O homem que se chama Teatro

Um verdadeiro fractal da tua história que se confunde e replica na história do teatro brasileiro, na história do Brasil e, em último caso, na história do mundo desde a segunda metade do século XX.

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Querido Zé,

Tal como atravessar uma rua, de uma margem a outra, do sul ao norte, há um mundo que se cria. Um após o outro, o movimento certeiro dos passos faz os caminhos se desenharem. Acende as faíscas e, por incrível que pareça, gera incêndios. Isso acontece quando sabemos definitivamente tocar o lugar, quando temos a resiliência de sonhar uma arquitextura de constelações livres de quem é e faz história.

Peço-te, por isso, licença para escrever a um Público distante e ao mesmo tempo tão próximo. Para escrever a um Público que talvez nunca tenha tido a honra de sentir o tambor da batida dos teus pés em cima do palco, ou a epifania de ser parte de uma das tuas tragicomédia-orgias.

De Araraquara para o mundo, nessa mistura tão cheia de Brasil – da ancestralidade indígena com a carga pulsante das tradições do sul da Europa, de Trás-os-Montes ao sul de Itália –, fizeste do teu percurso uma árvore imponente cujas ramificações fazem de ti uma sobreposição de semânticas. Um verdadeiro fractal da tua história que se confunde e replica na história do teatro brasileiro, na história do Brasil e, em último caso, na própria história do mundo desde a segunda metade do século XX.

Não por acaso foste protagonista e ponta-de-lança do movimento tropicalista contra a barbárie da ditadura militar brasileira e estiveste na linha da frente em Paris no levante de Maio de 68. Parece que ainda te ouço em alguma das esquinas do Terreiro do Paço, em Abril de 74, gritando a plenos pulmões "criar, criar, poder popular", ou te vejo no parto coletivo de uma nação, no Moçambique de 1975.

Mas, no fim, o maior passo, a tua maior semente, foi mesmo esta casa: o Teatro Oficina. A Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona. A grande fatia do teu corpo, o centro da rosácea na replicação escalar que és tu, José Celso Martinez Corrêa.

Para quem não conhece, e talvez todos nós devêssemos conhecer, o Teatro Oficina da Rua Jaceguai, 520, no centro da cidade de São Paulo, é um ponto nodal, o vértice de uma série de fluxos e corpos (passados e presentes) que constituem uma gramática visceral, com uma maneira particular de se pensar e fazer o teatro com o teatro. Parte fundante da história da cidade e do próprio Brasil.

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O velório de José Celso no Teatro Oficina Isaac Fontana/LUSA

Ao entrar nesse endereço não podemos deixar de sentir o peso do martelo sobre a bigorna. Os sentidos são tomados pelos cantares em frenesi, pela textura dos corpos elétricos ou pela floração dos diálogos. O olhar tanto se prende ao talento inconfundível do coro de protagonistas como se solta à sumptuosidade da arquitetura, dos cenários móveis ou à iluminação contagiante. Tudo parte dessa espécie de liturgia topológica da beleza, produto interno e externo de quem se apodera da energia cinética do "anarquista coroado", que vai de Artaud a Oswald de Andrade, de Stanislavski a Nelson Rodrigues, de Brecht a Euclides da Cunha e por fim de Eurípedes a Davi Kopenawa.

O Teatro Oficina fez-se à medida de Zé Celso, assim como Zé Celso se fez à própria medida do Teatro Oficina. O encenador e o Teatro, o indivíduo e o grupo, formam um verdadeiro rosário a partir do qual a história de uma personalidade se confunde com as outras, e se torna a geografia de um grupo. Onde espaço, temporalidade e teatralidade se entrelaçam indissociavelmente.

Tudo isso és tu, Zé, nada mais que uma mão astral, a cabeça de touro na frente de uma orquestra lançada ao destino fatal de transmutação do fogo. CONTRA-CENA-AÇÃO. E por isso mesmo não morre nunca. Apenas se reconfigura de uma época a outra, de teatro a teatro, de arquitetura a arquitetura, de peça a peça, de ato a ato, de nascimento a nascimento.

Sempre ao teu lado,

Pedro Felizes

(Aldeia Canavial, Terra Parintintin / Pirahã, Rio Ipixuna, 6 de Julho de 2023)

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