Presidente da Inditex e dona da Zara, Marta Ortega, defende que não produz fast fashion

A filha de Amancio Ortega está na liderança da gigante têxtil há um ano e diz-se mais preocupada com o produto, do que com as finanças.

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Marta Ortega nasceu a 10 de Janeiro de 1984 Europa Press Entertainment/Getty Images

Há um ano que Marta Ortega é presidente do grupo Inditex, tempo necessário para mostrar como pretende seguir uma abordagem diferente do pai, Amancio Ortega, que só concedeu uma entrevista ao longo de toda a vida. Em entrevista ao Financial Times, a executiva defendeu que a gigante têxtil espanhola está longe da fast fashion e confessou que não gosta de “números em geral”, mas, sim, do produto.

“Não nos reconhecemos no que se chama fast fashion”, garante Marta Ortega, presidente executiva do grupo, que detém marcas como a Zara, Bershka, Massimo Dutti, Oysho, Pull and Bear e Stradivarius. Recusa-se a traçar paralelismos entre a Inditex e a gigante Shein, que tem conquistado o mercado pelos preços baixos — apesar de várias polémicas relacionadas com direitos humanos.

“Ser fast fashion sugere que a qualidade está comprometida, o que é o contrário do que buscamos”, defende, lembrando que “mais de 40% das pessoas da equipa” se dedicam ao produto. “Temos 250 designers na Zara, assim como modelistas. Ainda fazemos os moldes e experimentamos em modelos reais”, acrescenta.

E quanto à velocidade com que as novas peças chegam às lojas — são mais de seis mil lojas em 96 países — Marta Ortega quase culpa os clientes. “Temos um modelo de negócio focado na procura do cliente, e respondemos a isso. Fornecemos e distribuímos com essa mentalidade, para nos ajudar a minimizar o stock residual que temos, menos de 2%.”

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Loja da Zara REUTERS/ANDY RAIN

Esta "mentalidade", reforça, já existe no grupo desde 2001, quando publicaram o primeiro Plano Estratégico de Sustentabilidade. Agora, querem atingir zero emissões ao longo da cadeia de valor, tendo 2040 como prazo. Até ao final deste ano, comprometeram-se a trocar 100% do algodão utilizado por fibras orgânicas e recicladas. Isto depois de o grupo ter estado envolvido na polémica com o algodão proveniente de Xinjiang.

Quando se tornou público que o algodão daquela região da China era produzido com recurso a trabalho forçado, vários grupos têxteis suspenderam a utilização do material. A Inditex publicou um comunicado a condenar quaisquer políticas de trabalho forçado, negando ter ligação a Xinjiang. Mas a declaração foi removida e não ficou clara a posição do grupo.

Um negócio de família

Polémicas à parte, fast fashion ou não, Marta Ortega aproveitou a entrevista para recordar o modelo de negócio familiar da Inditex, que recua até à abertura da primeira loja Zara, em 1975, na Corunha, Espanha. “O meu pai trabalhava a maior parte do tempo. Mas toda a família da minha mãe [Flora Pérez] trabalha na empresa, então falamos muito sobre o negócio”, conta, lembrando que começou a trabalhar com os pais há 16 anos.

A executiva de 39 anos tece largos elogios ao pai, Amancio Ortega, com quem diz falar todos os dias. Isto porque Marta confessa não gostar “muito” de “números em geral” e precisa de ajuda nesse campo. “A minha energia está no produto e como é apresentado — essa é a alma da nossa empresa e onde posso dar o meu valor”, conta.

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Amancio e Marta Ortega numa corrida de cavalos em Valencia, Espanha, em 2018 FOTOPRESS/GETTY IMAGES

Ainda que não saiba interpretar os números, diz estar a par das finanças, graças a uma “equipa experiente”. E reforça: “Procuramos comportar-nos como uma pequena empresa e não nos distrairmos com os grandes números. O sucesso do negócio vem de nos focarmos nos pequenos detalhes de cada pessoa da empresa.” Só na Corunha, a Inditex emprega mais de 5500 pessoas.

Em 2022, a Inditex fechou o ano com um lucro de 4130 milhões de euros e vendas que atingiram 32.569 milhões de euros, mais 17,5% do que ano anterior, reportaram no início de Março. Em Portugal, têm renovado algumas das lojas, como a Zara da Rua de Santa Catarina, no Porto, a primeira que grupo abriu fora de Espanha, em 1988, ou a Oysho do Chiado, em Lisboa.

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