Nós, filistinos?

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Com uma curiosidade irresistível, levei, da última papelaria de Sacavém, a edição do PÚBLICO do passado dia 2 de Julho de 2024. Queria ver onde estava Fausto Bordalo Dias, desaparecido um dia antes. Imaginei-o a ocupar grande parte da capa, se não a totalidade, o seu perfil iluminado num fundo negro. Mas, sem surpresa, o músico apareceu no topo, numa linha horizontal, entre o logo do PÚBLICO e os anos da sua vida. Seguiam-se o nome, o título e a localização das páginas do obituário no interior do jornal (as primeiras). Já o destaque central era oferecido a um homem que parecia correr, feliz, na direcção de uma desfocada esfera.

Abri o jornal e, com prazer, li os textos de Mário Lopes e Nuno Pacheco dedicados ao músico que descobri tarde, nos primeiros anos da universidade (obrigado, Professor). Depois, seguindo a paginação, entrei no espectáculo do futebol, com a descrição do emocionante jogo, estatísticas, tabelas, uma análise de árbitro e, claro, as habituais classificações de 0 a 10.

Adepto de futebol, voltei a ser assaltado por uma leve e familiar inquietação. Por que razão não teve Fausto direito maior à primeira página? Porque não foi ele, com a sua obra, o lugar da capa? A resposta, provisória (haverá outras, certamente), tem estado nas páginas seguintes, em especial aquelas reservadas aos colunistas. Afinal, nos seus textos, não é habitual qualquer referência às obras das artes ou à cultura (não vou agora distinguir as primeiras da segunda, lamento). Ouso dizer que é muito raro, raríssimo. Excepções? Claro que as há. Mas, de um modo geral, aceitamos este facto: a cultura, nas suas declinações estéticas e artísticas, tornou-se um tema menor, um assunto longínquo tanto à esquerda como à direita.

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Se sairmos do refúgio que ainda é o PÚBLICO e nos aventurarmos no que resta da nossa imprensa, então o que descobrimos é uma paisagem, em cada dia que passa, tomada pelo deserto. Sem rodeios, grande parte da nossa imprensa deixou de reconhecer, não sente a falta, não conhece, desconhece o universo das artes. Não chega ao ponto do desprezo, sentimento que a televisão exibe com a mais imbecil altivez – mas podemos falar de uma indiferença envergonhada ou de uma ignorância adolescente. Detesto o trovão dos apocalipses, mas este exemplo leva-me a concluir, com a devida prudência, que o que se observa nos nossos meios de comunicação social é uma erosão da nossa memória cultural e colectiva, fenómeno que parece contradizer a vaga memorial dos últimos 20, 30 anos.

Dirão os leitores que o PÚBLICO tem o Ípsilon e não é o Libération. Pois não, não é, mas permitam-me a comparação, que, sendo extravagante, pode ser um pouco fértil. Quem percorrer as capas do diário francês (dos últimos 10, 15 anos) vai encontrar, por exemplo, retratos de Lemmy Kilmister (vocalista dos Motorhead), Paul Auster, David Bowie, Prince, Françoise Hardy, Anouk Aimée, Corto Maltese, Roger Corman. Laurent Cantet, Dragon Ball (ou, se quiserem, Akira Toriyama), Shane MacGowan ou Charlotte Gainsbourg. Nem todos (mas quase todos) são reis e rainhas da capa. E mesmo os que não o são conservam num tableau de papel a maior das solenidades: elegante, perene. Ah, mas isso é fruto do design e da cultura do jornal (que compreende a cultura pop com uma inteligência atenta que nos escapa), responder-me-ão. Certo, mas são homenagens sem as quais viveríamos muito pior (as notícias de França não são animadoras, é certo) e sobretudo devolvem à cultura (e ao fenómeno artístico) um lugar que é o seu: o do espaço público e o da esfera pública (no sentido político do termo). É lá, com as suas personagens (boas e más), que ela deve estar, frágil e monumental. Ora, se isso não acontece, porque escondida (ou rebaixada), a sua ausência permite deixar-nos, todavia, um espelho que gostaríamos de não ver: o da própria imprensa e, quem sabe, o seu próprio: o da cultura na sua mais nobre, histórica e comum acepção.

Não! Este é um fim demasiado sombrio. Nessas capas, incluindo a do dia de 2 de Julho (que as páginas seguram), há algo que contraria a lei da morte: a via e a vida da transmissão. Toma, leva, olha e lê. Assim foi o Fausto e no futuro haverá outros.

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