É preciso respeitar os vinhos, o que não gostamos pode ser extraordinário para outros

É impossível assumir escolhas separadas das circunstâncias. Elas dependem do dia, do momento e da memória. O mais importante é o prazer da partilha, de comer, de beber vinho e de aprender com ele.

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Vinhas da Quinta de Vale de Cavalos, onde nasce o Poças Branco da Ribeira 2021 Direitos Reservados

Como enólogo, acredito que é muito importante beber vinho em vez de o provar. Gostar ou não em vez de pensar. Reagir sem recorrer a um método, afastarmo-nos da técnica e colocarmo-nos no campo do prazer, da partilha, do que todos compreendemos.

Nasci dentro do Soalheiro, da vinha da minha família que depois se transformou em adega e marca, por isso gosto tanto do vinho. Ajudo desde que me lembro, decidi estudar – e continuo a aprender – enologia, gosto cada vez mais do vinho por ser enólogo. Dá-me muito prazer pensar nos caminhos que os vinhos percorreram até chegar ao copo que tenho à minha frente, nos caminhos que podem percorrer os próximos vinhos que façamos.

Tento não confundir as coisas. Quando bebo um vinho que me dá prazer, guardo partes desse momento para depois as revisitar em trabalho. Este é um exercício que faço nos dias seguintes, sem grande método, em qualquer lugar. Faço-o de forma natural e nem sempre o verbalizo, começo a distanciar-me do momento do prazer, de que nunca me esqueço, para olhar o vinho da perspectiva de quem faz.

Tento não responder às minhas perguntas rapidamente – este exercício é fonte de aprendizagem e inspiração. Não o vejo como o perguntar para encontrar resposta, mas como um questionar circular que vai destapar mais perguntas. Há ideias que passo para o papel, partilho com a equipa e depois logo se vê.

Acredito que tudo o que aprendemos, seja como for, vai afectar aquilo que fazemos. A criação é um exercício de conhecimento e intuição (trabalho e tempo). O que criamos é sempre resultado de tudo o que está para trás, da história e do estudo. É resultado do que cada ano nos dá, do que cada parcela nos conta. O que é verdade para alguns territórios pode ser mentira para outros. As ferramentas que conhecemos são a base da nossa inspiração.

Perante o desafio de escrever sobre dois vinhos, é impossível assumir escolhas separadas das circunstâncias. Elas dependem do dia, do momento e da memória. Noutro dia e noutro humor, as escolhas podiam ser diferentes. É preciso respeitar os vinhos, o que não gostamos pode ser extraordinário para outros. Para mim, o mais importante é o prazer da partilha, de comer, de beber vinho e de continuar a aprender com ele.

Poças Branco da Ribeira 2021

2021 foi aquela colheita das temperaturas moderadas. Este é talvez um dos brancos que mais me tem impressionado pela profundidade, complexidade e elegância que consegue. O Arinto, maioritário neste vinho, consegue ter muitas caras em Portugal.

Aqui, assume mais a estrutura, é contido no nariz, na boca tem a acidez perfeita e dá-me muito prazer. Na ocasião a que regresso para escrever estas palavras, bebi-o a acompanhar um queijo de São Jorge ao final da tarde, entre amigos, num wine bar no Porto.

Andei com ele na cabeça uns dias. A integração da madeira é perfeita e límpida – gosto de voltar a esta questão porque é fulcral quando se trata do Alvarinho, a casta que mais trabalho. Intriga-me sempre o aroma com um misto de complexidade, evolução e frescura. Admiro a forma como este vinho estagiou na barrica, tem algo de diferente.

Por curiosidade, tentei saber. Talvez seja devido a um atesto criterioso das barricas. Umas sempre, outras não. É um vinho inspirador. Com um PVP recomendado pelo produtor de 55 euros.

Casa da Passarella O Fugitivo Bastardo 2019

Uma casta com pouca cor e um tinto daqueles que adoro. Elegância, aroma contido com uma sensação ligeiramente vegetal fresca. Uma delícia. Para beber sem pensar.

Tenho o hábito de provar vinhos em casa, ultimamente o meu filho mais velho tem-me desafiado para coisas diferentes e torna-me a vida difícil para o surpreender – o mais novo também cheira, mas tem de ficar por aí. Nesse dia, preparou-se massa fresca e bebemos este vinho. Adoro este perfil menos encorpado com toques vegetais e gulosos.

A conversa andou à volta da vinificação em lagar, da fermentação dos tintos sem desengace total e das cubas de cimento. Os tintos muito encorpados são sempre difíceis para mim, talvez pelo defeito profissional (e pessoal) de beber essencialmente brancos, mas este estilo de tintos enche-me as medidas.

O trabalho que tem sido feito com o Bastardo, o Jaen e algumas castas tintas tradicionais é uma motivação para olharmos o passado com perspectivas de futuro.

Este vinho, em concreto, tem um PVP de 31,15 euros na loja online do produtor.

Este artigo é publicado no âmbito de um desafio lançado pelo Terroir a vários enólogos para escreverem sobre O Vinho dos Outros

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