Neonazis agridem voluntárias que distribuíam comida a sem-abrigo no Porto. PSP confirma detenção de suspeito

Associações que actuam no Porto vão organizar reunião conjunta para coordenar posição comum. Um dos suspeitos das agressões recusou-se a ser identificado e desferiu um murro num dos polícias.

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Voluntárias dizem ter sido vítimas de empurrões e murros, além de terem sido injuriadas Adriano Miranda
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Duas mulheres que integram equipas de voluntários que distribuem ajuda alimentar a pessoas em situação de sem abrigo, no Porto, foram injuriadas e vítimas de “empurrões e murros” por dois homens, que, depois de terem feito a saudação nazi, as responsabilizaram pelo aumento de imigrantes no país. De acordo com um comunicado da PSP enviado ao PÚBLICO, um dos intervenientes, de 24 anos, foi detido na noite desta terça-feira (tendo ficado obrigado a apresentações semanais perante as autoridades policiais da área da sua residência) e o outro (27 anos) foi apenas identificado no local.

A agressão ocorreu na noite desta terça-feira num "beco" ao lado da Rua de Júlio Dinis, junto à Rotunda da Boavista, onde actuam associações que distribuem comida a pessoas em situação de sem abrigo. Segundo os relatos recolhidos pelo PÚBLICO junto de testemunhas que preferem não ser identificadas, os dois homens estariam “alcoolizados e em tronco nu” e fizeram a “saudação nazi” quando se dirigiram ao grupo de voluntários, empurrando um deles contra a carrinha da associação. "Identificaram-se como simpatizantes do Chega e disseram que a culpa de os imigrantes estarem a aumentar era nossa, porque andamos a ajudá-los ao distribuir comida na rua", relatou a mesma fonte.

A PSP refere em comunicado que foi chamada ao local porque “recebeu a comunicação de uma ocorrência de desordem na via pública, nomeadamente agressões e injúrias”. Lá chegada, a patrulha contactou com duas mulheres, de 45 e 50 anos, “as quais informaram que, momentos antes da chegada da PSP, tinham sido vítimas de empurrões e murros, bem como injuriadas por um homem e ainda injuriadas por outro homem, com o intuito de as expulsarem à força daquele local”.

A PSP identificou os dois sujeitos. Um dos homens (o suspeito das agressões) recusou-se a ser identificado e começou mesmo a empurrar os agentes da polícia, “tendo de seguida, e sem que nada o fizesse prever, desferido um murro num dos polícias, sendo ali detido”.

“O detido, homem com 24 anos, foi presente às autoridades judiciárias competentes, sendo-lhe aplicada a medida de apresentações semanais perante as autoridades policiais da área da sua residência, enquanto o outro interveniente, homem de 27 anos, apenas foi identificado no local”, esclarece a PSP.

Quanto às vítimas, “não apresentavam lesões físicas visíveis” e prescindiram de se deslocar a uma unidade hospitalar.

Ao que o PÚBLICO apurou junto de associações que dispõem de equipas de rua que actuam na cidade, está a ser organizada uma reunião conjunta para coordenar uma posição quanto a este tipo de ocorrências, nomeadamente porque o episódio terá levado alguns destes voluntários a admitir cessar a distribuição alimentar em algumas artérias da cidade por receio de serem agredidos.

No Facebook, o ex-presidente da Rede Europeia Antipobreza Sérgio Aires escreveu que estas equipas de rua “foram ameaçadas violentamente e impedidas de fazer o seu trabalho”. “Consta que também estes nazis andam há semanas a distribuir comida pelos sem-abrigo portugueses e a incentivar ao ódio contra os estrangeiros que se encontram a viver na rua”, lê-se na mesma publicação, em que o actual recandidato pelo Bloco de Esquerda à Câmara do Porto equipara o sucedido à actuação do partido neonazi Aurora Dourada, na Grécia, cujos membros, em 2012, "vestiam trajes com simbologia nazi e gritavam 'Não devíamos alimentar estrangeiros ou imigrantes'".

O grupo neonazi 1143, liderado por Mário Machado, tem destacado nas suas redes sociais as acções que tem feito no Porto, nomeadamente de distribuição de comida. “Durante dois dias, percorremos as ruas do Porto para estar ao lado de quem mais precisa. Estivemos com os sem-abrigo, levámos comida e uma palavra amiga. Não mudámos o país, mas mudámos o dia de alguém (...) Viva Portugal e os Portugueses”, escreveu na publicação.

Recorde-se que, na terça-feira, o actor Adérito Lopes foi agredido por um alegado grupo de neonazis e os actores d’A Barraca também terão sido ameaçados. O PÚBLICO sabe que no grupo estava pelo menos um dos elementos envolvidos na morte de Alcindo Monteiro, um português nascido em Cabo Verde que aos 27 anos foi vítima de violência racial por neonazis, a 10 de Junho de 1995, e que morreu dois dias depois. Entre os alegados agressores, estarão também elementos com ligações aos Blood and Honour, um grupo neonazi.

Ao PÚBLICO, que questionou a Câmara Municipal do Porto sobre estas agressões, a fim de perceber se estão a ser equacionadas medidas susceptíveis de garantir a segurança das equipas de rua, o coordenador do Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo (NPISA) e vereador da Coesão Social, Fernando Paulo, adiantou que a agressão vai ser analisada na próxima reunião daquele núcleo, a realizar-se na quarta-feira, dia 18 de Junho. "Confiamos plenamente nas autoridades competentes para a investigação dos factos e para a garantia da segurança de todos os que, com dedicação, solidariedade e humanidade, prestam apoio às pessoas em situação de vulnerabilidade na nossa cidade", afirmou a autarquia.

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