e de vértebras para trás. Olhe de que prisma olhar, há uma certa inveja pela acalmia: o que havia para acontecer aconteceu, não há incertezas nem ansiedades, talvez só a paz de terem cumprido os intentos e de não terem deixado que os empregos, as angústias e os filhos os afastassem da tarefa árdua e mágica de inventar arcos narrativos.

Há os que buscam um conceito e explorá-lo; outros procuram a vertigem. Num e noutro caso, poderá haver a realidade escancarada, mas talvez o pouco que existe na minha geração, excepto aquela parte que busca tão-só a reafirmação do seu espectro político na literatura, se encontre numa história, respondendo a uma construção quase imagética, pintada. Os tempos são outros, mais rápidos — líquidos, diria o Bauman —, e já ninguém tem vida para mastigar ideias abstractas. A prosa tornou-se mais ágil, as frases mais incisivas. Começou a sair de cena o que não é tão cinematográfico, ou pelo menos que, não descurando a estética, não está ao serviço de uma linha. Ficção sempre houve a pontapés, e desde a Netflix que não se fala de outra coisa.

Não há como não indagar se, aos 60, avançar a galope para um romance poderá ter a mesma condição de desafio.

Assumo que, da literatura, se quer o estalo. Mas se uns fazem do estalo a dor quente e mansa, que primeiro adormece e depois infecta, outros procuram a rispidez gélida de um baque. Ou seja, um texto escorreito e cru para matar de um golpe. Com isto quero dizer que, entre os seniores, por algum motivo, o estilo engoliu a história.

Cresci com eles e, por isso, durante muito tempo julguei que a história não interessava. Mais: julguei que era um artifício, uma finta para permitir um livro. Ao longo dos anos, enquanto me forçava a ser escritora, escrevi muita coisa voltada para uma visão de mundo que tinha um esqueleto distorcido no seu cerne. Por isso, interessou-me discutir conceitos, martelar uma prosa mastigada, chegar a nenhures. Se a escrita era a viagem, ter uma meta para quê?

Não necessariamente numa empreitada contra a acção, parece-me que entre os mais velhos há mais contemplações. É tudo uma coisa mais atenta, mais de gestos, voltada para a explicação de um pormenor. Entre eles, há ainda quem enverede por uma overdose de pontos finais ao estilo anglo-saxónico, quase à Vergílio Ferreira. As pausas omnipresentes conferiam um ritmo de stacatto, mas ficávamos lá dentro, o drama agarrava como mãos.

Uns fazem-no, outros, não. Não há-de haver uma característica comum a todos excepto esta: acima de tudo, é uma geração fascinada com comida. Nos romances dos autores da minha geração, já ninguém tem tempo para comer. Aliás, quando alguém com menos de 30 anos se senta para escrever, há-de lembrar-se de muita coisa, mas não de cozido à portuguesa ou pataniscas. Se for mesmo preciso desenrascar uma coisa qualquer dentro de um prato entre duas personagens, vai uma pizza, vai sashimi. E isto distingue-nos de quem acha que as personagens, só porque são pessoas, precisam de comer e que a massa precisa de estrugido. À mesa, nos romances deles, já se sabe, ou gente com nomes muito betos ou então muito esquisitos. Quando querem empolar, usam o francês. Quando queremos aligeirar, metemos o inglês.

Aprendi muito com a geração dos +60 e, por saudosista que possa ser, na literatura para a frente é o caminho. Alea jacta est, em cada um, um mundo novo. Entre o estilo e o fio narrativo, o que mais interessa é mesmo não sacrificar nenhum.

Escritora

Porreira

Única varanda de observação do mundo, o aqui depara-se-me oferecido agora por Afonso Reis Cabral, pretexto de voo de um olhar tranquilizado. Se nos colocarmos de facto, ele e eu, mercê da lâmpada de Aladino que a ambos alumia, no tapete da Via Láctea, seremos de idade igual, ou seja, desta que o eterno presente consagra.

O convite apareceu-me embalado em papel de fantasia, desse que nos põe a viajar num relógio sem ponteiros, assinalado por minudentes motivos de reflexão comum. Atentemos nas palavras antes de mais, e nesse belíssimo qualificativo de “porreira”, com o qual Afonso festejou a ideia deste mano-a-mano sem touro, nem cavalo. Jamais os da minha criação, vivendo no tal ontem inexistente, se afoitariam a semelhante “vulgaridade” no diálogo com pais e mães da tribo da altura, David ou Eugénio, Agustina ou Sena, Sophia também por respeito de classe, talvez nem sequer Pires, e tão-só Cesariny nas permissões outorgadas pela mais ampla marginalidade.

Outras dinâmicas, simultaneamente de ofício e crença, sofreriam rápida e deslumbrante mutação. Sou da implacável escola das letras que nos proibia o adjectivo, apostada na tarimba de muito osso e pouca fêvera, exigida pela idolatria do proletariado e pela apoteose dos amanhãs cantantes. Por isso sairiam mais ou menos barrocos os da minha criação, a inculcar a rebeldia do pote de geleia entornado, quando nos receitavam a bolacha de araruta. E que a dieta tenha ressurgido, quer em versos cortados à tesourinha quer em prosas de soluço lacónico, eis o que confirma a passagem da mesma girafa, montada por um puto diferente, a cada volta do carrossel.

O produto literário, conforme ao que sucede com os pimentos que a nada sabem e com as batatas que logo se esboroam, vem perdendo em identidade aquilo que ganha na embalagem.

Alteraram-se porém os paradigmas do convívio e, vá lá, uma certa elegância de maneiras, efeitos da exposição excessiva, potenciada pelas redes sociais e pela cultura do espectáculo. E substantivos como “inspiração” ou “carreira”, anatematizados pela estética noli me tangere que infestou “o meu tempo”, tornaram-se redundantes porque inseparáveis dos comportamentos que os denunciam e sem necessidade por isso de qualquer interdito à sua utilização.

Na minha acedência ao convite que Afonso me dirigiu, pesaria algo de quase imponderável, a circunstância de o rapaz ter optado por escrever à mão. É nesta mania que teimo, e continuarei a teimar, não por presumir que o exercício manual constitui excelente caminho para o melhor, mas por o considerar mais propício à individualidade. Confundindo-se com a maltrapice dos escribas de pacote, diariamente vomitados no escaparate de supermercados e estações de serviço, o produto literário, conforme ao que sucede com os pimentos que a nada sabem e com as batatas que logo se esboroam, vem perdendo em identidade aquilo que ganha na embalagem. E se há milhentos, isto entre os que merecem algum respeito, que replicam como autómatos Hélder e Antunes, será por conseguirem ouvir a própria voz?

Ficará assim porreira esta coisa, caro Afonso? Se não, diga já, e farei diferente.

