Coreógrafo alemão esfregou fezes de cão na cara de uma crítica de dança

Marco Goecke foi entretanto suspenso das suas funções na Ópera Estatal de Hannover e está a ser investigado pela polícia após ataque motivado por uma recensão negativa ao seu mais recente espectáculo.

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Marco Goecke em palco num outro espectáculo da companhia neerlandesa Rahi Rezvani/Nederlands Dans Theater

O coreógrafo alemão Marco Goecke esfregou um saco cheio de excrementos de cão no rosto da jornalista Wiebke Hüster por não ter gostado da crítica que esta escreveu, no diário alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung, sobre o seu mais recente espectáculo. O director da companhia de bailado da Ópera Estatal de Hannover foi entretanto suspenso das suas funções naquela instituição e está a ser investigado pela polícia depois do ataque de sábado.

O cariz insólito e grave do caso fala por si, numa altura em que se debate a crise da crítica cultural e a desvalorização do papel da imprensa.

Coreógrafo premiado no seu país (recebeu no ano passado o principal galardão da dança alemã, o Tanzpreis, ex-aequo com Christoph Winkler), Marco Goecke é também artista associado do Nederlands Dans Theater, sediado em Haia, nos Países Baixos. Foi justamente para esta companhia que criou o espectáculo visado pela crítica negativa de Wiebke Hüster, na qual esta dizia que In the Dutch Mountains corria o risco de enlouquecer ou matar o público seria “pelo tédio”.

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A peça criticada pela jornalista alemã Rahi Rezvani/Nederlands Dans Theater

No sábado passado, a jornalista e crítica de dança tinha ido assistir a outro espectáculo na principal sala de ópera da cidade alemã, Glaube – Liebe – Hoffnung, quando Marco Goecke apareceu à sua frente durante o intervalo. Não se conheciam pessoalmente. A crítica a In The Dutch Mountains fora publicada nesse mesmo dia no Frankfurter Allgemeine Zeitung, um diário de referência na Alemanha. Segundo contou ao jornal norte-americano New York Times, o coreógrafo de 50 anos surgiu de repente e confrontou-a com o teor do texto. Depois, puxou de um saco que continha excrementos do seu cão e esfregou as fezes no rosto de Wiebke Hüster, de 57 anos.

À BBC, Hüster, que faz crítica de dança há 25 anos, disse estar “em choque” após o ataque “brutal” de que foi vítima.

“Quando percebi o que tinha acontecido, gritei, entrei em pânico — posso garantir que não foi um acto impulsivo, ele tinha planeado isto. Considero-o um acto contra a liberdade de imprensa”, afirmou ainda à estação pública britânica. “Foi horrível”, descreveu ao New York Times, explicando que quando se recompôs participou o ataque à polícia. Está agora aberta uma investigação por ofensa à integridade física e injúrias.

O coreógrafo considerou que a crítica negativa ao seu espectáculo levou a uma diminuição da procura de bilhetes de temporada, ou mesmo ao cancelamento de assinaturas, e terá começado por ameaçar banir a jornalista dos espectáculos da companhia. Depois de a atacar, saiu sem ser travado por ninguém.

De acordo com o New York Times, Goecke e o seu cão Gustav, um Dachshund (também conhecido como cão-salsicha), são um par conhecido na cidade e o seu estatuto de celebridade num certo círculo já o levou a jantar em Paris com a princesa Carolina do Mónaco, como detalha o The Guardian.

Na sequência do confronto, Marco Goecke foi não só suspenso das suas funções na companhia de bailado estadual como está mesmo impedido de entrar na sala de espectáculo, de acordo com o citado diário britânico. A sua longa relação com a Ópera Estatal de Hannover, onde começou por ser coreógrafo convidado, antes de assumir em 2019 a direcção do corpo de bailado, está agora em risco. A instituição já veio lamentar o acto “impulsivo” do director e os “danos maciços” que causou à companhia. O coreógrafo será ouvido no âmbito de um inquérito interno, após o qual haverá uma decisão sobre o seu destino profissional.

A directora artística da Ópera Estatal de Hannover, Laura Berman, diz ter contactado a jornalista para lhe pedir desculpas, ainda segundo o Guardian, e garante que quer manter a reputação da casa como “lugar aberto de cooperação e troca respeitosa”. Na companhia de bailado daquele estado alemão trabalham dezenas de bailarinos, nomeadamente a portuguesa Anita Ferreira, que ali é aprendiz.

O coreógrafo em entrevista sobre a peça neerlandesa

A companhia neerlandesa também já se dissociou do acto, que frisou ser “contrário” aos seus valores.

O trabalho de Goecke passou pelo menos uma vez pelos palcos portugueses, no Festival de Sintra, com a companhia Scapino Ballet Rotterdam — foi em 2008. O coreógrafo trabalhou com importantes instituições, como o Ballet da Ópera de Paris ou os Ballets de Monte Carlo.

O meio artístico alemão debate-se agora com a perplexidade perante este acto, bem como com o debate transfronteiriço — a notícia do ataque, pelo seu cariz escatológico e violento, está a correr mundo — sobre a relação dos artistas com a crítica e do público com a imprensa. A Associação de Jornalistas Alemães considerou a agressão “nada menos do que um ataque à liberdade de imprensa”, ao passo que o Frankfurter Allgemeine Zeitung defendeu a sua crítica do que considera ter sido “uma tentativa de intimidação” contra a liberdade de apreciação do jornal. “O incidente mostra, no seu chocante método de violência física, o que muitas vezes se pensa e se diz nos círculos artísticos sobre a crítica e os críticos.”

O diário alemão recorda que em Outubro de 2021, a directora da Hamburger Schauspielhaus, Karin Beier, disse à Deutschlandradio que a crítica "é a merda na manga da arte".

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