Cartas ao director

Sou cristão, mas …

Com oito décadas de vida terrena, tenho tentado seguir a norma fundamental que Jesus Cristo nos ensinou: “Não faças aos outros aquilo que não queres que te façam.” E assim tenho caminhado, através de uma espartana peregrinação, de modo a não prejudicar ninguém. Portanto, sem querer ser ingrato, ou outro semelhante estado de espírito negativo, parece-me que a uns dão tudo, e continuadamente nada dão a quem isso espera toda a vida, como, por exemplo, médico de família para todos e segurança geral por todo o país.

Refiro-me, pois, ao que vai ser dispensado e despendido na Jornada Mundial da Juventude, a ter lugar em Lisboa. São hospitais de campanha, centros móveis de primeiros socorros e uma enorme quantidade de forças policiais, que não se vê normalmente nas ruas, caminhos e vielas de todo o país, a menos que haja um jogo de futebol, para serem contidas as malcomportadas hordas de adeptos. Depois, relembramos os muitos milhões que estão a ser gastos com o palco-altar e respectivo recinto, onde nada faltará, como se todo o cristão ou não-cristão essas mordomias tivessem no quotidiano das suas vidas.

José Amaral, Vila Nova de Gaia

Desculpas de mau pagador...

A questão foi lançada do interior da banca e o Governo não se fez rogado e foi na onda. Assim, revogou a subscrição de Certificados de Aforro constante da Portaria 329-A/2017 e aprovou uma nova com valores bem abaixo dos anteriores e com nítida perda para os depositantes. Isto num abrir e fechar de olhos. A falta de resposta, em termos de rentabilidade, dos depósitos bancários tinha levado a uma corrida aos Certificados de Aforro, de tal maneira que, só num ano, o stock do seu montante cresceu dez mil milhões de euros, fixando-se, para já, em 2023, nos 30 mil milhões. A série, sobre a qual a banca torceu o nariz, consagrava uma taxa de juro de 3,5% ao ano, permitia prazos de subscrição até 15 anos e um valor até 250 mil euros.

Atento e obrigado, e num ápice o Governo revogou essa anterior série por uma bem mais favorável aos lucros bancários. Ganhos dos depositantes reduzidos para uma taxa inferior de 2,5%, prazos de subscrição também inferiores, de 15 para dez anos e num valor máximo até 50 mil euros... só menos 200 mil. Ao pedido do Presidente da República para “um esforçozinho” da banca para melhores juros nos depósitos, respondeu esta, em sentido contrário, com a exigência bem-sucedida de mais lucros. Ao aceitar o sinal que a banca lhe enviou, o Governo frustrou as expectativas dos aforradores, a quem tinha dado com uma mão e agora tirou com a outra. As justificações já surgiram, mas são difíceis de sustentar, pois mais se assemelham a desculpas de mau pagador...

Eduardo Fidalgo, Linda-a-Velha

Maioria absoluta para quê?

Nos últimos tempos a vida das pessoas, o comum cidadão, sentiu na pele e na carteira uma degradação em crescendo. Afinal, a maioria absoluta do quero, posso e mando é a principal responsável pela desigualdade social. A esmagadora maioria dos cidadãos não pode estar condenada ao fatalismo de viver mal.

Não se vislumbra uma só valência da nossa sociedade, desde o SNS aos funcionários judiciais, passando pela escola pública e pela cultura, que não proteste contra as suas condições laborais e remuneratórias. As ausências de respostas reais para a urgência dos diversos problemas é uma infeliz constatação. O poder e a Assembleia da República gastam energias em novelas já estafadas, obliterando o âmago, que prefigura o desviar as pessoas daquilo que verdadeiramente interessa — o foco de questões candentes por solucionar. Quem luta intransigentemente com razão por dignas condições de vida alcançará justas recompensas.

Este Governo finge que anda, mas está parado. Alguém sentiu alguma melhoria, sobretudo as classes baixas, nesta maioria absoluta?

Vítor Colaço Santos, São João das Lampas

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