Escritor

“Há 30 anos, o empreendedor fazia muito mais sozinho”

Dia 1 de Março de 2020, são três da tarde. Olho pela janela pequena e oval e só vejo luz e azul. Estou outra vez num avião.

Nos últimos meses, quase ano, não tive casa. Uma vida passada entre aeroportos, hotéis, “airbnbs”, quartos em casas de amigos ou conhecidos, linhas de metro, “ubers” e “bolts”, noites mal dormidas e noites sem sono.

Quando começamos a empreender, há uma parte de nós que acredita que aguentamos com tudo. Pelo menos no meu caso havia.

Lembro-me de estar numa aula no MIT em Boston (o primeiro sonho pessoal que pude cumprir, pois ganhei uma bolsa como líder de um movimento social quando comecei a Coopérnico) e de ouvir uma professora na primeira aula a dizer: “Façam o que fizerem, não comecem empresas e a ter filhos ao mesmo tempo.” “Yeah, right...”, pensei eu, que estava à espera do terceiro filho (ou filha neste caso) e tinha, até ver, tudo a correr bem.

Com o tempo percebemos que afinal não é assim. Sempre o tempo. Quantas coisas há que ouvimos, até achamos que as entendemos, mas só o tempo revela o que elas realmente significam?

Será que há 30 anos o tempo era diferente do tempo de agora?

Em meados do ano passado, um dos meus sócios, o Manuel Nina, ao ver que atravessava um momento difícil, um dia surpreendeu-me num almoço a dois. Tirou de um saco o Meditações, de Marco Aurélio, e nele estava uma dedicatória de fazer corar. Marco Aurélio faz, nas suas meditações, várias reflexões sobre aprendizagens da vida, de experiências que viveu e, sobretudo, de lições aprendidas de outros. O Manuel fez na dedicatória o mesmo comigo. 

A imagem que tenho de há 30 anos, corrija-me se não for assim, é que o empreendedor fazia muito mais sozinho. Abria caminho, fazia a máquina mexer, tinha a sua equipa e pagava os salários.

Nesse livro encontrei, além de muitas reflexões oportunas, por exemplo sobre como todos estamos interligados entre nós e com a natureza, e de algumas profundamente desactualizadas, casos da escravatura ou orientação sexual, uma que esclareceu a minha dúvida sobre o tempo. Era algo parecido com: “Aprendi a nunca mais dizer que não tenho tempo para alguma coisa. Não é tempo, é prioridade.”

Bem sei que não precisava de ter lido o livro. Há quantos anos ouvimos “O tempo é o que fazemos dele”? A verdade é que foi preciso tempo para perceber que somos mesmo nós que escolhemos o que fazemos dele. E a força de vontade está em manter-se fiel a esse princípio. Quantas vezes dou por mim a correr por uma agenda que não sinto que é minha? Agora, cada vez menos.

Há 30 anos provavelmente não havia mais tempo. E há mais de 2000 anos também não.

Se de há 30 anos para cá o tempo não mudou, só mudou o que fazemos com ele, há outro aspecto de empreender cuja mudança me entusiasma, o das pessoas.

São o maior desafio e o lado mais importante de empreender. Antes falava-se de “gerir pessoas”, hoje só faz sentido para mim “compreender pessoas”. É das pessoas que retiramos grande parte da nossa energia positiva, mas são também capazes de trazer muita energia negativa. São elas que, juntas, podem fazer acontecer coisas incríveis, mas que, se não se entendem, podem arruinar negócios brilhantes.

A imagem que tenho de há 30 anos, corrija-me se não for assim, é que o empreendedor fazia muito mais sozinho. Abria caminho, fazia a máquina mexer, tinha a sua equipa e pagava os salários. Provavelmente, os líderes mais humanistas eram rapidamente adorados pelas suas equipas, ou considerados fracos ou moles pelos seus pares.

A empreender, e à custa de muitos erros, aprendi que o mais importante é haver alinhamento entre todas as pessoas que trabalham numa equipa. E alinhamento entre o propósito da empresa e as pessoas que dela fazem parte. Em empresas de impacto, como a GoParity, isto chega até a ser uma vantagem competitiva na hora de atrair talento. Fazer de uma equipa uma família ou grupo de amigos é muito mais do que uma frase bonita. É criar um espaço seguro, sério mas divertido, honesto e transparente, onde cada um pode ser o profissional mas também a pessoa que é.

Empreender torna-nos bipolares. Alternamos como se nada fosse, entre a excitação e a tristeza, a certeza e a dúvida, a confiança e o desespero, a realização e a sensação de ainda ter tanto para fazer.

Mas se há algo que não muda é olhar para trás e saber que valeu a pena, hoje e daqui a 30 anos.

Empreendedor e fundador da GoParity

“Agora tudo se resume a um propósito? Qual é o teu? Já pensaste servir?”

A ti, jovem empreendedor trintão, ou próximo, que “lições” esperas de mim? Uma série de orientações úteis às tuas dúvidas e anseios ou panaceias para as tuas dores?

De mim, empreendedor sénior (colheita vintage de 61), não encontrarás aqui mais do que perguntas que se pretendem poderosas e detonadoras de reflexão e acção que te levem a descobrir o melhor que há em ti.

Sim, porque o que procuras está aí bem dentro de ti, nas tuas entranhas. Por isso os anglo-saxónicos falam em gut(s), a coragem de enfrentar e gerir o risco e a incerteza.

Qual o teu sonho? O que te faz arriscar e tomar a iniciativa?

Está alinhada com a visão? Necessita de ser revisitada ou mesmo revista? Porque não?

A missão corresponde ao caminho a percorrer para atingir os resultados/objectivos definidos? Como vais medir? Em que enquadramento espacial e temporal? E o receio de morrer na praia?

Os valores são “activamente sentidos e vividos”? Constituem uma prática regularmente treinada?

Parece que agora tudo se resume a um propósito? Qual é o teu? Já pensaste servir?

Sim, encontrar e definir exaustivamente um verdadeiro problema, desafio ou dor para o qual possas servir e partilhar a solução mais eficiente, conseguindo mais com menos, simples? Estás preparado para o intrincado caminho ao encontro da simplicidade?

Define bem o desafio, para uma solução mais eficiente. Passa para o papel (ou ecrã) um plano, mas não fiques refém dele, reescreve sempre que necessário. O exercício é muito mais importante do que o resultado final. Revisita regularmente. Readapta. Reajusta. Desajusta.

Farto de lugares-comuns e cartilhas old school? Pois, o mundo é mesmo assim, menos é mais! E pára de complicar!

Define bem o desafio, para uma solução mais eficiente. Passa para o papel (ou ecrã) um plano, mas não fiques refém dele, reescreve sempre que necessário. O exercício é muito mais importante do que o resultado final. Revisita regularmente. Readapta. Reajusta. Desajusta. 

