Que PS quer ser Governo e a travessia sem fim do PSD

António Costa ainda terá espaço para a breve prazo reformular um Governo sem uma parte do PS ou a ala “pedronunista” já corresponde à maioria do partido?

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Para lá dos contornos surreais de todos estes episódios no Governo, existe algo que se adensou de forma evidente desde a demissão de Pedro Nuno Santos. É o facto de neste momento existirem dois Partidos Socialistas num só e que vivem em guerra um com o outro, transportando para o executivo e o espaço público toda a dimensão desta disputa, que não é bonita de se ver e que mereceria local próprio.

O primeiro-ministro até pode querer governar, mas uma parte do PS "pedronunista" querê-lo-á bastante menos ou não o pretenderá de todo. Basta constatar a qual ala pertencem os ministros ou secretários de Estado que mais problemas têm dado a António Costa, e ao país por consequência, mas também, todos os que têm sido o contrário disso. Da Administração Interna, Presidência do Conselho de Ministros, Defesa, Cultura, às Finanças e Economia, existem exemplos positivos e com resultados concretos a demonstrá-lo. Dificilmente uns e outros serão separáveis da ala "costista" e o ministro do Ambiente, Duarte Cordeiro, é a rara exceção que gera a simpatia tanto de um lado como de outro. De resto, nem o primeiro-ministro é inocente no agudizar desta disputa no próprio Governo. Não é por acaso que algumas das pastas mais sensíveis foram dados aos "pedronunistas" e em completa roda livre, sem que existisse qualquer suporte institucional maior nos momentos-chave e antes de todos os absurdos praticados.

Observe-se a novela da TAP desde que começou a comissão de inquérito, a ausência completa e pouco inocente de António Costa que até com a tutela dos Assuntos Europeus quis ficar – em vez de deixá-la ao Ministro dos Negócios Estrangeiros, como é tradição –, mas que aqui, nada quis nem procurou. Apenas e só o distanciamento e desconhecimento. Faz isto algum sentido naquele que era “o” tema que podia acabar com todo o executivo?

Pelo caminho, e longe de ter sido apenas aqui, a suposta vingança veio através de uma série de adubos bastante deprimentes, nas mais variadas informações partilhadas em momentos-chave e que se nortearam por uma ausência qualitativa, ética, mas também por uma tremenda falta de sentido de Estado.

Culminou tudo no fim da semana em que nos apercebemos que a economia portuguesa cresce mais do que as previsões do "optimista irritante" e a inflação começa a descer bem mais cedo do que 99% dos economistas do espaço público português decretavam e em que as exportações batem recordes. Só que este PS levou a melhor e o espaço público ficou inundado pelas últimas trapalhadas do ministério de João Galamba. É mesmo assim: o PS de hoje é o maior inimigo do Governo e da maioria absoluta que António Costa ganhou.

António Costa ainda terá espaço para a breve prazo reformular um Governo sem uma parte do PS ou a ala "pedronunista" já corresponde à maioria do partido? Se a resposta aqui for como temo, o Partido Socialista não quer ser Governo e terá de resolver a sua ópera interna, o modelo a seguir e a ala dos “ministeriáveis” na oposição.

Passados sete anos de oposição e mesmo com o partido do Governo a viver esta guerra fratricida, é ainda mais deprimente o PSD não estar à altura de ser alternativa. Foi mesmo essa a confissão recente do seu líder, dos novos e eternos amanhãs que cantam no partido e é reveladora a inconsequência da segunda parte da declaração do Presidente da República de quinta-feira, depois de uma primeira que tudo indiciaria ir noutro sentido.

Nos próximos meses, veremos respondida a pergunta se o PS quer mesmo ser Governo e que PS, mas é crucial que hoje se comece a exigir mais do principal partido da oposição. Desiludam-se os Pinto Luz das ambiguidades com o Chega e os que acham que o próprio Marcelo não procurará mais clarividência ao seu partido de raiz.

Se não, nem em 2026 estão prontos para ser alternativa. Não se habituem, a instabilidade política vai ser transversal nos dois principais partidos.

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