Cartas ao director

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Professores, precisam-se

É conhecida a ansiedade com que milhares de docentes aguardam a idade de reforma para se verem livres de situações pouco compatíveis com a postura desejável de alunos em contexto escolar. Será por isso difícil atraí-los para continuar no activo. Outras medidas de curto prazo avançadas poderão ser eficazes, tais como o corte na mobilidade estatutária que poderia até ser superior a 25%. Todavia, há situações que carecem de alterações profundas de médio e longo prazo: a adaptação/simplificação dos programas para alunos cujas expectativas académicas não ultrapassem a escolaridade obrigatória; a alteração da Lei do Estatuto do Aluno tornando-a mais eficiente através de uma consciencialização mais profunda de alunos e encarregados de educação das suas consequências com vista à dignificação da escola e seus agentes.
José M. Carvalho, Chaves

Picardias políticas

Cotrim, o candidato da IL, ofereceu um livro na Feira a Catarina Martins. Louçã verberou o atrevimento, pelo facto de o autor do livro ter sido um “apoiante de Pinochet”. Cotrim reagiu, dizendo “não reconhecer autoridade a quem tinha escolhido seguir Trotski”. Louçã rematou a polémica com quem seguia poses de “galifão”…

Dir-se-ia que a aritmética eleitoral é, para não usar o nosso melhor vernáculo, bem “lixada”! Com o empate técnico de subtis diferenças, ninguém se ficou a rir. A AD não descolou e engoliu em seco; o PS encheu o peito de ar e ficou a assobiar para o lado; a malta da porrada do Chega, desta vez, borrifou-se no Ventura; o BE ficou a olhar o balão a esvaziar-se; o PC segue o lema da resiliência máxima: morrer mas devagar; a IL ficou às voltas para saber onde ancorar a bandeira liberal. Montenegro, logo após os resultados eleitorais, ofereceu-se para apoiar António Costa para a presidência do Conselho Europeu, caso os fados da correlação de forças entre os grandes da Europa venham a estar para aí voltados. Por sua vez, o “galifão” Cotrim já disse que não apoia “atitudes paroquiais”. O homem tem coluna vertebral! Falta só saber qual será a paróquia política de “acolhimento” em que se vai arregimentar. Ou será que vai posar orgulhosamente só?…

E ei-los que partem, os eleitos, quais emigrantes candidatos a uma vida melhor na Europa, que isto por cá ganha-se mal e a vida está pela hora da morte. Depois é mesa, comida, roupa lavada, umas ajudas de custo, umas despesas de representação. Enfim, é outra consideração!… De mais a mais, e, com um bocado de sorte, um segundo mandato, e está feito, o aconchego de uma reformazita. Que isto por cá é uma vida inteira para nada. Só Deus sabe!
Hélder Gomes, Odivelas

Não basta à “mulher de César” ser séria…

As suspeitas sobre concursos na carreira de magistrados já não nos deixam perplexos, o que é terrível! A justiça é uma instituição fundamental num Estado de direito! Representa, entre todas as instituições, a que é dotada de uma virtude com valor absoluto. Todas as outras virtudes — tolerância, generosidade e mesmo os talentos pessoais — só são boas ao serviço da justiça. As respostas que sobre este problema dá o sindicato dos magistrados reduzem a justiça a uma questão técnica, só acessível aos magistrados, desvalorizando as críticas e, o que é pior, o sentido ético do seu funcionamento. Penso que esta visão tecnicista serve apenas o espírito corporativista. Mas a razão da Justiça não pode reduzir-se à aplicação das leis. Aristóteles dizia: “Não é a justiça que faz os justos, mas é o justo que faz a justiça.” Aplicar a lei não significa, só por si, que a justiça funciona. Como instituição, a justiça não é separável dos valores que dão sentido às leis.

Os casos que têm sido referidos nos jornais dão-nos a sensação de que se perdeu a preocupação com a formação moral dos que aplicam a justiça. Mas é no sentido exemplar dos operadores da justiça que se desenvolve a confiança na instituição.

Desde a Antiguidade, a justiça é representada por uma deusa de olhos vendados, o que significa que trata todos por igual, sem distinção, de forma imparcial e objectiva, a começar com a responsabilidade do exemplo pelos seus agentes. É este sentido que dá valor às regras e que torna a justiça a instituição que representa as virtudes da democracia.
Hoje, as instituições vivem uma profunda crise e isso reflecte-se na degradação do próprio sistema democrático. Não se pode sair desta crise recorrendo apenas a processos administrativos: é fundamental a educação para os valores! E esta é a grande lacuna nas escolas e na formação deontológica profissional. Faltando a exemplaridade do justo na aplicação da justiça, teremos a porta escancarada para o triunfo dos “chicos-espertos”!

João Baptista Vasconcelos Miranda Magalhães, Marco de Canaveses

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