Abre-te ao mundo que te rodeia, observa, escuta activa e atentamente, sai do escritório ou laboratório, sente o que e quem te circunda, envolve-te e envolve. Sê inclusivo, não extractivo!

Sabe-te a pouco? Ainda bem, queres mais, muito mais. E isso é bom, é ambição, não é ganância. 

Disrupção? É possível criar a partir do nada? Poliniza, incrementa, remistura para conseguir algo “novo e diferenciado”. Estás suficientemente insatisfeito para abraçar a mudança? Como a vais gerir, controlar e comandar?

Tens recursos? Tempo, equipa, dinheiro? Como os vais reunir?

E a atitude? Insistir, resistir, persistir! Sem medo! Acredita! Ânimo! (Auto)Motivação! Alegria!

Foca-te na selecção da equipa, escolhe e atrai sempre alguém melhor do que tu, porque serás a média das pessoas de que te rodeias, e ainda a informação e o conhecimento que recolhes.

Sim, tu, tu e tu! E as pessoas, os outros. Estás preparado para liderar? Não é genética, é educação e muito treino! Exemplo e acção!

A Empresa, o veículo do Empreendedorismo deve perseguir o Lucro, não é pecado, apesar da nossa cultura judaico-cristã, podes sempre redistribuir justamente. Não basta Criar mas também Capturar Valor. E para quê? Partilhar? Dar para Receber? Semear para Colher?

Pediram-me o meu testemunho e casos práticos exemplares que ilustrem o que pode representar ser e viver como empreendedor. As biblio/áudio/videotecas físicas ou virtuais dos oráculos do saber transbordam de case studies... Tudo o que vos posso transmitir é aquela vontade ininterrupta de fazer, algumas vezes falhar, levantar, prosseguir, medir, testar diferente, comparar, analisar e... continuar! É, parece o Jogo Infinito do Simon Sinek...

Estou precisamente a entrar no meu quarto ciclo (curiosamente de aproximadamente dez anos cada) em que procuro impreender, incorporar e partilhar noutras equipas de trabalho o conhecimento que de nada serve se não for aplicado, testado e medido pela acção e experiência.

E a ti, o que te impede de agir?

Cria, constrói e partilha o teu caso! Goza-o! É sempre muito mais divertido do que assistir da bancada!

O mundo chama-te! Prepara-te para o servir em liberdade dando tudo até ao limite. Não receies a sensação do “vazio”, a natureza tende a preencher o vácuo e recompensará em abundância. E nunca te esqueças da gratidão e de celebrar as vitórias! Carpe diem, porque tu mereces!

Empreendedor, fundador e CEO da ProACTION

“Não consigo imaginar-me a vestir roupa de lã como dantes”

​Há algumas décadas, o ciclismo era, de longe, bem diferente do que é nos dias de hoje. Começando pelas bicicletas, que tornavam este desporto ainda mais duro. Chegavam a pesar 10kg ou até um pouco mais, para não falar nas mudanças, que além de terem um número mais reduzido do que o actual eram manuais e postas através de alavancas com desmultiplicações mais pesadas. Acredito que não fosse nada fácil. E os sapatos eram presos aos pedais por fivelas. Em termos de segurança, esta era muito desvalorizada, uma vez que o uso do capacete não era obrigatório, e agora, além de obrigatório, é mesmo indispensável, pois salva vidas. Na altura, se assim fosse, poderia ter evitado, por exemplo, a morte do grande Joaquim Agostinho.

​As corridas eram diferentes, havia muitas provas feitas em pista, mas na estrada também a Volta a Portugal era diferente, tinha uma duração maior. As estradas, que agora são alcatroadas, há alguns anos eram com certeza mais uma dificuldade que os ciclistas tinham de enfrentar. Os troços de empedrado e de terra batida eram uma constante, o pó que se levantava levava muitos ao abandono, com dificuldades respiratórias. E, pior, na altura não existiam rádios intercomunicadores. Por isso, caso ocorresse um furo ou avaria, trocava-se de bicicleta ou de roda com os colegas, porque não havia a facilidade de comunicação que temos hoje. 

A alimentação durante as corridas é muito importante e até isso era diferente. Comiam marmelada, açúcar, figos secos e tantos outros alimentos que fossem fonte de energia rápida.

​A alimentação durante as corridas é muito importante e até isso era diferente. Comiam marmelada, açúcar, figos secos e tantos outros alimentos que fossem fonte de energia rápida. Para beber era água. Não havia sais, nem géis energéticos que temos actualmente. Se agora os equipamentos são uma mais-valia, antigamente representavam um obstáculo. Não consigo sequer imaginar-me a vestir roupa de lã como dantes. 

​Um assunto de que há uns 30 anos não se ouvia falar é algo que actualmente está inerente a esta modalidade e, na verdade, ao desporto em geral — o doping. Na altura, poucos ou nenhuns controlos antidoping se faziam, o que levava ao uso descontrolado de substâncias por parte dos atletas.

​Antes, quase todas as equipas de futebol tinham uma equipa de ciclismo, incluindo os três “grandes”. Pessoalmente, é uma pena isso não se manter, pois era algo que sem dúvida traria mais popularidade para a modalidade nos dias de hoje. Ainda assim, acho importante salientar que a equipa mais antiga do mundo ainda em actividade é portuguesa e, inclusive, foi o meu clube de formação, o Clube de Ciclismo de Tavira, actual Atum General Tavira Maria Nova Hotel.

Vencedor da Volta a Portugal em 2019

“Ficava doente se passasse um dia sem andar de bicicleta”

As coisas evoluíram muito e bem no ciclismo, com melhores condições de trabalho, melhores condições de treinos, evolução dos materiais nas próprias bicicletas e no restante equipamento. Mudou muito para melhor, com algumas coisas pelo meio que não gostaríamos que tivessem acontecido, no doping, nos regulamentos, mas são coisas que vão sendo corrigidas.

Nas bicicletas, dois pontos fundamentais: o peso baixou cerca de dois quilos nos últimos 30 anos e, a juntar a isso, uma muito maior possibilidade de desmultiplicações, opções de andamento que a bicicleta tem. No meu tempo, eram sete velocidades, hoje os corredores têm 12 velocidades. E todo o sistema de mudanças e travagens evoluiu muito. A comodidade da roupa, em particular nos calções, é fundamental, porque o ciclista passa muitas horas em cima da bicicleta. Também em termos de segurança, a obrigatoriedade da utilização dos capacetes (que não eram obrigatórios no meu tempo, mesmo já nos anos 1990). São coisas que salvam vidas, essa é que é a verdade.

Os métodos de treino e o conhecimento de quem planifica os treinos diferem muito do meu tempo. Havia uma coisa que sabíamos que tínhamos de fazer: pedalar e fazer muitas horas de treino. Eu ficava doente se passasse um dia sem andar de bicicleta. Hoje, os atletas têm um comportamento diferente. Treinam melhor e têm uma componente de gestão da época completamente diferente. Hoje, um atleta de estrada faz 40 a 50 dias por ano. Nós fazíamos mais de 100.

Talvez haja uma maior distância entre os ciclistas e o público. A nível das principais figuras, são distantes e protegidas. Nós estávamos mais próximos do público.

Talvez haja uma maior distância entre os ciclistas e o público. A nível das principais figuras, são distantes e protegidas. Nós estávamos mais próximos do público. A segurança, sobretudo nos grandes eventos, é maior e afasta os atletas. Por outro lado, hoje, os ciclistas são mais actores de um grande espectáculo televisivo. Todos gostamos de estar em casa e a acompanhar tudo o que se passa durante uma etapa inteira. A passagem dos corredores é uma questão de segundos, e na transmissão televisivas são várias horas.

O ciclismo continua a ser uma modalidade querida dos portugueses, mas longe da realidade do futebol. Faz parte de um conjunto de modalidades, como o atletismo, o andebol ou o hóquei. Mesmo que haja saudosistas a dizerem que antes é que era bom, há muita gente nova a gostar de ciclismo e há um aspecto novo: as mulheres gostam mais da modalidade e o nível do ciclismo feminino é bem mais alto.

Mais estratégia de equipa e menos individualista do que há 30 anos? Se fôssemos mais atrás, há 40 ou 50 anos, diria que sim, nessa altura era menos colectivo. Mesmo que hoje haja alguma crítica em relação à forma como os atletas são controlados à distância, a entrega e a solidariedade continuam a ser importantes.

O que se vê hoje é uma evolução na preparação de determinadas especialidades, nomeadamente o contra-relógio, em que os atletas têm condições de evoluir em relação ao que são as suas capacidades naturais. Há 30 anos, como agora, quanto mais completos, melhor.

No que diz respeito ao doping, não há muita diferença. A diferença é que hoje em dia os casos de doping no ciclismo são em menor número. É algo que vai sendo combatido, mas continua a haver casos. O desporto de alta competição continua a ter esse problema. Trabalha-se para ser “mais” e, nalguns casos, acaba por se infringir os limites daquilo que é permitido.

Vencedor da Volta a Portugal em 1982, 1983, 1985 e 1986

Já não se justifica o ensino do mesmo para todos

Nasci em 1991. Tenho 28 anos, quase 29. Assisti ao desenvolvimento dos computadores de secretária que se tornaram e se estão a tornar cada vez mais minúsculos e com o mínimo de peças possível. Percebi como funcionar com um smartphone. O tátil passou a fazer parte da minha realidade de um momento para o outro. A calculadora é um recurso que sempre tive ao meu alcance.

A média de idades de professores dentro da escola é de 50 anos (induzido por mim). Ora, fazendo as contas, isso significa que um professor que trabalhe numa escola, em média, nasceu na década de 1960. Na década de 1960, são vários os marcos históricos ligados à ciência e tecnologia: invenção da pílula anticoncecional; surgimento do primeiro supercomputador; a cassete em fita entra no mercado; a televisão a cores passa a ser elemento essencial numa habitação; a Arpanet (um primeiro protótipo da Internet) surge.

Agora, a questão que eu coloco... Será que esses mesmos professores estão a ser capazes de responder à realidade das novas gerações e à perspetiva que elas têm sobre o conhecimento e a sociedade em que vivemos...? Não quero ser injusto, mas não na totalidade. Os jovens de hoje respondem a estímulos para o desenvolvimento das soft skills e cada vez menos à memorização de fórmulas. Um grande número de professores com mais de 60 anos acha que as hard skills são as que devem ser mais valorizadas no processo de ensino e aprendizagem. 

Não querendo generalizar, pois gosto de pensar que existem várias exceções à regra, julgo que os colegas com 60 anos não estão aptos a responder aos novos desafios exigidos pelos alunos.

Não querendo generalizar, pois gosto de pensar que existem várias exceções à regra, julgo que os colegas com 60 anos não estão aptos a responder aos novos desafios exigidos pelos alunos que frequentam a escola atual. Ainda existe preconceito em relação ao uso do telemóvel como recurso pedagógico, à utilização das novas tecnologias e ao quebrar das barreiras (físicas e não físicas) da sala de aula. Já não se justifica o ensino em massa do mesmo para todos. Já não existe o decorar do nome dos rios e de todos os caminhos-de-ferro, do “ouve e memoriza”. O ensino deverá responder através da investigação e da pesquisa, da resolução de problemas, do trabalho em grupo, da promoção da autonomia, do espírito crítico, do “faça você mesmo”, da criatividade e originalidade, da comunicação.

Alguns dos professores com mais de 60 anos não se adequam, na forma de pensar, aos alunos que hoje estão nas salas de aula. Estes exigem muita energia (física e psicológica), precisam de diferentes estímulos quase de forma constante, caso contrário, perdem o interesse e não produzem. Ora, sendo esta uma profissão muito exigente e de desgaste rápido, é normal que professores com mais de 60 anos se sintam cansados e não consigam responder às exigências dos alunos.

Penso que a geração de professores a que eu pertenço, e as posteriores, estão cada vez mais aptas a responder a estes desafios, pois apesar de a formação universitária tal e qual está construída ser bastante redutora na promoção de ideias de ensino emergentes e alternativas à sala de aula tradicional, eu, jovem professor, sinto necessidade de responder de forma diferente às novas realidades e exigências da sociedade atual. Só assim me sinto útil e só assim me sinto realizado. Também só assim me reconhecem o trabalho que faço (não só alunos, mas também encarregados de educação).

Professor

Escreve segundo o novo acordo ortográfico

E se eu tivesse trinta anos e fosse professora?

O PÚBLICO colocou-me este difícil desafio. Colocarmo-nos no lugar de outro é sempre arriscado. Tenho consciência de que nos últimos tempos só tenho contactado com um corpo docente tão envelhecido como eu.

Quais as dúvidas que se me colocariam se voltasse a ter 30 anos e escolhido ser professora?

Reparem, não digo a “carreira docente”, porque essa acabou há muito para a maioria dos professores.

Imagino-me a chegar à escola onde fui colocada por concurso: tenho 30 anos, mestrado em Ensino e no ano anterior lecionei como substituta de uma colega de baixa. Horário incompleto. Não me importei, ganhava experiência e tempo de serviço. Com os alunos correu bem, a minha jovialidade aproximou-os.

Este ano, o horário é completo, oito turmas, vários níveis de ensino, muitos alunos. Como sempre aconteceu deram-me turmas cuja continuidade pedagógica não foi solicitada. Um dia, se ainda lecionar, também a invocarei. Pode demorar, implica pertencer ao quadro e as vagas não abundam. Mas tenho alguma esperança pois, pelos cálculos dos sindicatos, nos próximos anos muitos professores estarão reformados...

Dirigi-me à sala de aula, a turma estava agitada. Lembrei o estágio, sentei-me, liguei o computador, mas o Inovar não funcionou, não havia Internet, fiz a chamada pelas folhas que imprimi.

No primeiro dia, conheci colegas que estão na escola há 30 anos, também eles encontraram as regras já definidas. A diferença, diz-me com desalento uma colega próxima da reforma, é que na altura acreditavam não só na possibilidade de construir uma carreira, que o Estatuto consagrava, como também na renovação do ensino baseada na autonomia e responsabilidade do professor. Agora, continuou, as gerações dos 30, dos 40 e até dos 50 anos dificilmente ascenderão ao topo da carreira e a autonomia passou a jargão político. Sorri, não era importante pensar num futuro pouco auspicioso, mas lecionar.

Dirigi-me à sala de aula, a turma estava agitada. Lembrei o estágio, sentei-me, liguei o computador, mas o Inovar não funcionou, não havia Internet, fiz a chamada pelas folhas que imprimi. A agitação continuava. As seguintes não foram muito diferentes, mas não desanimei, talvez melhorasse.

No horário, os tempos não letivos não chegam para a burocracia exigida pelo Ministério da Educação. Assim, o essencial, preparar aulas, é quase impossível, mas não faz mal, porque as editoras colocam ao meu dispor planos de aula, materiais e questionários e tudo o que devia ser feito por mim, para os meus alunos e para as minhas turmas, mas que não tenho tempo para fazer, pese embora o decreto –​ flexibilidade e autonomia. O meu dia, depois das aulas, é ocupado a preencher grelhas, redigir relatórios ou sinalizações para o diretor de turma, encarregado de educação, professor do ensino especial ou proteção de menores. As avaliações implicam horas de preenchimentos de grelhas que contemplam os domínios e as ponderações das Aprendizagens Essenciais. Felizmente, nas atitudes, não necessito de mencionar os alunos que conversam, usam o telemóvel ou se deitam nas carteiras, recusando as tarefas solicitadas.

A desatenção nas aulas desconsola-me, refaço estratégias, aplico medidas universais ou envio-os para o apoio a cargo dos professores que, por serem mais velhos, beneficiam já de redução letiva.

O dia está a acabar e tenho de corrigir trabalhos; talvez amanhã. Tenho 30 anos e muita energia. Serei sempre assim?

Professora

Escreve segundo o novo acordo ortográfico

O prazer de trabalhar pela causa

Apesar de não conhecer o meu oponente, sei que, pela profissão que tem, lhe devo agradecer por todo o seu trabalho, sendo certamente uma inspiração para a minha geração.

Pelo menos 30 anos de experiência nos distanciam, mas será que já aos 30 anos saberia que as desigualdades sociais estavam na base dos maiores problemas ambientais mundiais? Há três décadas, a sobre-exploração de recursos, a construção desordenada, a poluição desenfreada e a banalização dos produtos de uso único impactavam o planeta, ações estas motivadas pelas conseguidas melhorias das condições de vida humana. Mas será que houve uma reflexão profunda dos impactos sobre os bens comuns e de que o planeta não teria capacidade de resposta para a pegada humana atual? Estando tudo isto tão focado no ser humano, será correto dizer que, para salvar o planeta, nos devemos focar nas problemáticas sociais? E que um ambientalista é então um agente social especializado?

Acredito que as ações dos ambientalistas por volta de 1990 devam ter sido extremamente interessantes, principalmente pelo surgimento da esperança proveniente dos primeiros grandes tratados ambientais internacionais (por exemplo, Rio de Janeiro 1992, Quioto 1997) e nacionais, com a criação da Lei de Bases de Ambiente (1987) e do regulamento sobre avaliações de impacto ambiental (1990).

Numa sociedade em que o dinheiro é que fala mais alto, com 17% da população portuguesa em risco de pobreza, ainda vamos a tempo de adotar medidas que façam realmente a diferença?

Mas será que, 30 anos depois, esta esperança ainda existe? É que a biodiversidade continua a desaparecer, tal como a relação das pessoas com a natureza. As empresas continuam a poluir diariamente e o Governo, contra tudo e todos, continua a aprovar projetos com enorme impacto ambiental em zonas de proteção da natureza. A minha geração, perante tudo isto, acredita que é a replicação de mudanças de comportamentos individuais que trará as verdadeiras transformações a nível global.

Numa sociedade em que o dinheiro é que fala mais alto, com 17% da população portuguesa em risco de pobreza, e 65% da população mundial a viver com menos de dez dólares por dia, ainda vamos a tempo de adotar medidas que façam realmente a diferença? Será que não temos de começar a pensar fora da caixa e encontrar soluções económicas que tragam consigo benefícios ecológicos e sociais? Motivar os cidadãos e as empresas por meios de compensações pela diminuição da sua pegada ecológica? Ou criando contrapartidas e realmente fiscalizar quem danifique o ambiente? E a educação ambiental? Não deve ser usada e disponibilizada como um direito para alertar todos para a importância da sustentabilidade ambiental, utilizando os objetivos do desenvolvimento sustentável como linha orientadora?

Acredito que o nosso trabalho é e será sempre o de promover a estabilidade ecológica do nosso planeta, mas deve transitar cada vez mais para envolver ativamente, e obrigatoriamente, tudo e todos! Começando claramente pelos agentes governativos que, inequivocamente, terão de ser os promotores da mudança. Estes devem identificar as oportunidades à sua escala, promover a ação cívica e valorizar o seu património, aproveitando para recuperar os valores culturais associados ao meio natural das suas comunidades, criando riqueza na preservação do meio natural.

É um prazer ter a oportunidade de trabalhar para esta causa, nunca esquecendo que a natureza e a educação são a base de tudo e devem estar disponíveis para todos. Temos é de voltar às tradições e começar a navegar à bolina em vez de contra a corrente, aproveitando as forças contrárias para progredir.

Biólogo da Associação BioLiving e do Sector de Conservação da Natureza e Educação Ambiental do Município de Lousada

Escreve segundo o novo acordo ortográfico

Um ambientalista não pode ser fundamentalista

A actividade cívica ambientalista tem de ser bem preparada, com informação, formação e conhecimento. Um ambientalista não pode ser fanático, nem idealista, assim como nunca deve estar inscrito em partidos políticos, nunca aceitar cargos políticos e, finalmente, nunca deve aceitar qualquer remuneração pela sua actividade cívica ambiental.

Infelizmente, na minha geração houve muitos maus exemplos, como, por exemplo, considero ser o activista americano Albert Arnold (Al) Gore. Um activista ambiental nunca pode deixar-se cair no egocentrismo, como é um exemplo típico a jovem activista Greta Thunberg.

É fundamental que o ativismo ambiental não se deixe cair naquilo que a sociedade actual mais gosta e a comunicação social mais explora: as manifestações públicas. São única e exclusivamente espectáculos de show off muito aproveitados pelos partidos políticos, governantes e gente sem escrúpulos.

Um exemplo relativamente recente passou-se em Coimbra, onde no início do quarto trimestre de 2019, num sábado, houve uma manifestação da juventude estudantil, em apoio à activista Greta, contra o desleixo e a incapacidade dos governantes mundiais na resolução ou moderação dos problemas ambientais, particularmente do aquecimento global actual. No início da semana seguinte, numa festividade dos estudantes universitários (cortejo das latas ou latada), muitos dos que estiveram na manifestação do sábado anterior foram colaboradores activos no lançamento de lixo sólido (latas, garrafas, plástico) e líquido (borrifos e despejo de bebidas alcoólicas) para as artérias urbanas por onde passou o cortejo. Só de latas foram recolhidas pelos serviços da autarquia 40 toneladas. Valeu a pena terem estado na referida manifestação “ambientalista” que mais não foi do que show off.

Um activista ambiental nunca pode deixar-se cair no egocentrismo, como é um exemplo típico a jovem activista Greta Thunberg.

Há activistas jovens que sabem bem como actuar. Conheço um (membro da Associação “Não Lixes”) que, quando vai falar para jovens estudantes sobre poluição sólida, percorre a área arborizada da escola aonde vai, e recolhe o lixo sólido (maioritariamente latas, garrafas e invólucros de plástico) que os alunos lançaram para o chão (tendo a escola recipientes para recolha selectiva de lixo sólido) e, no início da palestra, despeja-o no chão da sala, para mostrar aos jovens alunos o que não devem fazer. Estive, uma vez, simultaneamente, com esse jovem numa acção dessas numa escola e recolhemos seis sacos de grande volume com o lixo sólido que os alunos tinham espalhado no espaço verde da escola.

Há activistas que considero “líricos”, pois além de não fazerem ideia do que é ambientalismo não consultam ninguém que os elucide. Soube de um grupo de activistas desses que obteve por sementeira uma dada quantidade de bolotas germinadas. Levaram-nas de automóvel e iam espalhando as bolotas germinadas pelos ecossistemas que iam atravessando, sem qualquer cuidado ecológico, sem saberem se o ecossistema era apropriado para carvalhos, etc. Isto é não só lirismo como também completo desconhecimento do que é activismo ambiental.

Um ambientalista não pode ser fundamentalista. O fundamentalismo é sempre prejudicial e leva a resultados contrários aos pretendidos, como os que toda a gente conhece, no desporto, nas religiões e na política. Tenho verificado que os jovens têm muita tendência para o fundamentalismo ambiental. Por acaso, na minha juventude não fui fundamentalista, mas colaborei em manifestações públicas. Porém, verifiquei que não tinham efeito nenhum. Por isso, prefiro ir a escolas, pois o que é necessário é alertar a juventude para o estado em que estamos a deixar-lhes a “gaiola” (globo terrestre) completamente poluída (plena de lixo sólido, líquido e gasoso), quase sem florestas (apenas 20% das que existiam quando aparecemos na Terra) e extremamente mais aquecida. Isto para que eles venham a ser políticos e governantes conscientes e não como os que temos tido mundialmente.

Lamentavelmente, há poucos jovens a irem às escolas. Isso dá muito trabalho, ocupa muito tempo e é dispendioso (um activista ambiental não pode ser remunerado). Assim, preferem as ditas manifestações, que não servem para nada, assim como pequenas actividades, que, também, não são mais do que show off, como, por exemplo, plantar árvores em dias comemorativos (Dia da Árvore, Dia do Ambiente e quejandos), que os governantes e políticos aproveitam sempre, assim como a comunicação social. Actualmente não participo nesses dias e até já foi publicado no jornal PÚBLICO um artigo meu intitulado “A farsa dos dias comemorativos” (edição n.º 2928, p. 11, 1998).

Biólogo

Parte do que sou hoje, devo-a a todos eles também

O que penso sobre os astrónomos com mais de 60 anos? No momento em que esta questão me foi colocada, a resposta não foi imediata. A primeira imagem que poderá vir à cabeça será o típico cenário no contexto de uma conferência internacional, em que astrónomos mais experientes sentados na primeira fila de um amplo auditório questionam convictamente novas abordagens científicas propostas por uma geração de cientistas mais jovens.

É difícil apontar o que foi mais ou menos desafiante para uma geração que há mais de 30 anos lutou arduamente para fazer da astronomia em Portugal aquilo que é hoje. Fácil não foi de certeza! Um dos nomes mais incontornáveis da astronomia portuguesa será a professora Teresa Lago, que contribuiu não só para a criação de uma licenciatura especializada nesta ciência exacta em Portugal, mas também na construção do Centro de Astrofísica da Universidade do Porto (CAUP). 

Tudo isto impulsionou o nascer de uma geração de astrónomos com experiência internacional e que temos o privilégio de ter como professores. Talvez no início dos anos 1990 tenha sido mais fácil para os alunos conseguirem integrar o corpo docente da universidade do que hoje em dia. No entanto, acredito que outros desafios surgissem.

Tive a feliz sorte de me cruzar com astrónomos incríveis que já completaram 60 anos de idade. É graças a essa geração que a minha geração pode aprender a ser astrónomo(a) em Portugal e no mundo.

A ascensão tecnológica a que temos assistido nestas últimas décadas leva-me a admitir que a minha geração tem a vida bastante facilitada comparativamente há 30 anos. Hoje em dia, o acesso à informação é simples e está à distância de poucos cliques. Podemos consultar artigos científicos facilmente, sem ter a preocupação se a biblioteca da faculdade tem disponíveis cópias físicas ou não. Podemos trocar mensagens com colaboradores no estrangeiro e enviar candidaturas para concorrer a bolsas, projectos ou colocações de trabalho por correio electrónico. Podemos até fazer videoconferências sem termos de nos deslocar para outro país. Tudo isto contribuiu para que a duração dos doutoramentos fosse reduzida em alguns anos.

Por outro lado, o facto de a informação circular mais rapidamente cria também outros desafios, nomeadamente a concorrência. Hoje em dia, publicam-se mais artigos científicos, são feitas mais propostas de observação para estudar astros específicos, existem mais pessoas a candidatar-se ao máximo de oportunidades disponíveis para assegurar mais uma temporada como astrónomos. A competição é real. As oportunidades para leccionar nas universidades portuguesas são poucas e não contribuem para a renovação gradual do corpo docente.

O que tenho assistido ao longo destes últimos anos é que muita da massa cinzenta acaba por emigrar e nem todos regressam às origens. Se neste momento as oportunidades para os doutorados darem aulas nas universidades são escassas, pergunto-me qual será o panorama nas universidades dentro de dez a 15 anos, quando muitos dos actuais professores universitários se aproximarem da idade da reforma. E, para aqueles que optam por deixar a academia, será que os doutorados hoje com 30 anos têm o mesmo valor no mercado de trabalho de há 30 anos?

Como astrónoma de 29 anos, penso que os astrónomos com mais de 60 anos são uma referência. Apesar de a grande maioria dos investigadores com quem tenho interagido se encontrar numa faixa etária mais jovem, já tive a feliz sorte de me cruzar com astrónomos incríveis que já completaram 60 anos de idade. É graças a essa geração que a minha geração pode aprender a ser astrónomo(a) em Portugal e no mundo. Parte do que sou hoje, devo-a a todos eles também.

Astrónoma

Ser astrofísico em Portugal em 2020

O tempo não perdoa, diz-se. Mas, aqui, apetece-me antes dizer: como é bom ver o que o tempo faz!

Globalmente, estas foram três décadas fantásticas para a ciência e para a astronomia em particular. Não só pelo enorme avanço tecnológico (em termos de telescópios, detectores, bases de dados, meios de cálculo, comunicações, etc.), mas também pelos assombrosos resultados científicos alcançados. Para além disso, e igualmente marcante, a autêntica explosão no desenvolvimento das comunicações abriu acessos únicos à participação, à colaboração e à partilha entre investigadores, em qualquer parte do mundo.

Em Portugal, em particular, a astronomia passou nestes 30 anos de um estado de dormência, ou quase inexistência como área científica, a uma fase de espantosa afirmação e competitividade internacional, não muito diferente dos restantes países europeus. E, apesar do condicionalismo natural da sua dimensão como país, Portugal participa, em pleno, nas organizações europeias coordenadoras nesta área, como membro da ESA [Agência Espacial Europeia] e do ESO [Observatório Europeu do Sul]. Os astrónomos que trabalham em Portugal têm assim oportunidade para participar nos novos desenvolvimentos, para tirarem proveito pleno das novas experiências, ou mesmo para se envolverem na concepção e planeamento dos futuros projectos. Têm oportunidades e parcerias a explorar, que há 30 anos eram completamente inacessíveis, e apenas uma ambição. Há uma comunidade de astrónomos que se pôde iniciar, estabelecer, crescer e afirmar-se internacionalmente. Que pode participar, ser ouvida, e até coordenar. A concretização de um sonho quase impossível há 30 anos.

A avaliação que faço das condições actuais para a ciência em Portugal é muito positiva.

Naturalmente que invejo, no bom sentido, as oportunidades que hoje se abrem aos meus colegas com 30 anos. O que eu teria dado para, então, poder ter tais condições…

Certamente que também há dificuldades, mas elas são apenas outras dificuldades, e não muito diferentes das existentes em outros países europeus.

O financiamento é limitado. Mas será que alguma vez será compatível com os anseios individuais? Mais ainda, há oportunidades excelentes, mesmo se altamente competitivas, para assegurar agora um financiamento generoso de projectos. Por exemplo, as bolsas do European Research Council, de que muito me orgulho de ter ajudado a criar e a definir objectivos, e que vejo continuar a afirmar-se como exemplo e referência, nível mundial.

Grande parte das colocações de investigador é temporária. Mas isto não difere do que se passa nos outros países, mesmo nos de maior dimensão e com longa tradição de investigação. No Reino Unido, apesar dos 200 anos recém-celebrados da Royal Astronomical Society, só cerca de 10% dos doutorados em astronomia prosseguem uma carreira de investigação a longo prazo. Na Alemanha, esta era uma das questões que recordo serem frequentemente abordadas nas reuniões do International Advisory Board da Alexander von Humboldt Foundation, que integrei há alguns anos. E por aí fora.

Esta é uma questão complexa, com diversas vertentes de vantagem e prejuízo, não creio que tenha solução única e completamente positiva.

A competição internacional é real e dura, nem sempre eticamente satisfatória. Tal como tudo o mais na vida.

Mesmo assim, a avaliação que faço das condições actuais para a ciência em Portugal é muito positiva. Afinal, talvez só percorrendo um caminho se consiga avaliar do seu impacto. Aprecio o progresso solidamente construído e acredito que precisamos de agarrar, com ambas as mãos, as oportunidades com que nos cruzamos para continuar esta evolução francamente positiva. Mesmo que isso exija um grande esforço. Sei que também proporcionará um enorme gozo.

Astrofísica

A oferta de comida “barata” faz-se com baixos salários

Gostaria de começar por dizer que teria sido impossível, hoje em dia, a nossa profissão ser tão reconhecida e valorizada sem o contributo e dedicação dos cozinheiros que há 30 anos já sabiam picar cebolas. Foram estes profissionais que abriram o caminho para que outros, como eu, hoje em dia pudéssemos ser cozinheiros. 

Nasci há precisamente 30 anos. Lá fora, o muro de Berlim ruía e a capital da ‘movida’ era Madrid. Ouvi dizer que na altura por Lisboa “bombava” o Bairro Alto (BA) com o Pap’Açorda ou o Tavares. O Cantinho da Paz fazia o Poço dos Negros cheirar a especiarias e abria o primeiro restaurante de “sushi”, o Bonsai, onde se podia comer peixe cru com pauzinhos, na Rua da Rosa. Lisboa começava então a abrir-se a novas tendências gastronómicas, num país muito tradicional e conservador à mesa...

Quem na altura haveria de imaginar que, passados 30 anos, Portugal é considerado, pelo 3º. ano consecutivo, o melhor destino turístico do mundo pela World Travel Awards. Mas creio não ser difícil constatar que nem todas as mudanças foram boas. Lisboa perdeu uma grande “camada” de autenticidade. Os restaurantes típicos tradicionais portugueses onde podemos comer uma boa mão de vaca com grão, até mesmo as “tascas”, com os petiscos dos galegos e com vinho de produção local servido numa malga gelada, estão a desaparecer. A “Vibe” dos loucos anos 1980 do BA foi comercializada, banalizada e poluída com restaurantes e bares que acrescentam muito pouco ao panorama gastronómico, com as tascas em vias de extinção e a ser substituídas por “restaurantes turísticos” com montras com robalo e dourada de aquacultura da Grécia ou salmão da Noruega.

Hoje, temos foodies, gastrónomos e jornalistas especializados em comida, serviços de entregas aos domicílio, sites de opiniões e rankings acerca de restaurantes onde podemos constatar a cada vez maior diversidade de oferta.

Mas nem tudo são más notícias. Há, hoje em dia, cada vez mais, mais diversificados e melhores clientes. Os foodies e as redes sociais democratizam o acesso aos restaurantes “finos”. Há novos públicos para quem esta experiência estava completamente fora do alcance, houve um boom e muitas coisas aconteceram. Hoje, temos foodies, gastrónomos e jornalistas especializados em comida, serviços de entregas aos domicílio, sites de opiniões e rankings acerca de restaurantes onde podemos constatar a cada vez maior diversidade de oferta.

Mas não posso deixar passar esta oportunidade para partilhar a minha preocupação com as condições para a classe, que continuam a não ser as melhores. A oferta de comida “barata” faz-se com baixos salários, já para não falar das falências de restaurantes, das falências fraudulentas, da fuga aos pagamentos à segurança social, entre tantos outros exemplos. O regime de estágios que exploram quem segue um sonho. Quem, acabado de sair da escola, quer à força (sem saber de facto) ir para um restaurante com estrelas Michelin apanhar salsa durante três meses e que de lá sai sem saber fazer uma maionese, iludido pelo dia em que viu um chefe mais velho a brilhar na televisão.

A saúde mental dos profissionais da indústria não é a melhor (muitas vezes acaba num caminho de destruição e dependências). Na cozinha, o trabalho é sempre sob pressão máxima, muitas vezes em saturação. Nos hotéis, onde os copeiros e as governantas abdicam da família e amigos em prol de jornadas de trabalho repartido, muitas vezes seis dias por semana, a troco do ordenado mínimo nacional, os proprietários fazem milhões e pagam 6% de IVA sobre o alojamento. Ou podemos ainda pensar, em retrospectiva, na fuga de profissionais para o estrangeiro. Mão-de-obra qualificada, de facto formada em Portugal, mas que parte à procura de melhores condições de vida. E a sua substituição por trabalhadores estrangeiros, não qualificados, e muitas vezes vítimas de esquemas abusivos em virtude de situações legais periclitantes. Mas conto com o seu apoio incondicional, agradecendo-lhe do fundo do coração, para uma revisão da carga fiscal. Tenho todos os meses de pagar prestações sobre uma dívida que nunca contraí, sentindo-me, assim, casado com o Estado, mas vítima de violência doméstica.

Acabo com as boas notícias. Estou, como muitos da minha geração, a operar num projecto recente por minha conta e risco. Posso atestar que há espaço para muitas e mais diversificadas ofertas de qualidade. As cartas não têm de ser caras, mas têm de ser sérias e com produtos genuínos e oferecer aquilo que melhor sabemos fazer: prazer da boa mesa.

Chef

Esquecer o passado é como retirar as raízes a uma árvore

Não me reconheço na frase “no meu tempo”. O meu tempo não existe, este ainda é o meu tempo e o teu também, mas irá continuar.

Nesse então, acreditava-se na técnica. Copiava-se o passado à exaustão. A criatividade era cautelosa e castrada, interpretava-se mais do que, verdadeiramente, se criava. Havia uma certa indulgência. Mitigava-se a importância nos pontos de cozedura e outras pechas que seriam hoje imperdoáveis.

As boas recordações são as dos sabores, quer os naturais dos produtos quer os que a cozinha tinha como foco principal na confecção. Na década anterior, a cenoura ralada com a folha de alface e a “rosa” de pele de tomate marcavam presença em muitos restaurantes. Ainda não se confundia culinária/cozinha com gastronomia, os festivais gastronómicos por esse país fora não existiam, mas nada disso impedia que, só para dar um exemplo, a pera rocha tivesse sabor, aroma e texturas únicas. A indústria alimentar ainda respeitava estações. As peras não iam para as câmaras da morgue, ainda verdes, nem ficavam meses a fio conservadas sem nunca mais passarem de verdes.

A tua e a minha cozinha, os gostos pessoais ou os dos nossos clientes, inconscientemente ou não, estão alicerçados no passado. Imaginando o teu copo meio cheio, vejo a oportunidade para a redenção e libertação dos clichés actuais.

Há 30 anos, em cozinha, o conhecimento era limitado. Em boa hora se concluiu que a partilha de experiências, além de positiva, era fundamental. Não à velocidade actual, à semelhança de outros muros, começaram-se a esbater fronteiras, essas sim, gastronómicas. A estética nos empratamentos deu um pequeno passo.

Na nossa profissão de cozinheiros, independentemente de cargos ou títulos, cozinhar deve ser transversal a outras disciplinas, a outras intervenções. Há inúmeras questões sociais e políticas onde devemos dizer: “Presente.”

Não te deixes cativar por discursos aparentemente sérios, aparentemente fundamentados em que os dislates e ignorância têm, apesar de tudo, a capacidade de te influenciar. Irás ser adorado e vilipendiado. Faz parte, como o açúcar e o sal. Pablo Picasso dizia: “Os bons artistas copiam, os grandes artistas roubam.”

A cozinha não deve seguir o mau exemplo da indústria musical, em que a cada minuto aparece uma música nova e em seguida é deitada para o lixo. A dita cozinha de autor, na maior parte dos casos, não passa da cópia da cópia da cópia...

A ética contra a vaidade e a convicção de mão dada com a tenacidade. É um pouco como numa corrida de estafetas. Passo-te o testemunho que irás passar a outro colega e assim sucessivamente. Há todo um património a preservar e, porque não, a adaptar aos novos tempos.

Esquecer o passado é como retirar as raízes a uma árvore. Tudo o que ela sustém desaba à mínima tempestade. São necessárias referências, mas também é preciso objectividade para separar o trigo e o joio.

Pelas leis da natureza, neste que irá ser o teu tempo e já não mais o meu, vais ter desafios importantes e sem dúvida estimulantes.

As massas que todos aprendemos a fazer, da folhada à brisée, serão menos importantes do que a massa cinzenta que irá ser determinante para um futuro próximo que se avizinha. Pensar que como disse Stephen Hawking, “ao contrário das leis do Homem, as leis da Natureza não podem ser quebradas”.

Os maus hábitos de consumo, apoiados num certo novo-riquismo, que tiveram entrada recente nos cardápios e conceitos de alguma restauração, são uma pecha que não deve ser ignorada. A vossa geração pode e deve aprender com os erros do passado.

Prefiro a Evolução à Revolução e por isso mesmo defendo que não é necessário abandonar tudo o que tem vindo a ser feito, em muitos dos casos basta reduzir. Em linguagem figurada, imagina num passado muito passado em que se pensava e se construíam pontes imaginárias que nos continuam a ajudar a atravessar para a outra margem. Citando Heráclito, vê como este passado se adapta tão bem ao presente e para o que há-de vir: “Nada é permanente, excepto a mudança.”

A tua e a minha cozinha, os gostos pessoais ou os dos nossos clientes, inconscientemente ou não, estão alicerçados no passado. Imaginando o teu copo meio cheio, vejo a oportunidade para a redenção e libertação dos clichés actuais. Zeitgeist, diriam outros.

Perante a adversidade, ou enfrentamos as coisas como desafio ou como obstáculo. A única coisa que importa é colocar em prática, com sinceridade e seriedade, aquilo em que se acredita.

Foco e simplicidade. Simples pode ser mais difícil que complexo.

Chef

Uma geração à procura de um retrato